Luciano Gonçalves: "Se um filho meu quisesse ser árbitro, apoiá-lo-ia mas teria receio"

Luciano Gonçalves, presidente da Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (APAF), nega que existam árbitros profissionais em Portugal, fala dos programas televisivos que estão a destruir o futebol e alimenta a esperança de ver Soares Dias no Mundial da Rússia.

Os árbitros anunciaram falta de condições para apitar os jogos do Canelas. Depende do quê voltarem a apitar?

De percebermos o que a Associação de Futebol do Porto e o seu Conselho de Disciplina vão fazer, porque é necessária segurança para os árbitros.

Mas o que espera que a AF Porto faça?

Não tem de ser a arbitragem a dizer. Tem é de ser feito algo para que os árbitros se sintam seguros. Os árbitros não voltarão a apitar enquanto se mantiver este clima de impunidade.

Esteve reunido com Lourenço Pinto, presidente da AF Porto. Houve um défice de ação ao longo destes últimos meses por parte da associação?

Existiu alguma deficiência ao nível da decisão. Houve muita impunidade. Isto podia ter acontecido há mais tempo ou simplesmente não ter acontecido, mas foram existindo vários episódios que levaram, infelizmente, a este caso.

Há unanimidade nos árbitros da AF Porto? Nenhum volta a apitar o Canelas sem garantias?

Os árbitros estão todos unidos. Não se trata de estar contra o Canelas ou contra o jogador A ou B. Aqueles jogadores, que cá fora muitos deles são amigos de árbitros, no campo transfiguram-se. Tem de haver coragem para os punir.

Esta é uma situação sui generis? O Canelas tem jogadores que fazem parte da claque do FC Porto e da seleção. A Federação Portuguesa de Futebol (FPF) está numa situação frágil?

O que os jogadores do Canelas fazem na sua vida pessoal não nos incomoda. Em relação à FPF e à ligação que refere, isso é algo que só diz respeito à FPF.

Como viu o selecionador nacional ter elogiado uma claque da qual alguns elementos pertencem não só ao Canelas como foram alegadamente ameaçar os árbitros ao Centro da Maia?

Não misturamos situações. Estamos a falar de uma claque que apoiou a seleção de uma forma fantástica no Europeu. Isso foi dito pelo selecionador Fernando Santos e pelo capitão Cristiano Ronaldo.

Claque com jogadores do Canelas.

Mas podiam estar lá também elementos de claques do Benfica ou do Sporting com problemas com a Justiça. Uma coisa é a claque, outra são algumas pessoas que a compõem. Não podemos ser nós, Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (APAF), a opinar sobre isso, tem de ser a FPF.

Como está o processo das ameaças aos árbitros no Centro da Maia?

Está a correr nos tribunais civis.

Mas os árbitros sentem-se ameaçados depois disso?

Não, senão sentíamo-nos todos os dias quando ligamos a televisão Não se sentem ameaçados ou coagidos porque são preparados para isso, isto sem tirar gravidade ao que se passou na Maia. Esse processo está a seguir, no local não identificámos quem lá tinha estado.

Mas Artur Soares Dias fez queixa?

Sim, sim, fez.

Para sermos claros, estamos a falar de elementos ligados aos Super Dragões?

Nem o Artur nem ninguém pode dizer isso. Podemos ter a nossa opinião até porque depois o Fernando Madureira demarcou-se daquela atitude. Não podemos dizer que eram elementos dos Super Dragões porque não se identificaram como tal ao Artur.

Mas o que disseram a Soares Dias?

Não foi com a gravidade de que se falou, tiveram uma conversa com o Artur dizendo-lhe qualquer coisa como "vê lá como corre o próximo jogo".

Mas esses adeptos referiam-se ao jogo do FC Porto em Paços de Ferreira?

Também podiam ser adeptos de outro clube a avisar "vê lá se não vais lá ajudar o FC Porto". Isso pode levar-nos a outros entendimentos. Não posso dizer que eram dos Super Dragões.

A FPF anunciou policiamento até final de época em todos os jogos. Isso dá mais tranquilidade?

Sim, era algo que a APAF vinha exigindo. Mas queremos que esta medida seja replicada para as associações distritais.

Se a medida não for definitiva, existe a possibilidade de surgir uma greve total no início da próxima época?

Não vou dar azo a essa possibilidade. Foi pedido o policiamento obrigatório até ao fim da época e depois em conjunto temos de fazer que passe a vigorar em definitivo. Não se consegue mudar uma lei de um momento para o outro.

A APAF está mais aberta ao diálogo...

