Dupla vitória queniana no dia da celebração de Kathy

A mulher que abriu as maratonas à participação feminina voltou a Boston, local onde tudo começou. Kirui e Kiplagat venceram

"Olho para a rua e as casas em redor e tudo me volta à memória": com as recordações à flor da pele e, de novo, com o dorsal 261 ao peito, Kathrine Switzer regressou ontem à Maratona de Boston, para celebrar a dia em que a barreira sexista que impedia mulheres de correrem provas de meia e longa distância começou a ser derrubada. Há 50 anos, Kathy tornou-se a primeira a participar numa maratona com dorsal oficial. Ontem, festejou a igualdade conquistada, tornando a correr a prova, em dia de dupla vitória queniana - de Geoffrey Kirui e Edna Kiplagat.

O tempo, de 4:44:31 horas, 9859.º da geral feminina mas oitavo no escalão 70-74 anos, era o que menos importava. Kathrine Switzer, de 70 anos, voltou à lendária corrida da capital do Massachussets (EUA) para promover as causas da sua fundação, 261 Fearless (que luta pela igualdade de género), e reviver as emoções de há 50 anos. Então, ao inscrever-se na Maratona de Boston, deu um passo decisivo para a mudança de mentalidades no atletismo, numa época em que os eventos a partir de 1500 metros estavam barradas às mulheres.

Inscrita na prova como K.V. Switzer ("não por medo de ser apanhada mas porque tinha J.D. Salinger, E.E.Cummings, T.S. Elliot e W.B. Yeats como referências literárias"), Kathy fintou o machismo da organização e só foi descoberta aos primeiros quilómetros. A jovem maratonista ainda foi perseguida pelo diretor da corrida, Jock Semple (que lhe tentou arrancar o dorsal), mas o seu namorado, Tom Miller, conseguiu placar o juiz, permitindo-lhe continuar até à meta.

O tempo de K.V. Switzer não ficou na história (terá rondado as 4:20 horas) mas a sua participação e as fotos do incidente com Jock Semple ficaram, levaram a causa feminina a bom porto. Em 1972, a Maratona de Boston tornou-se o primeiro grande evento a aceitar mulheres (Kathy logo subiu ao pódio, em 3.º lugar). E nos anos 80 a igualdade chegou às maiores competições mundiais.

Foi com esse simbolismo bem expresso no dorsal (n.º 261, como há 50 anos) que Kathrine Switzer se fez ontem à estrada, acompanhada da equipa da fundação 261 Fearless (261 Destemida, numa tradução livre). A mensagem chegou a todo globo, com a maratonista a partilhar momentos da corrida em vídeos em direto, através da rede social Facebook. "Este foi o local onde Jock Semple me atacou e tentou retirar o dorsal. Olho para a rua e as casas em redor e tudo me volta à memória. Foi mais cedo do que pensava, julgava que tinha sido mais próximo das duas milhas. Agora começa a corrida", dsse, ao passar no ponto mais emblemático desta história.

Então, já lá tinham passado, a um ritmo mais veloz, os dois vencedores. Entre os homens, Geoffrey Kirui, de 24 anos, conquistou o seu primeiro grande título, com o tempo de 2:09.37 horas - 27 segundos de vantagem sobre o estado-unidense Galen Rupp e 51 de avanço sobre o japonês Suguru Osako. Entre as mulheres, Edna Kiplagat, de 37 anos, voltou à ribalta (após as vitórias em Londres, Nova Iorque e Los Angeles) com o registo de 02:21:52 - 59 segundos à frente de Rose Chelimo, do Bahrein, e 1:08 minutos sobre Jordan Hasay. Desde 2012 que não havia vitória queniana em simultâneo em ambas as provas.

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