Darwin fintou a pobreza, as lesões e as críticas antes de brilhar na Champions

O avançado uruguaio viveu uma noite de sonho com os dois golos ao Barcelona. Para trás ficou uma infância difícil no bairro El Pirata, na cidade de Artigas, e várias lesões que quase o tiraram do futebol.

"Era um sonho que tinha desde sempre." Foi assim que Darwin Núñez resumiu a mágica noite de quarta-feira, na qual marcou dois golos que ajudaram o Benfica a vencer o Barcelona, por 3-0, para a Liga dos Campeões.

Aos 22 anos, o avançado uruguaio terá tocado as estrelas que se habitou a observar no bairro pobre de El Pirata, na pequena cidade uruguaia de Artigas, que faz fronteira com o Brasil. Ali nasceu e cresceu, com poucas esperanças no futuro, afinal no dia-a-dia da família o objetivo era garantir que não faltavam alimentos à refeição. Ao pouco dinheiro que o pai ganhava na construção civil, a mãe conseguia mais algum recolhendo garrafas de vidro na rua para depois vender.

Foi lembrando-se desses tempos que, há pouco mais de um ano, Darwin não conteve as lágrimas quando entrou pela primeira vez no Estádio da Luz para ser apresentado como jogador mais caro da história do Benfica - 24 milhões de euros.

A caminhada do avançado uruguaio não tem sido fácil desde que chegou a Portugal e é, na prática, a imagem daquilo que tem sido a sua vida. É verdade que impressionou nos primeiros jogos que fez de águia ao peito, mas a infeção de covid-19 e uma lesão fez com que o seu brilho se fosse apagando ao longo da época, somando-se as desconfianças sobre a sua real valia e o elevado montante que o Benfica pagou ao Almeria pelo seu passe. No final de maio, foi mesmo operado ao joelho direito, mas a vontade de regressar mais forte fez com que recuperasse em tempo recorde, cerca de um mês antes do previsto. Nessa altura, veio ao de cima uma das principais qualidades de Darwin, a resiliência.

A luta contra as adversidades foi sempre o destino do avançado do Benfica, que aprendeu desde cedo como fazê-lo, até porque em Artigas habituou-se a ver as pessoas do bairro a reconstruírem as suas vidas sempre que as margens do rio Quaraí transbordavam e a água levava o pouco que as famílias tinham.

O seu percurso no futebol foi outra luta contra todas as adversidades. O seu talento foi descoberto por José Perdomo, antiga estrela do Peñarol e da seleção uruguaia, que em 2013 fez mais de 700 quilómetros de carro para observar alguns miúdos em Artigas. Foi o início de tudo. Aos 14 anos, o pequeno Darwin despediu-se da família no terminal dos autocarros e rumou, sozinho, para Montevideu, capital do Uruguai, para ir viver no centro de formação do Peñarol. Só que ainda não estava preparado e as saudades fizeram com que regressasse a casa. Voltaria a tentar um ano depois e aí fixou-se, ajudado pelo facto de o irmão Junior estar na terceira equipa do histórico clube uruguaio.

Irmão salvou-lhe a carreira

Quando tudo parecia encaminhar-se, eis que um problema familiar quase coloca ponto final ao sonho. Os dois irmãos estavam preparados para voltar a casa, quando Junior disse a Darwin para ficar no Peñarol porque tinha futuro no futebol. Assim foi. E a verdade é que aos 16 anos, o avançado foi promovido à equipa principal do Peñarol. Finalmente, a sua vida parecia correr na perfeição, afinal os pais já viviam com ele em Montevideu e Darwin era visto como uma estrela de futuro do futebol uruguaio. Só faltava a estreia oficial na I Divisão.

Contudo, surgiu uma pedra enorme no seu caminho. Num jogo de juniores, após saltar com um adversário, o seu joelho dobrou e os ligamentos romperam. Resultado? Um ano e meio sem jogar. Por essa altura, o sonho do futebol esteve por um fio, mas lembrou-se do sacrifício que o irmão fez para ele continuar o seu caminho e resistiu, mais uma vez, às adversidades e às dores que o continuavam a acompanhar quando, a 22 de novembro de 2017, foi lançado num jogo com o River Plate. Assim que a partida acabou, Darwin deixou o campo em lágrimas, tal era o sofrimento causado por nova lesão, agora na rótula. Foi de novo operado.

Voltou a jogar em 2018, mas as críticas de que era alvo através das redes sociais tornaram-se de tal forma insuportáveis que teve de recorrer a um psicólogo, que o ensinou a lidar com o problema. Um ano depois, o seu talento voltava a destacar-se e levou o Almeria a contratá-lo por 4,75 milhões de euros.

Depois de muito sofrimento, abria-se então a porta da Europa e o salto para o Benfica em setembro do ano passado foi apenas mais uma etapa de um atleta que tem merecido os mais rasgados elogios de Jorge Jesus. "Darwin tem características que não são muito comuns nos avançados de hoje", disse recentemente o treinador do Benfica que há um ano tinha deixado o aviso: "Vai ser um jogador de topo mundial. Vou perdê-lo em pouco tempo."

Os sinais que tem dado neste início de época são prometedores e a exibição com o Barcelona fez despertar ainda mais a atenção dos olheiros. Para já, foi nomeado pela UEFA para o prémio de melhor jogador da semana na Liga dos Campeões, para o qual tem a concorrência do guarda-redes Athanasiadis (Sheriff), do defesa Skriniar (Inter Milão) e do extremo Leroy Sané (Bayern Munique).

carlos.nogueira@dn.pt

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