Calos nas mãos e chupeta. Bronze faz brilhar medalhas invisíveis de Pimenta

Canoísta de Ponte de Lima entrou no restrito grupo de cinco atletas portugueses com duas medalhas olímpicas, mas continua a querer mais e já aponta a Paris 2024. Tudo começou aos 11 anos, numas férias de verão.

De chupeta na boca e medalha ao peito! Fernando Pimenta já tinha a melhor medalha que a vida lhe podia dar - segundo ele, a filha, Margarida -, mas o bronze conquistado em K1 1000 nos Jogos Olímpicos dá mais brilho a uma carreira sem igual.

O canoísta de Ponte de Lima entrou ontem para o restrito grupo de cinco atletas com mais de um pódio olímpico (foi prata em Londres 2012) e regressa a casa com o 105.º metal da carreira. É a terceira medalha de Portugal em Tóquio 2020, depois da prata de Patrícia Mamona e do bronze de Jorge Fonseca.

Quando foi chamado para receber o bronze, Pimenta ajoelhou-se e beijou o pódio. De seguida, tirou do bolso uma chupeta, que colocou na boca, partilhando assim a alegria do pódio com a da paternidade. Antes de colocar a medalha ao peito, beijou-a e mostrou-a a todos os presentes no Sea Forest Waterways.

Um ritual que tem uma explicação. "Beijei o pódio porque foi o pódio que me fugiu em 2016. Este beijar do pódio é para aqueles que não acreditavam, que esperavam que o Pimenta chegasse ao momento certo e falhasse o pódio. A seguir ao Rio 2016 (foi quinto), foi um período terrível, desliguei um mês e meio de tudo, depois tinha um monstro dentro da cabeça que me fazia acordar durante a noite, mas tive sempre as pessoas certas com aquela palavra que era preciso", desabafou o "superatleta", como lhe chamam.

Palavras que servem para dizer que "não há ninguém que queira mais ganhar" do que ele. Prova disso "é o sacrifício de estar longe da família, quase não ter vida social e ter privações alimentares". E também por isso "uma medalha é importante em termos anímicos".

Fernando Pimenta juntou assim o bronze em K1 1000 m em Tóquio 2020 à prata de Londres 2012, então ao lado de Emanuel Silva. Diz que cumpriu "um dos sonhos", mas "faltou o outro, o de ser campeão olímpico". Talvez em Paris 2024? "Acredito que é possível e continuo a querer ser campeão olímpico. Ter as três cores de medalhas. E vou estar cá para lutar por esse sonho e objetivo, conquistar mais êxitos para Portugal", disse o canoísta do Benfica, apontando aos próximos Jogos, quando terá 35 anos: "A idade é um posto, não é um peso. Espero nos próximos Jogos continuar a lutar por pódios. Se calhar, posso dar também um contributo ao K2 500 ou K4 500."

E depois de agradecer ao treinador (Hélio Lucas) e felicitar "os dois húngaros que foram mais fortes", o atleta português mostrou-se feliz pela conquista e por ter sido o mais regular em todos os Mundiais e Europeus ao longo de todo o ciclo olímpico. Não esqueceu o amigo Tiago Brandão Rodrigues, o ministro da Educação com a pasta do Desporto: "Em 2012, quando conquistei a medalha com o Emanuel Silva, chorou a regata toda, e foi das poucas pessoas que em 2016 me ligaram a dar força. Além de ministro de Educação, é um grande amigo, e em 2016 disse que acreditava que em Tóquio ia conseguir. Gostava de estar cá hoje, mas de certeza que vibrou durante a regata toda."

O mais recente medalhado olímpico de Portugal regressa hoje, mas desengane-se quem está à espera do merecido descanso do guerreiro de Ponte de Lima. "A época ainda não acabou. Há um Campeonato do Mundo por disputar no terceiro fim de semana de setembro e há lá pódios pelos quais quero lutar", avisou o canoísta, referindo-se ao K1 1000 e K1 5000.

