Esteve no epicentro do covid-19 em Wuhan e apanhou o vírus em Portugal

Treinador de guarda-redes do Gil Vicente foi um dos infetados do clube gilista no surto de início de época.

O treinador de futebol Miguel Matos esteve confinado em Wuhan no final de janeiro, quando o novo coronavírus se disseminou pela cidade chinesa, e contraiu-o em Portugal, em setembro, após trocar o Hubei Chufeng Heli pelo Gil Vicente.

Depois do regresso a solo luso no início de fevereiro, num voo de repatriamento coordenado por autoridades europeias, o treinador de guarda-redes ia regressar à China no final de julho, mas o convite gilista fê-lo permanecer em Portugal, onde viria a ficar infetado, face ao surto que, em setembro, afetou 15 pessoas no clube da I Liga portuguesa de futebol, entre jogadores, técnicos e elementos da estrutura do futebol.

"Há um pormenor castiço, que, na altura, não teve piada: fugi do vírus de Wuhan e fui dos primeiros no Gil Vicente a contraí-lo. Não tive sintomas. Foi detetado positivo [no teste]. Tivemos logo de vir para casa. Foi na altura em que apareceu um surto. Ao fim dos 10 dias, fui fazer o teste novamente e já deu negativo", recorda à Lusa.

Para Miguel Matos, o ano prestes a terminar fica marcado pela troca de clube, mais a pensar na família e na progressão da carreira do que em "termos financeiros", pelos confinamentos e ainda pelas mudanças nas rotinas sociais.

"Isto realmente veio alterar a vida de todos nós e a minha completamente. Quando vinha passar férias, juntava-me com os meus irmãos e com um grupo de amigos várias vezes, para matar saudades. Desde fevereiro até agora, juntei-me muito poucas vezes com eles. É estranho. A parte social mudou completamente", analisa.

Desde que a pandemia de covid-19 surgiu em Portugal, em março, o responsável pelos guardiões gilistas limitou as práticas ao ar livre, fazendo apenas "exercício e caminhadas em horas com pouca gente na rua".

O técnico de 44 anos, natural de Guimarães, recorda ainda que, na hora do repatriamento, "não imaginava" viver uma pandemia como a que o novo coronavírus originou, infetando mais de 82 milhões de pessoas e provocando a morte a mais de 1,8 milhões, tendo ainda dito que a China foi mais "rigorosa" do que Portugal no combate à pandemia.

Quando esteve isolado em Wuhan, entre 22 de janeiro e 1 de fevereiro, juntamente com o treinador do Hubei Chufeng Heli, Luiz Felipe, e o preparador físico, Luís Estanislau, o técnico ainda podia ir ao supermercado, mas, já depois do regresso a Portugal, o Governo chinês impediu as saídas à rua na urbe com cerca de 11 milhões de habitantes, ao criar uma bolsa de voluntários para entregar comida.

"O governo é que levava os alimentos a casa. Não havia escolha. Levavam os legumes, as massas e toda a gente ficava com os mesmos bens. Aqui, podíamos dar aquele passeio de cinco a 10 minutos para atividade física, enquanto estivemos confinados. Lá, na China, não", esclarece.

Essa regra levou mesmo um dos guarda-redes do Hubei Chufeng Heli, do terceiro escalão chinês, a inscrever-se na bolsa de voluntários para poder "fazer o treino" e "manter-se em forma", ao passo que os restantes atletas se limitavam a fazer os exercícios recomendados através da plataforma Zoom, em suas casas, conta Miguel Matos.

Convicto de que é importante "haver futebol" numa altura em que as pessoas estão mais em casa, o treinador diz-se "muito feliz" no Gil Vicente, mas não descarta, no futuro, voltar à China, um país onde "gostou muito de trabalhar".

"A maioria das pessoas, em Portugal, não tem noção do que é a China. É um país do outro mundo", reitera o técnico, que já passou ainda pelas seleções da Associação de Futebol de Braga, pelo Desportivo das Aves, pelo Santa Clara e pelo Al-Nahda, clube de Omã, no Médio Oriente.

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