"Vera Lagoa era uma das mulheres mais populares do país" mas "tinha o terror da solidão"

Em Portugal, as mulheres têm dificuldade em "sentar-se à mesa" do poder. Vera Lagoa conseguiu e não foi através de quotas mas pelo seu valor e luta. Quem ainda foi seu contemporâneo, olhará a jornalista com uma perspetiva política enviesada, que a leitura da sua biografia irá dissipar e mostrar outro presente à luz do seu passado.

Entre as várias biografias que têm vindo a ser publicadas nos últimos anos, esta de Vera Lagoa, com o subtítulo Um Diabo de Saias, tem direito a lugar muito especial neste género. Não é que Maria Armanda Falcão, o seu verdadeiro nome, tenha sido a protagonista principal dos acontecimentos do seu tempo, mas como excelente espetadora da realidade, voz contestatária dos males dos dois regimes em que viveu, lutadora pelos direitos das mulheres, entre outras situações que se observam muito bem biografadas pela autora do livro, Maria João da Câmara, Vera Lagoa tem uma vida que respira décadas que vão sendo esquecidas e entram num cinzento que as descaracterizam fortemente.

Quando se pergunta à biógrafa o porquê de terem sido precisos vinte e cinco anos após a morte para se a revelar, a resposta é: "Foi sempre difícil retratar pessoas marcantes e que foram, de alguma forma, fraturantes. Terá sido indispensável ganhar alguma distância relativamente à própria biografada e à época em que ela viveu. Foi necessário tempo para que fosse possível investigar e escrever com alguma equidistância, alguma objetividade." A esse facto junta-se outra particularidade, diz: "Mais ainda porque ela era uma mulher profundamente livre e, por isso mesmo, não consensual."

É essa descrição de um percurso com uma imensidão de tomadas de posição que surge em Vera Lagoa - Um Diabo de Saias, ao longo de 463 páginas em que se esquadrinham todos os aspetos de uma vida. Desde a sua juventude, o ver-se como a jornalista do social que radiografa todo um Portugal absurdo de tão atrasado pela eterna ditadura de Salazar e do seu sucesso, em que através das suas crónicas põe a nu o que havia de mais errado numa sociedade que a lia com fervor e, provavelmente, nem se revia nos diagnósticos que fazia desses mesmos leitores. A coluna Bisbilhotices terá sido um dos primeiros grandes momentos de comentário social e político e o seu nome seria a melhor capa para que não fosse silenciada por uma censura ativa, que ela dobrou graças ao poder das suas palavras.

Aos leitores mais novos, o subtítulo deste volume poderá não ser facilmente compreensível, mas é a sua luta através do jornal O Diabo que a fixa para sempre e que a levará a sentar-se à mesa na primeira linha do debate político no pós-25 de Abril. Com a sua morte, há vinte e cinco anos, vale a pena ver e ler o passado português através da sua vida. Curiosamente, os leitores atuais estão a fazê-lo, retirando das livrarias centenas de livros e levando a biografia para os primeiros lugares das tabelas de vendas.

Começa por repetir as palavras da biografada: "Só morta ficarei calada, mas a voz dos mortos às vezes se ouve com demasiada força". É o exato retrato de Vera Lagoa?

É, na medida em que Vera Lagoa - ou Maria Armanda, que era o seu nome - é uma mulher suscetível de ter interesse suficiente para, 25 anos após a sua morte, fazer ouvir a sua voz através deste livro. Aliás, penso que era de toda a justiça escrever-se esta biografia devido ao seu papel na sociedade portuguesa. As pessoas encontraram nela uma voz corajosa que sempre defendeu os mais fracos, os desprotegidos, os perseguidos, quer antes quer depois do 25 de Abril.

Bastaria a definição de "controversa" para a caracterizar?

Não me parece. Publicamente, ela foi uma mulher de extremos, uma mulher forte, que não deixou nada por dizer, não teve medo de nada nem de ninguém e isso implicou tomadas de posição que provocaram ódios e inimizades virulentas e, portanto, ela foi uma mulher controversa. Mas é importante falar de um lado muito doce de Vera Lagoa, que é o seu lado privado, em que a vemos com a preocupação que qualquer mãe de família tem: cuidando do filho e dos netos, abrindo as portas da sua casa à família e aos amigos, festejando aniversários, etc. Há também em Vera Lagoa um lado muito sedutor, que a leva a ter romances tórridos e paixões avassaladoras; um lado que a faz casar por três vezes com três homens muito diferentes entre si. E há ainda um lado muito frágil: ela era uma mulher que - ninguém o diria - tinha o terror da solidão.

Porque foi "quase sistematicamente ignorada" entre as mulheres suas contemporâneas?

