Vingança com sabor a polvo (vivo)

Está de volta aos cinemas, em versão restaurada, um dos melhores thrillers coreanos das últimas décadas. Oldboy - Velho Amigo (2003), de Park Chan-wook, é um assombro do noir, pouco aconselhável a estômagos sensíveis.

De Park Chan-wook só temos notícias quando vem a mulher da fava-rica. O último filme do realizador sul-coreano a estrear-se nas salas portuguesas, o fabuloso A Criada (2016) - que corresponde mesmo à sua última produção para o grande ecrã -, chegou envolto daquela sensação refrescante que é predicado do seu cinema. A saber, um cinema que presta vassalagem ao romanesco dentro de uma manifesta vibração de estilo. A reposição de Oldboy - Velho Amigo, título que em 2004 venceu o Grande Prémio do Júri no Festival de Cannes (júri esse presidido por Quentin Tarantino, que se assumiu então um admirador de Park Chan-wook), vem recordar-nos o porquê da vitalidade deste nome na cinematografia coreana. Trata-se do filme de culto do cineasta, que teve uma estreia tímida em Portugal, passando despercebido, e que acabou por adquirir depois o estatuto de "clássico instantâneo". Ter agora uma segunda oportunidade de o apanhar nos cinemas é uma dádiva dos céus.

Ter agora uma segunda oportunidade de apanhar Oldboy nos cinemas é uma dádiva dos céus.

A história de Dae-su Oh (Choi Min-sik) terá, no entanto, mais que ver com o inferno. O protagonista de Oldboy é uma daquelas figuras desgraçadas em relação às quais as hipóteses de empatia, nos primeiros minutos, são extremamente reduzidas: um bêbedo irritante sentado numa esquadra de polícia, que falhou o aniversário da filha e enverga as asas de anjo que comprou para lhe oferecer. Nessa noite, de 1988, ele é raptado e encarcerado num quarto de hotel, aí permanecendo durante 15 anos, com a televisão a servir de único vínculo ao exterior, sem que faça a menor ideia de quem o mandou prender e porquê. Passados os 15 anos, é libertado com o mesmo mistério que envolveu a sua captura. A diferença é que agora Dae-su Oh está focado em objetivos muito concretos: encontrar respostas para a grande dúvida do seu aprisionamento e aplicar uma vingança bárbara. Isto quando ainda não percebeu que o homem por trás do macabro interregno da sua vida é um cérebro incomensuravelmente mais sofisticado, com queda para o jogo perverso.

Coibimo-nos de revelar o que se segue, para não ferir o prazer do espetador na descoberta de Oldboy, um filme que dança com a violência numa expressão prodigiosa. Park Chan-wook não permite, em circunstância alguma, que atos como arrancar dentes a martelo ou comer um polvo vivo se tornem iconografia gratuita. Quer dizer, à medida que as linhas do thriller, regadas de humor negro e sangue, conduzem à combustão narrativa de uma tragédia clássica, a busca de vingança incorpora a psicologia extrema, em tudo sintonizada com um questionamento humano. Não admira que Spike Lee tenha tentado agarrar a perfeição deste objeto assinando um remake em 2013...

Segundo filme de uma trilogia dedicada ao tema da vingança, e o único que chegou ao nosso circuito, Oldboy - Velho Amigo é uma mistura de film noir e pathos, com personagens observadas à distância justa, sem gestos em vão. Pegue-se no polvo: aquilo que essa cena (Dae-su Oh a meter à boca um ser vivo de tentáculos irrequietos) revela é a fome de vida do protagonista, depois de anos "morto" num quarto de hotel. Em Park Chan-wook o horror tem uma beleza visceral.

dnot@dn.pt

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