A longa marcha do futebol chinês também passa por Portugal

O Pinhalnovense tem seis jogadores chineses no plantel, com idades entre os 18 e os 21 anos; o Torreense conta com quatro - ambos os clubes têm capital chinês

Pedro Neto começou a negociar transferências de futebolistas para a China há seis anos. Chamaram--lhe "parvo". "Quando comecei, algumas pessoas riam-se", lembra. Em conversa com a Lusa em Pequim, Pedro, empresário portuense de 36 anos, diz que aprendeu uma lição: "A diferença entre o parvo e o persistente é só o resultado final." Pedro está contente, continua a viajar até à China (já lá voltou 40 vezes), mas o segredo ainda é a alma neste negócio de bola, pontapés, golos e cifrões. E lembra quando discutia contratos de 20 mil euros - "o que é isso hoje?"

A dez mil quilómetros de Pequim, do outro lado do mundo, fica a pacata vila de Pinhal Novo, no distrito de Setúbal. Tem um clube de futebol, o Pinhalnovense, do Campeonato de Portugal, que tem uma mão-cheia de jogadores chineses. Os defesas Yan Zhang, Shen Wang e Jiajun Huang, os médios Ailong Yang e Deng Yubiao e o avançado Jiachen Li têm entre 18 e 21 anos.

Em comum carregam uma ambição e um fardo: construir uma carreira de sucesso e superar as barreiras futebolísticas, linguísticas e culturais entre a China e Portugal. As barreiras da língua, como conta o treinador João Sousa à Lusa, ultrapassam-se de todas as maneiras. Até com... telemóveis. "Se tivermos alguma dificuldade, tento falar mais no final do treino, mas agora já há muitos meios de auxílio, como o tradutor dos telemóveis. No fundo, conseguimos, com tempo, fazê-los perceber o que pretendemos. Eles são jovens e aprendem rápido. O objetivo deles é crescer e para isso tentam também aprender português rapidamente para perceberem o que nós queremos", resume o técnico do Pinhalnovense. Na China, o futebol também fala português. O médio internacional Rúben Micael (ex-futebolista do FC Porto e do Sporting de Braga) joga no Shijiazhuang Everbright, clube que caiu para a II Divisão em 2016. Há poucos dias, o defesa central Ricardo Carvalho, de 38 anos, assinou contrato com o Shanghai SIPG, emblema treinado por André Villas-Boas. Mas se Rúben e Carvalho são os únicos futebolistas portugueses, há pelo menos 18 jogadores que passaram por clubes de Portugal. Entre as quatro transferências mais caras de sempre no país asiático, duas envolvem jogadores que se afirmaram em clubes portugueses, casos dos ex-portistas Hulk e Jackson Martínez...

Em 2015, o governo comunista de Pequim adotou uma política de Estado para pôr a China entre "as melhores equipas do mundo até 2050". O "plano de reforma do futebol", aprovado pelo organismo máximo de planificação económica, prevê a abertura de 20 mil escolas de futebol até 2020 (há uma do português Luís Figo) e que "mais de 30 milhões de estudantes" pratiquem o futebol com frequência. São números avassaladores para um país de 1,3 mil milhões de habitantes que tem no presidente Xi Jinping "um grande adepto de futebol".

Desde 2013, o investimento tem sido grande. Os principais grupos chineses, privados e públicos, investiram em clubes na Europa, do Manchester City ao AC Milan. Na China, as 16 equipas que disputam a Superliga chinesa investiram em 2016 cerca de 460 milhões de euros, três vezes mais do que no ano anterior, o que mostra bem a aposta do país no desenvolvimento desta modalidade.

Em Portugal, a China já está no top 10 das nacionalidades de futebolistas em Portugal, em especial nas divisões secundárias. Nas competições profissionais há seis chineses inscritos, dois no primeiro escalão e ambos no P. Ferreira. O avançado Wei Shihao é o que regista uma maior utilização - já disputou mais de uma dezena de jogos pelo Leixões.

No Torreense, o dia-a-dia de jogadores e treinador passa pelo chinês. Quase a atingir o centenário da sua fundação, o clube atravessa uma nova fase com a chegada de investimento chinês através do empresário Qi Chen, também ligado ao Pinhalnovense. Comprou a maioria do capital da SAD e encontrou no clube de Torres Vedras mais uma base para o seu projeto de promoção e desenvolvimento de jovens futebolistas e chineses.

O diretor do clube, Pedro Canoa, faz um balanço positivo deste trajeto e recusa qualquer descaracterização do clube com a chegada dos chineses. "Inicialmente, há sempre dúvidas das pessoas. Muitas falam sem conhecimento, mas nesta altura ninguém tem dúvidas, principalmente pelos resultados que estamos a ter nesta época", disse. O Torreense ocupa atualmente o terceiro lugar da Série F do Campeonato de Portugal, com 35 pontos, e caiu nos oitavos-de-final na Taça de Portugal, frente ao Desportivo de Chaves.

A comunicação é a maior barreira, mas um dos jovens, Ling- feng, de 19 anos, passou na época passada pelos escalões de formação do Sporting e, além do talento nos relvados, já fala português. "É muito diferente do Chinês", diz o médio, explicando as profundas diferenças que encontrou dentro das quatro linhas: "É mais difícil jogar aqui em Portugal. Os jogos têm mais intensidade e também temos mais encontros do que na China. Aqui é tudo muito mais tático do que aquilo que tínhamos no nosso país." Cumprir uma carreira no futebol europeu é o "sonho" de Lingfeng.

A norte, em Gondomar, também treinam jogadores vindos da China e o professor é Agostinho Oliveira, campeão pelas seleções sub-18 e sub-20. "É desafiante", admite à agência Lusa, ele que também é conselheiro da Federação Chinesa de Futebol.

Agostinho Oliveira observa que os jogadores que estão em Gondomar, clube que descreve como "barriga de aluguer" para a formação, pertencem à seleção sub-19 chinesa. Logo são atletas "de algum gabarito e capacidade". O treinador está satisfeito e rejeita a ideia de que estejam a ser ocupados lugares que podiam ser de portugueses. "Criou-se uma equipa B [o Gondomar tem 13 jogadores chineses, quatro na equipa A e nove na B] para que o sentido de aglutinação seja possível", refere o técnico, que chegou a ocupar interinamente o cargo de selecionador nacional, um dos marcos de um currículo que o ajuda a explicar o convite dos chineses para liderar este projeto.

Descendo de Gondomar para Pinhal Novo, o técnico João Sousa conta como está a tentar rentabilizar os jogadores chineses, fazê-los crescer como futebolistas para que, no regresso à China, joguem na primeira divisão: "Para mim, os jogadores são todos iguais e têm de ser todos rentabilizados."

Por enquanto, apenas Jiajun Huang é titular indiscutível na equipa do Pinhalnovense, mas Jiachen Li e Ailong Yang mereceram já algumas oportunidades. A cerca de dez mil quilómetros da China, Pinhal Novo pode ser apenas o ponto de partida para o sonho de Jiajun Huang, Jiachen Li e Ailong Yang.

* serviço especial Lusa/DN

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