Provavelmente porque não era uma escritora de renome - como a Natália Correia ou Sophia de Mello Breyner - ou porque não era uma artista plástica com visibilidade - como Vieira da Silva ou Paula Rego. Existem documentários, livros, estudos, teses, etc. sobre estas mulheres suas contemporâneas, mas sobre Vera Lagoa não se falou ou escreveu praticamente nada até à publicação deste livro. Penso que uma das razões terá sido a sua atuação no pós-25 de Abril que se pautou sobretudo pelo jornalismo político e, embora Lagoa tivesse ansiado verdadeiramente pela democracia, pela liberdade e pela revolução, acaba por se desiludir com o rumo que esta tomou.

Todo o seu passado contra o regime é apagado pelo seu presente pouco depois do 25 de Abril, em nome da luta contra o "totalitarismo comunista". Essa dualidade dificultou a imagem que esta biografia pretende registar?

É difícil não ter sobre Vera lagoa, a imagem de uma mulher de garra que, após o 25 de Abril, lutou contra o totalitarismo que se pretendia impor. O seu modo de luta foi precisamente a escrita enquanto jornalista, mas não só. Lembramos também a mobilização de cerca de 150 mil pessoas para desfilarem pela Avenida da Liberdade em Lisboa no 1º de Dezembro logo a partir de 1977. No entanto é necessário recordar, e penso que é uma das coisas que esta biografia pretende, que ela teve uma vida antes da revolução. E uma vida cheia. Este livro regista precisamente esses diferentes momentos da vida de Vera Lagoa, que foi - não tenhamos dúvida - pautada por uma fortíssima ânsia de democracia e de liberdade.

Entre os portugueses que a marcaram estavam Adriano Correia de Oliveira e Maria Lamas, representantes de uma esquerda sonhadora. Esse romantismo iludiu a realidade a realidade política com que decidiu confrontar-se?

Sim, até ao momento em que ela própria vê e é confrontada com os excessos da revolução. Até ao momento em que ela é chamada ao COPCON, em que sofre um atentado à bomba e em que é julgada várias vezes por abuso de liberdade de imprensa num país onde, supostamente, não havia censura. A situação era tão caricata que em janeiro de 1978 todos os números do jornal O Diabo tinham um processo.

O casamento com José Tengarrinha foi uma parte que estranhou na sua vida?

Não estranhei, até porque sabia que ela tinha sido casada com ele. Penso que José Tengarrinha vem na sequência de um percurso muito específico: um percurso pessoal ligado aos meios da oposição ao regime. E havia todo um mundo conspirativo, de iludir o poder, de exílio que ela conheceu muito bem. Vera Lagoa participou ativa e empenhadamente na campanha do general Humberto Delgado - que decorreu no mês de maio de 1958 - e pouco depois - em novembro desse mesmo ano - casam. Aliás José Tengarrinha foi o homem que ela mais amou e foi por ele que teve o seu maior desgosto. Importa dizer que muita gente pensa que Vera Lagoa se tornou uma crítica feroz do rumo que a revolução tomara porque Tengarrinha a deixara nessa altura. Não é assim. Tengarrinha deixou-a em 1967, ou seja, muito antes da revolução.

A biografia acerta contas com Tengarrinha ou Miguel Urbano Rodrigues, entre muitos outros homens. A própria gostaria que não se os esquecesse?

Vera Lagoa acertou contas com todos eles, em vida, quando escreveu os textos que depois publicou em livros como Revolucionários que eu conheci ou A Cambada. Ao fazê-lo, pretendia certamente que não fossem esquecidos.

"Foi uma mulher de extremos, uma mulher forte, que não deixou nada por dizer, não teve medo de nada nem de ninguém e isso implicou tomadas de posição que provocaram ódios e inimizades virulentas e, portanto, ela foi uma mulher controversa."

O primeiro texto que um amigo considerou dever ser publicado num jornal foi destruído por ela in extremis. Porque atrasou durante anos a vocação pública?

Ela não terá considerado sequer essa possibilidade: a sua profissão era secretária e, segundo percebi, não tinha dificuldade em encontrar emprego. Trabalhava para sobreviver, para sustentar o filho e a mãe. Segundo ela explica, nos anos sessenta estava muito cansada da profissão e quis encontrar outro meio de subsistência. Encorajada por algumas pessoas, arriscou e ganhou. Era uma das mulheres mais populares do país.

A coluna Bisbilhotices no Diário Popular fixa uma imagem que nunca mais será capaz de apagar. Porque não quis ou era a melhor forma de comunicar?

Ela nunca gostou do título da sua coluna. Nem foi ela que o escolheu. No entanto, é possível que o seu sucesso seja também devido a este título, que despertou a curiosidade dos leitores - além do facto de ela ter utilizado um pseudónimo. Quem comprava o Diário Popular não deixava de ler as Bisbilhotices e, entretanto, ela escrevia sobre o que queria e sobre quem queria. É interessante ver como ela denuncia e critica vícios e exalta virtudes da sociedade de então. É também necessário ler nas entrelinhas as críticas veladas que faz ao regime. Bisbilhotices era atraente porque aguçava a curiosidade dos leitores a quem ela respondia publicamente. Sob a capa da futilidade era-lhe permitida a publicação de textos sobre pessoas como Maria Lamas ou referências várias a Isabel da Nóbrega, por exemplo. Portanto, penso que sim, que esta coluna acabou por ser a melhor forma de comunicar.

