Wenger, o francês que resiste a tudo no cargo sem pressão

Gaulês não vence a Premier League há 13 anos e falhou o apuramento para a Liga dos Campeões, mas conquistou a Taça de Inglaterra e vai continuar no clube por mais duas épocas

Mesmo depois de 13 épocas sem vencer a Premier League e de ter falhado o apuramento para a Liga dos Campeões pela primeira vez em 20 anos, parece não haver forma de Arsène Wenger largar o comando técnico do Arsenal, clube que na quarta-feira renovou com o treinador francês até 2019.

O modesto quinto lugar no campeonato inglês, com 18 pontos de atraso para o campeão, e a humilhante eliminação na Champions pela mão do Bayern Munique (pelo agregado de 2-10) motivaram a contestação dos adeptos, mas no caso do gaulês de 67 anos pesou a última imagem da temporada. E essa foi a da conquista da Taça de Inglaterra, há cerca de uma semana, impedindo a dobradinha do rival londrino Chelsea (2-1).

Os apoiantes gunners, que outrora exibiram tarjas onde estavam inscritas frases como "Wenger knows" (Wenger sabe) ou "In Wenger we trust" [Em Wenger confiamos], pagaram um avião para fazer passar uma mensagem bem diferente no início deste ano: "No Contract #Wenger Out" (Contrato não, Wenger fora). "Arsène, thanks for the memories but it"s time to say goodbye [Arsène, obrigado por tudo mas é hora de dizer adeus]", mostraram em outra ocasião.

E, enquanto corriam rumores a dar conta da renovação que agora se confirma, os aficionados arsenalistas recordavam palavras do diretor executivo Ivan Gazidis para forçar ventos de mudança, através de um... camião: "Arsène é responsável perante os fãs. São eles que, em última análise, o vão julgar. Será insustentável se este relacionamento entre treinador e adeptos se quebrar." Tudo tentativas sem sucesso. Wenger não sai.

Nove anos sem títulos

22 de maio de 2005 a 17 de maio de 2014. Quase nove anos. 3283 dias que o Arsenal e Wenger viveram sem conquistar qualquer troféu, um registo que mereceu um comentário de José Mourinho, com quem o francês sempre teve uma relação complicada. "Ele é um especialista em fracassar, eu não. Oito anos sem um pedaço de medalha é um falhanço. Se eu fizesse isso no Chelsea, deixava o clube e não voltava a Londres", afirmou o português em 2014.

"Neste país, só um treinador não está sob pressão. Todos têm objetivos para alcançar e ninguém pode tropeçar, menos um. Se ele não ganha, continua no cargo e acha-se o rei", voltou a disparar o atual técnico do Manchester United, um ano depois. "Fui campeão há 18 meses, não há 18 anos", reforçou, já no começo da última época.

Contudo, as críticas ao treinador francês não se ficam apenas pela escassez de troféus. Também a preparação física tem sido visada, uma vez que os jogadores do Arsenal perderam 13 161 dias a recuperar de lesão entre 2004-05 e 2014-15 - na Premier League, só o Newcastle sofreu tanto (13 344) no mesmo período. A indisciplina dos atletas em campo - cem expulsões entre setembro de 1996 e fevereiro de 2014 -, a fraca aposta em britânicos e a persistente avareza na hora das contratações (comparando com os principais rivais) também serviram de contestação ao longo dos últimos tempos.

Desconfiança à chegada

Arsène Wenger foi anunciado como treinador do Arsenal a 1 de outubro de 1996, para substituir o escocês Bruce Rioch - embora Stewart Houston e Pat Rice tenham, pelo meio, orientado interinamente a equipa.

O técnico francês foi contratado aos japoneses do Nagoya Grampus Eight - onde haveria de ter Carlos Queiroz como sucessor - e, na altura, gerou desconfiança em Inglaterra, por se tratar de um treinador desconhecido em terras de sua majestade. "Ele usa óculos e parece-se mais com um professor do que com um treinador. Falará inglês?", confessou ter pensado o então capitão Tony Adams.

Falhou o título em 1996-97, mas foi reforçando os gunners com compatriotas como Patrick Vieira, Rémi Garde, Anelka, Grimandi e Petit e na época seguinte juntou Premier League, Taça de Inglaterra e Supertaça inglesa.

Implantou um futebol atrativo e uma filosofia de aproveitamento de jogadores da formação e de recrutamento de jovens valores, tendo projetado craques como Henry, Ashley Cole ou Fàbregas. Voltou a vencer o triplete em 2001-02, e fez história em 2003-04, ao ser campeão sem derrotas, igualando o feito obtido pelo Preston North End 115 anos antes. Chegou a estar invicto em 49 jogos, batendo um recorde nacional. Depois disso, apenas quatro taças e duas supertaças para amostra. O suficiente para merecer novo contrato.

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