Boicote diplomático aos Jogos Olímpicos de Inverno em nome dos direitos humanos

Estados Unidos, Reino Unido e Canadá são alguns dos países que já anunciaram que não vão enviar altas figuras e representantes de Estado à China em fevereiro. Mas boicote não contempla os atletas.

Uma sensação de déjà vu. Pequim vai organizar os Jogos de Olímpicos de Inverno, entre 4 e 20 de fevereiro, debaixo de um coro de protestos e de boicotes diplomáticos. Tal como aconteceu há 13 anos, nos Jogos de Verão 2008, pela repressão sobre o Tibete, agora estão novamente em causa violações e abusos dos direitos humanos, com o protesto principal relacionado com uma outra minoria étnica, os muçulmanos uigures da região de Xinjiang.

O boicote não é desportivo, é diplomático. Ou seja, durante a competição vários países não estarão representados em Pequim por altas figuras, ficando as representações restritas aos atletas, treinadores e respetivas comitivas.

Associações e organizações não-governamentais há muito que apelavam a um boicote a Pequim 2022, acusando o governo chinês de manter mais de um milhão de muçulmanos uigures em campos de reeducação política na província de Xinjiang, uma realidade que os norte-americanos denunciaram como uma situação de "genocídio". Pequim contesta e contrapõe que se tratam-se centros de formação profissional destinados a afastar as pessoas do terrorismo e do separatismo.

Os EUA foram precisamente um dos primeiros países a anunciar um boicote diplomático, no início de dezembro, justificando a tomada de posição devido às "flagrantes violações dos direitos humanos" em curso em Xinjiang.

Outros países seguiram o mesmo exemplo, casos do Canadá, Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia e Lituânia. Pequim reagiu entretanto, considerando que estes países "utilizaram o palco olímpico com intenções de manipulação política". "Isto é impopular e equivale ao isolamento. Eles vão inevitavelmente pagar o preço por esse mau movimento", ameaçaram, acrescentando tratar-se de uma "grave desonra" ao espírito da Carta Olímpica, uma "provocação flagrante" e uma "série afronta aos 1,4 mil milhões de chineses".

Já o Japão anunciou que não vai enviar funcionários ministeriais aos Jogos Olímpicos de Inverno em Pequim. Seiko Hashimoto, presidente do Comité Organizador do Tokyo 2020, e Yasuhiro Yamashita, presidente do Comité Olímpico japonês, serão as únicas individualidades presentes.

O caso tem causado algum incómodo a nível político. A Rússia, por exemplo, também criticou a posição dos EUA, considerando que "os assuntos relacionados com as olimpíadas devem permanecer fora da política". Putin, aliás, já confirmou a sua presença na cerimónia de abertura. Tal como António Guterres, secretário-geral da ONU.

A Coreia do Sul também não aderiu ao boicote. O anúncio foi feito recentemente pelo presidente Moon Jae-in, que disse querer manter boas relações com Pequim.

Na Europa, aliás, a questão tem levantado algumas divisões. O presidente francês Emmanuel Macron, por exemplo, chegou mesmo a dizer que um boicote diplomático não acarreta qualquer consequência - "ou existe um boicote completo e não se enviam atletas, ou se tenta alterar as coisas com ações concretas e úteis".

Outros boicotes

O Comité Olímpico Internacional tem gerido o assunto com pinças. Numa das poucas reações ao tema, o COI, pela voz do seu presidente, Thomas Bach, apelou para a "neutralidade política" da entidade, que "tem sido um valor intrínseco dos Jogos Olímpicos desde o seu início e, nestes momentos de confrontação política, torna-se mais importante do que nunca", exultando a comparência dos melhores atletas e assegurando que "a integridade da competição não está em risco".

Este é o primeiro boicote que se conhece em termos de Jogos Olímpicos de Inverno. Mas na competição que se realiza de quatro em quatro anos no verão existiram vários boicotes até a nível de atletas de determinados países. Os mais célebres foram durante a Guerra Fria. Em 1980, por exemplo, mais de 60 estados não participaram na competição de Moscovo devido à ocupação soviética do Afeganistão. Mais tarde, em 1984, a União Soviética e mais 14 estados do bloco oriental boicotaram os Jogos Olímpicos que se realizaram em Los Angeles (EUA). Na altura até criaram um evento alternativo, os Jogos da Amizade

Esta é a primeira vez na história que os Jogos de Verão e Inverno se celebram na mesma cidade. E tal como o ano passado em Tóquio (Japão), a competição será realizada num contexto de pandemia. Os atletas serão obrigados a viver numa bolha, sem contacto com público ou passeios pela cidade. Os Jogos vão receber apenas público local e os atletas que não foram vacinados vão ter que cumprir 21 dias em quarentena à chegada.

nuno.fernandes@dn.pt

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