Faz questão de enquadrar a biografada nos acontecimentos que se vão sucedendo ao longo da sua vida. Ela é fruto da História?

Sem dúvida. É impossível desligar a vida de Vera Lagoa dos acontecimentos políticos do século XX. A começar pelo envolvimento de seu pai no golpe republicano de 5 de Outubro, na participação deste no Reviralho e na sua deportação, arrastando consigo a família num duríssimo degredo em Cabo Verde. A influência que Armando Pires Falcão, pai de Vera Lagoa, teve na vida da sua filha revela-se logo nos anos 1940 quando, por exemplo, ela se envolve ativamente no Movimento de Unidade Democrática (MUD) de oposição ao regime. Depois, a sua proximidade com os movimentos artísticos leva-a a contactar, por exemplo com José Augusto França, Alves Redol ou Júlio Pomar... nos anos 1950 é marcante, como já disse, o seu envolvimento na campanha do general Humberto Delgado e nos anos 1960, além do apoio aos presos políticos em que trabalha com Maria Eugénia Varela Gomes - entre outras, a sua coluna Bisbilhotices - também ela, alvo de censura - leva-a à PIDE para vários interrogatórios. Já os anos da revolução são espelhados nos textos que escreveu e nos livros que publicou. Através destes últimos denunciou os excessos revolucionários do chamado PREC. Vera Lagoa escreveu sobre sua época para os que a quiseram ler. Viveu intensamente os seus dias, sendo que o seu objetivo era que Portugal fosse um país livre e democrático.

Qual foi a maior dificuldade que encontrou na investigação para este livro?

A pesquisa foi, de alguma forma condicionada pelo contexto - também ele histórico - de pandemia, pelos confinamentos impostos, pelo fecho e pelas dificuldades - então maiores - de acesso à hemeroteca, ou aos arquivos, por exemplo.

"Não há assuntos de homens" é uma sentença de quem nunca quis ser feminista. Os tempos pós-Me Too vieram dar-lhe razão?

De facto, Lagoa nunca foi feminista. Defendia a igualdade entre homens e mulheres no acesso ao trabalho, à educação, ou perante a lei - entre outros. Denunciou na sua coluna - supostamente fútil - casos de gritantes desigualdades como, por exemplo no direito de voto, ou na diferença de penas aplicadas a homens e mulheres pelo mesmo crime - penalizando as mulheres. Congratulou-se com o sucesso que cada vez mais mulheres alcançavam na sociedade portuguesa. Por outro lado, se escreveu muito sobre a condição feminina, enquadrava-a, muitas vezes, nos problemas que afetavam quer homens quer mulheres: a pobreza, a mendicidade, o trabalho infantil... no entanto, a sociedade dos anos 1960 era muito diferente da dos nossos dias. Damos o exemplo de uma época em que a violência doméstica era cantada em versos que hoje diríamos chocantes e contra o que a vemos insurgir-se sem dó nem piedade.

Acredita que entre os leitores desta biografia estarão as mulheres já nascidas num Estado de liberdade?

Espero que sim. Nem que seja pelo facto de Vera Lagoa ser um exemplo de uma mulher lutadora que nunca deixou de fazer o que quis e quando quis, apesar das dificuldades, sabendo - e querendo - vencê-las. O facto de ser mulher ou de não ter tido possibilidades de estudar - tinha apenas a 4ª classe - nunca a impediu de alcançar os seus objetivos.

O "fulminante sucesso de Vera Lagoa" alterou a personalidade de Maria Armanda Falcão?

Segundo os testemunhos que recolhi, antes do sucesso Vera Lagoa tinha tudo o que o seu triunfo veio a revelar, isto é: a exuberância, o destemor, o à-vontade em qualquer ambiente. Tanto assim é que, antes dela começar a escrever, a haviam desafiado várias vezes para ser atriz - o que ela nunca quis por temer ser "apenas" uma atriz mediana. O sucesso, na opinião de quem a conheceu bem, trouxe ao de cima esse lado exuberante, audaz e ousado de uma mulher que sabia ter poder. Penso que ela não tinha uma dupla personalidade, ela apenas se revelou quando descobriu esta sua vocação.

A carreira jornalística de Vera Lagoa levou-a a questionar o modo de fazer jornalismo atual?

Segundo os testemunhos que recolhi de quantos trabalharam com ela, pude perceber que Vera Lagoa era uma excelente profissional e que influenciou, formou e marcou muitos jornalistas com quem ela trabalhou. Como ela foi sempre condicionada quer pela censura oficial - antes do 25 de Abril - quer pela direção dos jornais onde trabalhou - após o 25 de Abril -, fez do seu jornal um espaço de liberdade e, como disse, teve de responder por isso, muitas vezes, em tribunal. Não sou especialista na matéria, mas pergunto-me até que ponto os jornalistas não são, ainda e também hoje, condicionados no seu trabalho?

Maria João da Câmara

Editora Oficina do Livro

463 páginas

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