Não vamos parar com a nossa luta se a nível distrital o policiamento não for obrigatório. Precisamos que as associações façam o mesmo caminho que a FPF fez, e de uma forma célere.

Estamos a falar de um prazo de dias...

Sim, dias.

Os árbitros da 1.ª categoria estão sensibilizados para entrar nesta luta?

Desde a primeira hora.

Mas muitos árbitros da 1.ª categoria são profissionais e dependem apenas da arbitragem. Se calhar não podem parar...

Sejam profissionais ou não, os árbitros estão dispostos a ir para a luta.

Se houver uma decisão mais extrema e transversal, esses árbitros da 1.ª categoria vão estar na linha da frente?

Vão estar na linha da frente porque todos eles começaram por baixo.

Não está afastada a possibilidade de haver até final da época uma reivindicação forte por parte dos árbitros?

Não somos defensores de uma greve. O que poderá acontecer é que todos os árbitros fiquem indisponíveis enquanto não estiverem reunidas as condições que pedimos, ou seja, policiamento obrigatório em todos os jogos, porque há casos em que não é possível identificar os agressores. Mas queremos esgotar as vias do diálogo.

Dos 44 árbitros agredidos neste ano, alguns desistiram da arbitragem?

Sim, estaremos a falar de meia dúzia, principalmente os mais jovens, com menos de 18 anos. São árbitros que ganham 5,5 euros por jogo.

Se um filho seu quisesse ser árbitro neste momento, incentivava-o?

É difícil hoje vendermos a arbitragem como uma atividade bonita. Tenho dois filhos que jogam futebol e gostava que um deles seguisse a carreira da arbitragem, mas se me pergunta se um pai se sente seguro ao motivar um filho a ser árbitro, a resposta é não. Se um filho meu quisesse ser árbitro, apoiá-lo-ia, mas teria receio. Se me pergunta se temos a arbitragem preparada para dar segurança a um jovem árbitro... não, não temos.

Se o seu filho de 14 anos lhe dissesse que queria ser árbitro...

A paixão que tenho pela arbitragem sobrepunha-se ao meu receio pela integridade física dele. Iria apoiá-lo, mas teria receio.

Qual é o seu clube do coração?

Tenho, mas não vou revelar.

Estava à espera dessa resposta.

Qualquer pessoa tem clube. Comecei na arbitragem aos 22 anos, com essa idade tenho um clube, estaria a ser hipócrita se dissesse o contrário. Pus os meus filhos com 4 anos na Academia do Sporting da Marinha Grande. Quando vim para a APAF fiz um comentário a elogiar a arbitragem do Tiago Martins e o Dragões Diário foi ao meu Facebook repescar uma fotografia de há muitos anos em que os meus filhos estavam equipados à Sporting. Também na minha página do Facebook pus um like num colega equipado à Benfica e serviu para fazer chacota. O meu agregado familiar é composto por cinco pessoas e tenho em minha casa simpatizantes de Benfica, Sporting e FC Porto, e vivemos felizes.

Como vê os árbitros que publicam posts nas redes sociais que os ligam a determinado clube?

Estão a pôr-se a jeito. Sou um dos maiores críticos da exposição clubística. Um jovem quando tira o curso de árbitro está longe de pensar que vai chegar à I Divisão. Em cada ano sobem dois, três no máximo, e tiram o curso 400. Esses miúdos não pensam que um dia vão recuperar as suas ligações clubísticas. Nos cursos, os árbitros são alertados para esses comportamentos.

Os dirigentes deviam sofrer castigos mais severos por pressão à arbitragem?

Não, os dirigentes deviam era ter a noção do peso e da importância que são naquilo que dizem e fazem e evitar certos comportamentos. Estamos a destruir o futebol, mas a mudança tem de partir deles.

O futebol está a ser destruído?

Não estamos a valorizar nem a saber vender uma coisa que é nossa. Os próprios intervenientes estão a destruir o seu produto. É a mesma coisa que numa frutaria o dono deixar as maçãs podres no cesto. Se não as vender, todos os dias tem de as limpar e pô-las bonitas. No nosso futebol há maçãs podres que estão a estragar o resto da caixa.

Quem são essas maçãs podres?

Não vou dizer nomes... acredito que as pessoas mudam, até pessoas com longo historial.

Como presidente da APAF, que opinião tem dos sucessivos programas televisivos com adeptos dos três grandes em que todos os lances são escrutinados?

Vejo com preocupação. Cada vez existem mais programas e comentadores. Aquelas pessoas estão ali com uma função, que é a de comentador desportivo, mas não é isso que fazem. Temos pessoas que deram tanto ao país e agora estão a fazer mal ao futebol.

