Ao segundo adeus de Zidane segue-se uma difícil sucessão

Técnico francês anunciou saída do clube e apanhou toda a gente de surpresa. Pochettino, do Tottenham, é forte hipótese

Foi provavelmente um dos adeus mais inesperados da história do futebol. Cinco dias depois de ter conquistado a terceira Liga dos Campeões consecutiva pelo Real Madrid, na final de Kiev, diante do Liverpool, Zinedine Zidane anunciou que vai deixar o clube onde estava como treinador desde 4 de janeiro de 2016, quando sucedeu a Rafael Benítez, e pelo qual conquistou nove troféus.

O anúncio, surpreendente, apanhou todos de surpresa. Jogadores incluídos. De acordo com o jornal Marca, só minutos antes da conferência de imprensa o treinador comunicou a sua decisão ao capitão Sergio Ramos, pedindo-lhe para informar os restantes futebolistas.

Florentino Pérez, presidente do Real que surgiu ontem ao lado de Zidane durante o anúncio, foi dos poucos que soube de véspera. "Estou desolado. Hoje é um dia triste e ninguém está preparado para uma notícia destas. Gostava de o ter convencido, mas já sei como ele é quando toma uma decisão", desabafou o homem que também foi responsável pela contratação de Zizou como jogador, em 2001.

Os órgãos de comunicação social também foram apanhados de surpresa. Por volta das 10.30 de ontem (9.30 em Portugal continental), as redações começaram a ser convocadas para uma conferência de imprensa de Zidane às 13.00 em Valdebebas. Mas o motivo não foi revelado. Cerca de meia hora antes, a rádio Cadena SER avançava com a bomba: Zidane vai deixar o Real Madrid. Pouco depois o anúncio foi feito pelo próprio treinador.

"Tomei a decisão de não continuar no Real Madrid. É algo estranho, mas tinha de o fazer. Esta equipa tem de continuar a ganhar e precisa de uma mudança, de outro discurso e metodologia de trabalho", começou por dizer, informando desde logo que esta época vai fazer um ano sabático e não vai treinar mais nenhum clube.

Explicações para uma saída

As justificações para a decisão foram sempre muito vagas. "Há etapas na vida e devemos saber quando temos de parar. Faço-o pelo bem da equipa. Comigo seria difícil voltar a ganhar na época que vem. Quero terminar quando tudo vai bem. Também foi assim quando era jogador", adiantou, negando que a sua decisão esteja relacionada com as declarações de Cristiano Ronaldo, que deixou em aberto poder sair do Real Madrid.

Também na hora da despedida Zidane comportou-se como um cavalheiro, mas poucos duvidam de que na base da sua decisão estejam as ameaças de saída de estrelas como Cristiano Ronaldo e Gareth Bale. No caso de CR7, Zidane nunca duvidou que o desabafo do português fosse uma estratégia com vista a uma negociação do contrato. Já em relação ao galês, e caso não fosse transferido esta época, teria mais uma vez de gerir uma situação complicada, de manter no banco um jogador que custou mais de 100 milhões de euros ao clube.

A imprensa espanhola fala igualmente de diferenças e interferências de políticas desportivas com Florentino Pérez, dando como exemplo o facto de o presidente ter tentado contratar o guarda-redes Kepa a meio da última época, quando ele, Zidane, sempre defendeu Navas. Ou ainda o caso Neymar, um desejo do presidente que levou o técnico a dizer que nunca tinha pedido o brasileiro.

Este foi o segundo adeus de Zidane ao Real Madrid. A 25 de abril de 2006, o francês, então com 34 anos, anunciou a sua retirada do futebol, apontando ao Mundial da Alemanha como a última competição em que ia participar e renunciando a mais um ano de contrato que ainda tinha com os merengues.

Na altura, o médio francês explicou numa entrevista ao Canal+ que se retirava devido a "cansaço psicológico" e por estar "dececionado" com os últimos anos a nível desportivo. Alegou ainda que o seu corpo lhe dizia que não podia continuar a jogar mais um ano: "Estou numa idade em que é cada vez mais difícil. Não quero voltar a ter uma época como as anteriores."

Agora o contexto é em tudo diferente, pois sai completamente em alta, poucos dias depois de ter ganho a terceira Champions consecutiva, a que se juntam, no espaço de dois anos e meio, um campeonato espanhol, dois Mundiais de Clubes, duas Supertaças Europeias e uma Supertaça de Espanha. Um currículo recheado a que só faltou juntar a Taça do Rei. Mas tal como há 12 anos, o cansaço psicológico e a exigência do cargo que ocupa pesaram na sua decisão.

Pochettino é o preferido

Segue-se uma difícil sucessão e sobretudo numa altura em que não existem muitos nomes disponíveis no mercado. De acordo com o jornal Marca, o argentino Mauricio Pochettino, do Tottenham, é um dos mais fortes candidatos ao lugar. O técnico que está a fazer um trabalho meritório nos spurs, e que no país vizinho orientou o Espanyol (2009/2012), renovou contrato há uma semana. Mas terá acautelado uma cláusula liberatória caso surgisse o interesse do... Real Madrid.

Pochettino, que atuava como defesa central, é um dos chamados treinadores da moda. Chegou à Liga inglesa na época 2013/14 e salvou o Southampton da descida. Em 2014 assinou pelo Tottenham e devolveu identidade a um clube histórico do futebol inglês, tornando-o mais competitivo, a jogar um futebol atrativo e potenciando as qualidades do avançado Harry Kane, jogador vários vezes colocado na órbita do Real Madrid.

Mas existem outros treinadores. O AS juntou ao nome de Pochettino o selecionador alemão Joachim Löw, o também germânico Jurgen Klopp (Liverpool), Arsène Wenger (sem clube depois de ter deixado o Arsenal) e Guti, antigo jogador que trabalha atualmente nas camadas jovens e que é apontado pelo desportivo madrileno caso o clube opte por uma solução interna.

Mas a sucessão de Zidane não será apenas difícil em termos desportivos. Isto porque o treinador francês era muito respeitado e querido pelos jogadores, uma pessoa pouco dada a polémicas, educada, e que foi sempre capaz de aguentar e gerir eventuais focos de problemas, como quando jogadores como Karim Benzema, Gareth Bale e Isco passaram pelo banco de suplentes.

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