Doping sem perdão. A porta do Rio 2016 está fechada para o atletismo russo

IAAF mantém suspensão devido a esquema sistematizado de doping. Rússia garante que já resolveu o problema

O mundo teve sete meses para se preparar mas isso não impediu que que a decisão fosse encarada como algo estrondoso, que promete ficar na história do atletismo e dos Jogos Olímpicos: a porta do Rio 2016 está fechada - aliás, continua fechada - para a Federação Russa de Atletismo (ARAF), devido ao esquema de doping institucionalizado que vigorava no país do Leste europeu.

A Associação Internacional das Federações de Atletismo (IAAF) revelou ontem que mantém a suspensão da Federação Russa de Atletismo das provas internacionais - anunciada em novembro de 2015. "Foram feitos alguns progressos [na luta contra o doping] mas não os suficientes", justificou o presidente da IAAF, Sebastien Coe. O castigo implicará a ausência do atletismo russo dos Jogos Olímpicos, que começam a 5 de agosto no Rio de Janeiro. A última decisão cabe ao Comité Olímpico Internacional mas o organismo não deverá colidir com a decisão da IAAF - embora possa aceitar que atletas considerados "limpos", compitam a título individual.

Este castigo (inédito e com um impacto brutal numa das mais emblemáticas modalidades olímpicas) surge como epílogo do mais grave escândalo de doping que abalou o atletismo nos últimos anos. A Rússia - segunda potência mundial nas pistas, atrás dos EUA [ver texto da direita] - fora suspensa pela IAAF em novembro de 2015, dias depois de ter sido divulgado um relatório "demolidor" de uma comissão independente da Agência Mundial Antidopagem, que provava a existência de um esquema de doping institucionalizado na Rússia.

O documento, que dava seguimento a uma investigação da estação televisiva alemã ARD, apresentava provas da existência de um esquema de dopagem sistemática, que "não poderia ter acontecido" sem o conhecimento e consentimento do governo russo.

"Fizemos tudo o que podíamos"

As autoridades de Moscovo sempre negaram qualquer envolvimento no esquema de toma de substâncias ilegais dos atletas russos. "Não há e não pode haver qualquer apoio a nível governamental a violações no desporto, especialmente em questões de doping. Somos categoricamente contra o doping . Combatemo-lo e assim vamos continuar, ao mais alto nível", afirmou ontem o presidente da Rússia, Vladimir Putin.

O discurso de Putin fazia parte do último forcing russo para evitar que a IAAF mantivesse a suspensão da ARAF. "A Rússia fez tudo o possível para assegurar que os seus atletas participem nuns Jogos Olímpicos justos e limpos. Em função dos nossos esforços, peço-vos que reconsiderem a vossa posição sobre a suspensão dos nossos atletas", apelou o ministro dos Desportos, Vitaly Mutko, garantindo que o país tinha cumprido os "100 critérios" estipulados pela federação internacional.

Não era esse o entendimento da Agência Mundial Antidopagem, que esta semana divulgou um novo relatório, que relata situações de ameaças, intimidação dos serviços secretos e grandes dificuldades para realizar controlos no país. Nem foi a opinião da IAAF, que decidiu de forma unânime manter o castigo e estima que a Rússia precise de "18 a 24 meses" até cumprir na íntegra as regras internacionais antidopagem.

Há russos a salvo da suspensão?

Da reunião da IAAF surgiu ainda a recomendação para que seja permitido competir no Rio 2016, sob a bandeira olímpica, aos atletas russos que provem "de forma clara e convincente"que não estavam envolvidos no sistema institucionalizado... e também aos que contribuíram para a luta antidopagem, como Yulia Stepanova, que colaborou com as autoridades.

Ainda assim, os atletas não se conformam - a mais famosa, Yelena Isinbayeva, promete levar o caso para os tribunais. E o governo russo também não. "Esperemos que o Comité Olímpico Internacional possa corrigir de alguma forma esta situação", insistiu Vitaly Mutko, agarrando-se à ténue esperança de que o COI - que reúne na terça-feira - ainda possa reabrir a porta que ontem foi fechada com estrondo.

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