"É a minha melhor época de sempre"

Entrevista. Depois da revalidação do título nacional e da conquista do título europeu da World Surf League, Carol Henrique ainda tem hipóteses de se qualificar para o CT, embora reconheça dificuldades e falta de patrocínios.

Já tinha assumido que revalidar o título nacional não era o principal objetivo desta temporada mas, mesmo assim, qual foi a sensação?

O título nacional não era o principal objetivo, mas competir na Liga é sempre uma excelente experiência, por tudo, e as ondas portuguesas têm sempre grande potencial, pelo que é sempre um excelente treino competitivo. E é claro que ganhar uma competição tão prestigiante me deixa muito feliz.

As ondas portuguesas têm muito potencial e Portugal é, cada vez mais, um destino de excelência no surf mundial, mas, por azar, esta edição da Liga Meo Surf não foi muito feliz nesse capítulo...

Sim. Portugal tem sempre muito vento e, nos campeonatos, às vezes, o mar tem um dia bom em três de competição, mas até isso constitui um bom treino. E isso vale até para o WQS [Circuito de qualificação mundial], onde o mar é sempre difícil, especialmente quando é altura de competirem as meninas: ou a maré está muito cheia ou muito vazia... até por isso é um bom treino.

Conseguiu, além do título nacional, ser campeã da Europa da WSL. Foi uma surpresa, ou já apontava para esse objetivo no início da temporada?

Sim, já pensava nisso. O ano passado fui quinta da Europa e percebi que podia melhorar muita coisa, por isso o título europeu era um desafio este ano. Tens de trabalhar dia a dia para evoluir e percebi que sim, que estava com bom surf e os resultados apareceram; primeiro nos QS de Israel e Caparica e, finalmente, com uma vitória em Espanha (Zarautz). Liderei o ranking europeu o ano todo, pelo que era esperado. Seja como for, ter concretizado esse sonho não podia ter sido mais saboroso.

Com estes resultados, a nível nacional e europeu, considera que é a sua melhor época como profissional?

Sim, com certeza, é a minha melhor época de sempre. Tanto no Europeu como no internacional. Depois da vitória em Zarautz cheguei a estar em nono lugar no QS e depois desci um pouco e agora estou em 24.º, mas nunca fiz resultados tão bons no circuito de qualificação.

Então o que falta agora para receber a atenção dos patrocinadores, já que compete sem patrocinador principal?

Acho que o fator do patrocinador é difícil de perceber. As marcas do meio do surf, ou até as de fora, não apoiam muito o facto de se estar no campeonato e ter bons resultados, assim como as notícias e retorno mediático que vêm com isso. Na verdade, só consegues o patrocínio através do contacto pessoal com o responsável da marca, tem de existir uma relação. Entretanto, em julho, fechei com a Hurley, o que é encorajador. Não é um patrocinador principal, não custeia tudo, mas dá cada vez mais motivação e quem sabe não abre portas para vir a integrar a equipa internacional da Hurley.

É duro manter-se motivada quando não sabe de onde virá o dinheiro para a próxima viagem e próxima etapa do QS (circuito de qualificação da WSL)?

Sim, é difícil. Graças a Deus, os meus pais apoiam-me muito e seria impossível continuar sem eles. Eu retiro motivação das pessoas que me ajudam, da minha equipa: o meu treinador, o psicólogo, o ginásio que me apoia...há muitas pessoas que fazem com que não desista. E fazem com que isto seja tudo ainda mais especial.

Neste momento, ocupa a 24.ª posição do QS. Pensa que este pode ser o ano de Carol Henrique, ou seja, o ano de qualificação para o World Tour?

Acho que ainda é possível, mas depende de conseguir fazer uma etapa na Austrália. E mesmo que não cumpra este ano, para o próximo quero tentar reunir uma estrutura ainda mais forte para atacar a qualificação. Com estes títulos, os meus objetivos passam a ser entrar no WCT e para isso é fundamental poder estar confiante e confortável nos campeonatos, poder viajar com treinador e poder planear o ano. Em breve vou sentar-me com os meus pais e o meu treinador e ver como serão os meus próximos meses. Até lá, vamos ainda ter o Eurosurf na Noruega. Esse é o meu próximo desafio.

Pensa que o surf feminino não tem a atenção devida por parte dos agentes da modalidade, imprensa, patrocinadores, e outros...?

Acho que sim. Como qualquer desporto, o masculino tem muito mais notoriedade. Mas já vai havendo campeonatos só de miúdas e isso mostra que o surf feminino está a ganhar cada vez mais força. E vão aparecendo mais miúdas da nova geração. É verdade que ainda existe um grande fosso entre o surf masculino e feminino no que diz respeito à visibilidade, verbas e apoios, mas estou confiante. Quem sabe daqui a uns anos não estarão equiparados...

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