"Nos treinos ouve-se mais português do que inglês ou polaco"

Na Polónia mora a equipa com mais portugueses numa liga principal. Ao todo são seis. Flávio Paixão e João Nunes contam ao DN como é viver e jogar no país de Lewandoski

O Lechia Gdansk da Polónia tem seis jogadores portugueses no plantel e promete fazer escola no mapa da emigração futebolística, depois de Chipre e da Roménia terem perdido esse estatuto. O clube polaco é mesmo o que mais atletas made in Portugal tem a nível mundial, entre os principais campeonatos, tendo em conta que o Wolverhampton, que também conta com seis portugueses, atua na segunda divisão inglesa. A equipa do Consulado de Macau (19) e o Lusitanos de Andorra (sete) têm mais atletas nacionais, mas não se trata de contratações internacionais (muitos são oriundos do território ou filhos de emigrantes).

No Lechia, Flávio e Marco Paixão dividem o ataque, enquanto Steven Vitória (luso-canadiano) e João Nunes fazem dupla no centro da defesa. Depois há ainda Romário Baldé e João Oliveira (luso-suíço). E, além dos "tugas", há ainda jogadores com ligações ao futebol português como Slachev (Sporting) e Matos Milos (Benfica). "Nos treinos ouve-se mais português do que inglês ou polaco e quando jogamos todos há uma interação diferente, o que é normal. Os polacos são mais introvertidos e dizem que nós somos barulhentos, que rimos muito alto, connosco há convívio e boa disposição sempre, somos um grupo alegre no balneário, mas a eles às vezes faz confusão", disse ao DN João Nunes, um dos seis portugueses da equipa, lembrando que até o presidente do clube, Adam Mandziara, já percebe e diz umas palavras na língua de Camões.

O central jogava na equipa B do Benfica e "estava falado" que ia fazer a pré-época com a equipa principal dos encarnados na época 2015-16. "Acabou por não acontecer e sabia que tinha propostas, uma delas era da Polónia, um projeto muito ambicioso que acabou por me convencer. Inicialmente houve algumas dúvidas, se seria o passo certo a dar ou não, mas informei-me sobre o campeonato, vi o histórico do clube e decidi aceitar", contou o internacional sub-20, que assinou um contrato válido até 2019.

Até os jogadores chegarem e conquistarem um lugar na vida de Gdansk, a única presença portuguesa na cidade polaca eram os supermercados do Grupo Jerónimo Martins - "ajuda a matar as saudades com produtos portugueses"- e alguns alunos de Erasmus, que já sabem que o clube tem jogadores portugueses e passaram a ir ver os jogos do Lechia. No dia-a-dia, apesar de terem todos "uma grande ligação", cada um tem a sua vida. Por vezes juntam-se, nem que seja apenas para fazer o chamado passeio real entre a Ulica Dluga (Rua Grande) e o Dlugi Targ (Mercado Grande).

Gémeos abriram caminho

Quando João Nunes chegou já estavam na Polónia os gémeos de Sesimbra e Steven Vitória tinha chegado uma ou duas semanas antes. "Ter alguns portugueses na equipa, alguém que fala a nossa língua quando sais do país pela primeira vez, é uma grande ajuda", admitiu o central ex-Benfica, que neste ano viu chegar Romário Baldé e João Oliveira.

Os irmãos Paixão foram, em parte, responsáveis por desbravar o caminho num mercado que não era dos mais cobiçados. "Acho que de certa forma nós abrimos caminho. Desde que chegámos ao futebol polaco temos feito coisas muito boas, principalmente a nível de golos e da nossa qualidade enquanto jogadores e pessoas. Temos feito grandes épocas, temos ajudado o clube a estar no topo do futebol polaco e creio que isso influenciou a vinda de mais portugueses", admitiu Flávio, que na última jornada marcou o golo que deu a vitória à equipa (1-0, aos 90+5 minutos).

A equipa está a fazer um campeonato modesto (12.º lugar, com quatro vitórias, cinco empates e seis derrotas) depois de no ano passado ter lutado pelo título. Mas há mesmo jogos em que ambos os irmãos marcam golos e a luta pelo título de melhor marcador é uma constante entre os gémeos. Em 2014, Flávio chegou à liderança dos melhores marcadores com um póquer ao atual clube (4-1), mas no ano passado foi o irmão Marco o rei dos goleadores, com 18 golos! "Temos dado vitórias importantes ao clube e cada dia que passa sentimo-nos melhor e isso é bom para a equipa", defende Flávio, que neste ano marcou dois golos e viu o irmão fazer oito remates certeiros.

Antes de se mudarem para a Polónia, Flávio e o irmão Marco informaram-se sobre o futebol polaco junto de outros portugueses que tinham jogado no país "e todas as informações foram muito positivas". "Estou cá há cinco anos, primeiro no Slask Wroclaw, agora no Lechia, e as coisas estão a correr muito bem. Adoro estar em Gdansk, adoro a cidade e sinto-me cada vez melhor no país", admitiu Flávio, que já é meio polaco. Mas nem pensar em fazer dupla no ataque da seleção com Lewandowski: "Adoro este país, a mulher da minha vida é polaca, mas jamais trairia o meu sangue. Sonharei sempre com vestir a camisola de Portugal, a melhor seleção do mundo."

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