"Ver-me no cinema não é nada agradável"

Javier Bardem é a grande estrela de uma comédia social espanhola que é já um fenómeno no país vizinho, O Bom Patrão, de Fernando Léon de Aranoa. O DN esteve em Espanha com um dos maiores atores espanhóis, que confessa que continua a fazer-lhe impressão ver-se no grande ecrã. Amanhã estreia-se em Portugal.

Se consegui um equilíbrio entre o gozo e o real é porque esse equilíbrio estava no argumento. Quando estava a ler o guião, vi logo o potencial de todos esses detalhes que fazem esta minha personagem do patrão! O Fernando León de Aranoa percebeu muito a psicologia destes tipos...Estes patrões não estão só em Espanha, estão em todo o lado", começa por dizem Javier Bardem numa entrevista de grupo num hotel chique em San Sebastián. Está já sem a barriga e o cabelo grisalho de Blanco, o "dono-disto-tudo", patrão, cheio de esquemas, de uma fábrica de balanças, um homem-lobo que veste a pele de cordeiro e engana os empregados e a mulher, retrato de um patronato misógino e corrupto. O filme chama-se O Bom Patrão, de Fernando León de Aranoa, e está nomeado para 20 Goyas, sendo ainda o candidato espanhol ao Óscar de melhor filme estrangeiro. Trata-se de um grande sucesso de bilheteira nos cinemas espanhóis, mesmo com a debandada de público devido à pandemia. Objeto, todo ele, feito em função do talento e carisma do maior ator espanhol da atualidade.

O Bom Patrão é um grande sucesso de bilheteira nos cinemas espanhóis, mesmo com a debandada de público devido à pandemia. Objeto, todo ele, feito em função do talento e carisma do maior ator espanhol da atualidade.

Em setembro passado, ao lado do realizador de O Bom Patrão, Bardem estava encantado com a receção do filme no Festival de San Sebastián. Ainda assim, durante todo o tempo não tira a máscara. Deduz-se que debaixo da sua máscara higiénica azul esteja o habitual sorriso: "Se a personagem resulta bem é devido à cumplicidade que tenho com o Fernando. Com ele estou seguro, posso ir tentando diferentes coisas, não me deixa cair... Posso ter um tom mais subtil mas também posso subir o registo. Enfim, posso ampliar tudo ou ser mais discreto: ele vai usar o meu melhor. Trata-se de um cineasta que protege sempre o meu desempenho." E é precisamente por aí que surge a pergunta se ao fim destes anos todos ainda é capaz de se surpreender com o que sai do seu rosto, se os seus próprios instrumentos de interpretação ainda o deixam surpreso. A resposta chega com uma pausa considerável: "Sim, mas também fico muito desiludido!" Desiludido com o que faz neste filme?, insisto: "Nem imagina! E depois é tarde demais, é o problema do cinema, uma merda... Não sei, apenas sinto que tenho a necessidade de representar, quanto mais não seja porque também é o meu ganha-pão, o meu emprego... Às vezes acho que não quero fazer isto, mas é preciso. Tenho de ganhar a vida! Mas quando falo em necessidade de representar já não digo que tenha necessidade de ver o resultado. Ontem, apresentámos aqui o filme e fiquei muito orgulhoso, mas foi tão complicado estar a ver-me no ecrã! Uma pessoa está ali a observar-se de todas as perspetivas e a expor coisas do meu íntimo das quais não sinto especial orgulho. Ver-me no cinema não é nada agradável, mas também é verdade que a maneira de filmar, a personagem, o texto conseguem por vezes fazer magia. É quando acontece essa magia que tenho também prazer. Aí reconheço que é espantoso e que tudo isto é um privilégio. Já me aconteceu diversas vezes."

Numa altura em que está nomeado para o prémio de melhor ator nos SAG, prémios da guilda dos atores americanos, em Being The Ricardos, Bardem desfruta também dos ecos do elenco ensemble de Dune-Duna. Um ano dourado para um ator que consegue como ninguém continuar na Europa (vive em Espanha e passa as férias em Porches, no Algarve) sem deixar de estar ativo no cinema americano. Aos 52 anos, continua sem vontade de realizar, mas percebe o impulso que muitos colegas seus têm em pegar na câmara: "Ainda não me deu para aí. Muitos dos atores que escrevem e realizam fazem-no porque estão numa idade em que querem também controlar melhor o que podem fazer. Não sei se alguma vez vou querer realizar, sinto-me muito abençoado com todas as possibilidades que tenho. É tão bom poder combinar Dune - Duna com O Bom Patrão! Seja como for, não sei o que o futuro me irá reservar. Tento sempre encarar a vida um dia de cada vez. O que é preciso para se ser ator é trabalhar com a imaginação, coisa que fiz neste papel. As melhores coisas acontecem quando imaginamos algo para a composição e não quando queremos impor um estilo para a personagem. Para este industrial imaginei alguém cuja expressão física passasse por uma sensação de pertença do espaço, capaz de invadir o espaço privado do outro. Imaginei-o como um tipo muito social, que encurta as distâncias físicas."

dnot@dn.pt

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