Apurou-se Recorde olímpico nas meias-finais

A consagração olímpica em K1 1000, distância em que foi campeão do Mundo em 2018 e Europeu em 2016, 2017 e 2018, era desejada há muito pelo limiano. Ele tinha avisado de que estava em grande forma, assumindo querer um pódio, e não desiludiu.

Ontem, no Sea Forest Waterways, duas horas depois de ter feito o melhor registo olímpico de sempre na distância, Pimenta foi terceiro classificado na regata das medalhas, com o tempo de 3.22,478 minutos, apenas atrás dos húngaros Balint Kopasz, que o desalojou como recordista olímpico, com 3.20,643, e Adam Varga (3.22,431).

Podia ter sido melhor? Podia, mas apanhou algas - praga que chegou a colocar a prova em causa antes de os Jogos começarem - e isso dificultou a missão. Serve ainda de consolo ao português o facto de nenhum dos favoritos ter feito melhor do que ele numa prova com um pódio improvável, com dois jovens húngaros, de 24 e 21 anos, no topo.

As férias de verão que lhe mudaram a vida

Com um misto de talento e disciplina, Fernando Pimenta foi-se tornando no mais medalhado de sempre da canoagem portuguesa e talvez o mais galardoado de sempre do desporto português. Não há registo de um atleta sequer ter chegado perto das 105 medalhas internacionais do atleta do Benfica.

E tudo começou como brincadeira, numas férias de verão em 2001. Ele andava na natação desde os quatro anos, mas aborrecia-se com os treinos e a repetição dos movimentos e aos 12 fixou-se na canoagem - decisão mais do que acertada - depois de uma experiência inesquecível durante umas férias desportivas.

"Tinha 11 anos e inscrevi-me num clube em Ponte de Lima e tive o meu primeiro contacto com um caiaque. Foram dois meses espetaculares. Diverti-me e passei a ocupar o meu tempo livre com a canoagem e nunca mais quis largar a pagaia e o caiaque. Fui começando a crescer aos poucos e fui conseguindo alguns resultados...", disse em entrevista ao DN, depois de se sagrar campeão mundial em 2018.

Foi também nessa altura que confessou ter as mãos cheias de calos - "são as minhas medalhas invisíveis" - e revelou o segredo da boa forma: não comer doces, fritos ou fast food, muito treino, muito descanso, e alguns "não" a amigos e familiares.

Tudo em nome da canoagem e da bandeira nacional.

Primeiro de sempre com três pódios?

Ao juntar o bronze em K1 1000 m, em Tóquio 2020, à prata em Londres 2012, ao lado de Emanuel Silva, Pimenta entrou no restrito grupo dos atletas portugueses com mais do que uma medalha olímpica (ver ao lado). Dois pódios olímpicos é uma honra de apenas quatro atletas, para além dele: Mena da Silva (bronze em Berlim 1936 e Londres 1948), Carlos Lopes (prata em Montreal 1976 e ouro em Los Angeles 1984), Rosa Mota (bronze em Los Angeles 1984 e ouro em Seul 1988) e Fernanda Ribeiro (ouro em Atalanta 1996 e bronze em Sidney 2000).

O presidente da Federação Portuguesa de Canoagem, Vítor Félix, tem a "certeza" de que o canoísta vai entrar para a história do desporto português como o primeiro a vencer três medalhas em Jogos Olímpicos. E o treinador, Hélio Lucas, mete fé no ouro em Paris 2024: "Há poucos desportistas em Portugal a conseguir tudo o que ele tem feito. Tem um nível e consistência como poucos. E a sua insatisfação pelo bronze mostra somente de que raça é feito, até onde vai o tamanho da sua ambição."

O bronze de Pimenta junta-se à prata de Patrícia Mamona e ao bronze de Jorge Fonseca. As três medalhas conquistadas por Portugal em Tóquio 2020 igualam a melhor participação portuguesa. Nunca Portugal conquistou mais de três pódios numa só edição e só conseguiu três por duas vezes (Los Angeles 1984 e Atenas 2004).

isaura.almeida@dn.pt

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