Frederico Morais: "Neste ano vou a Peniche sem ser convidado"

Garantiu em dezembro a entrada no circuito mundial de surf, com um excelente desempenho na Vans World Cup, no Havai. É o segundo surfista português da história a conseguir tal feito, depois de Tiago Saca Pires (2008 a 2015). E entra em ação nesta semana na Austrália.

Aos 7 anos escreveu uma carta e enviou-a para a revista Surf Portugal a dizer: "Olá, eu sou o Frederico e ainda vão falar muito de mim." Aos 24 anos pôs o mundo a falar de si ao entrar na elite mundial...

[Risos] Há uns dias voltei a ler a carta e desatei a rir-se, foi um momento único. Naquela altura acho que ainda não tinha sonhado com isto. Como podia? Tinha 7 anos, mas consegui levar Portugal às bocas do mundo em 2016... Está a ser melhor do que alguma vez podia ter sonhado. Mas agora é altura de ter os pés bem assentes na terra. Chegar ao World Tour é um objetivo muito difícil, é preciso muito trabalho, muitas viagens, muito treino, muito sacrifício...

A herança do Tiago Pires é pesada?

Não sinto peso para chegar ao que o Saca conseguiu. Cada um tem a sua trajetória, o seu caminho e a sua carreira. Ele abriu as portas do surf mundial ao português. Uma pessoa tem de lhe tirar o chapéu por ter sido o primeiro a entrar na elite e ter ficado lá uns anos, e também pelo que já deu ao surf português, mas eu vou fazer o meu caminho sem sombras.

Nesta altura, a poucos dias da estreia, está ansioso, nervoso?

Mais expectante do que outra coisa...

Já definiu os objetivos para a Liga Mundial, em ano de estreia?

Sei que vai ser um ano difícil, mas eu gosto de desafios. Sei bem o que tenho de fazer e onde tenho de melhorar e evoluir. Vou começar do zero. Isto é outro mundo. Quero começar com os pés bem assentes na terra, mas não escondo que assegurar a presença no circuito em 2018 é o desejo. Depois de entrar, não quero sair, mas preciso de apreciar esta experiência e ficar tranquilo. Claro que vencer uma etapa seria extraordinário...

Como foi a preparação para o circuito mundial?

A minha preparação já começou há pelo menos sete anos. Tento ir todos os dias ao ginásio e surfar duas vezes por dia. Se o mar estiver muito bom, o ginásio espera... Surfar é a parte mais importante, mas tento sempre conciliar as duas coisas e ajustar-me aos meus horários. E quando não há ondas no Guincho, é meter-me na carrinha e ir à procura delas...

Anseia por alguma etapa em especial?

Peniche, sem dúvida. Será especial. Por ser em Portugal e porque desta vez vou sem ser convidado [sorrisos]. Ganhei o direito de lá estar, como residente. E Jeffreys Bay, na África do Sul. Adoro surfar lá, foi onde encontrei as ondas que melhor se adequam ao meu surf...

O surfista preferido do Frederico no circuito é o Mick Fanning, que vai voltar neste ano, após o ataque de um tubarão. E o Kikas já apanhou algum susto no mar?

Com um tubarão, não. Talvez o maior susto tenha sido o que apanhei em Pipeline (Havai), quando tinha 14 anos. Bati nas rochas e levei 14 pontos na cabeça e mais 14 nas costas. Mas espero não ter pela frente o Mick na Austrália, um ex--campeão mundial, da casa e com um surf parecido ao meu... é um pouco assustador [risos].

Disse várias vezes que o seu pai foi a pessoa mais importante neste longo caminho. Que conselho reteve mais?

Dizer-me que só podia sair do mar com uma onda boa - "arranja uma onda, faz o que conseguires e o que não conseguires, mas não sais sem um boa onda". Houve dias em que já saí do mar de noite. E ainda hoje eu não consigo sair da água sem uma onda boa, é com essa imagem na memória que gosto de dormir.

Pai treinador, mãe professora...

A família foi importante neste percurso. Nas férias viajavam para os sítios onde eu podia surfar. Começámos a ir ao Havai no Natal e à Austrália na Páscoa. Havia semanas em que faltava às aulas por causa das provas e era realmente difícil acompanhar tudo, mas a minha mãe sempre fez esse esforço de me ajudar a estudar, fosse no avião, no autocarro ou entre provas. Era bom aluno, sempre tive boas notas e passei os anos todos .Acabei o 12.º ano e a partir daí começou a ser impossível conciliar as duas coisas e optei por viver o meu sonho.

Quem é o melhor surfista?

O Kelly Slater é o melhor surfista de todos os tempos.

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