Está a falar de quem?

Muitos dos comentadores estão ao serviço de tudo menos do futebol; mandam recados, criam o pânico. Falarem do penálti mal assinalado ou de uma má exibição de um árbitro faz parte e vivemos bem com isso. O que nos dói é a suspeição, a chico-espertice de que controlamos tudo, a coação através de segundas intenções das palavras. Isto não pode acontecer. São 35 horas semanais nas televisões disto tudo. É um grave problema que nós temos.

Há processos em curso contra esses comentadores?

Sim, há três. Processos acionados pela APAF e por árbitros por porem em causa a idoneidade.

Esse escrutínio não leva a que seja mais fácil, mesmo que inconscientemente, decidir a favor dos grandes?

90% dos árbitros não vê estes programas desportivos. Isso tem que ver com experiência, os 10% são dos mais novos que têm a tentação de perceber se falam deles. De forma alguma o árbitro vai fazer um Benfica-Porto de Mós condicionado. Os árbitros estão preparados para este tipo de pressão, têm acompanhamento psicológico...

Está a falar dos profissionais, mas também há árbitros não profissionais a apitar os jogos mais mediáticos.

Esqueça isso, não há árbitros profissionais em Portugal. Há semiprofissionais e falsos profissionais. Um árbitro profissional é aquele que tem o foco todo na sua atividade. E nós não temos árbitros com condições de estrutura que lhes possibilite trabalhar diariamente.

O que falta para serem profissionais?

Toda a equipa ser profissional é ter um espaço em que possa treinar e estudar. Quando os árbitros principais estão disponíveis e os assistentes não estão. Não há uma verdadeira profissionalização quando o árbitro é profissional e os assistentes não são.

E quem está a falhar para que a profissionalização não seja uma realidade?

A FPF, a Liga, os árbitros também. Todos. Temos de nos sentar todos à mesa.

O governo devia intervir?

Também. Até pela questão do estatuto. Não há o estatuto de árbitro em Portugal. Treinadores, jogadores, dirigentes têm estatuto, mas os árbitros não.

Qual é o melhor modelo para a arbitragem? A funcionar como uma empresa autónoma?

A arbitragem profissional deve estar fora da FPF e da Liga, e isso é possível. Tem sido muito importante a presença da arbitragem na FPF e ela nunca poderá sair totalmente da FPF. A arbitragem dita profissional pode ser autónoma, sim, mas não é fácil retirar os árbitros profissionais e pô-los numa empresa, é preciso acautelar promoções e despromoções porque há árbitros que vão deixar os seus empregos.

Defende relatórios públicos até como forma de defesa do próprio árbitro?

Defendo desde que não sejam utilizados com o fim de se banalizar o árbitro.

Como vê o videoárbitro?

É uma ajuda, mas... o videoárbitro só vem reduzir 25% dos erros. E se não estivermos preparados para isso, vamos aniquilar os resultados do videoárbitro e começar a pôr em causa o realizador, o cameraman, se essas pessoas vêm de Lisboa ou do Porto...

Não vamos ter árbitros no Mundial sub--20 e provavelmente também não no Mundial 2018. Culpa de Vítor Pereira?

Nem quero pensar na possibilidade de não termos o Artur Soares Dias no Mundial 2018. Não gosto de atribuir culpas. Não é só o Vítor Pereira... o problema vem de trás. Andámos muito tempo a gerir e não a pensar. Não se prepararam árbitros para os termos prontos a dez anos. O Vítor em quatro anos percebeu que íamos ficar sem três árbitros internacionais e em dois ou três anos teve de encontrar substitutos. Fizemos foi árbitros à pressão. Tivemos a sorte de termos árbitros competentes, mas precisam de tempo. Para não perdermos a quota de árbitros internacionais tivemos de ir buscar árbitros mais pelo critério da idade do que pela experiência. E tivemos de colocar esses árbitros internacionais cedo demais nos tais jogos sob forte escrutínio, o que fez que a máquina da comunicação os começasse a triturar muito mais cedo.

Bruno de Carvalho disse que Vítor Pereira está prestes a regressar...

Não sei se está de regresso ou não, mas o Vítor Pereira é dos melhores formadores que temos em Portugal. É um formador de topo. Não conseguiu ser dirigente, o que levou à saída que teve. Pelo que fez pela arbitragem não pode de forma nenhuma ficar longe ou desligado da arbitragem. Como dirigente não teve o sucesso que teve enquanto árbitro.

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