Uma parábola georgiana

Primeira longa-metragem de Dea Kulumbegashvili, O Começo é um corpo estranho que se presta à descoberta na grandeza do ecrã. Um conto silencioso e violento sobre uma mulher à procura de si mesma. Estreia em sala.

Das montanhas da Geórgia chega-nos um filme com imagens de tirar o fôlego. Grande vencedor da última edição do Festival de San Sebastián, O Começo é um território visual que burila a inquietação no espectador, ao mesmo tempo que o mantém afastado, plenamente consciente do gesto da realizadora, Dea Kulumbegashvili. Estamos perante uma sucessão de quadros meticulosos e demorados, às vezes a adensar o suspense até ao limite, outras apenas a observar a melancolia e o desassossego das personagens. Há qualquer coisa no ar, não sabemos bem o quê. "É como se estivesse à espera de que algo comece, ou termine", diz a protagonista a certa altura. E através dessa frase entramos numa zona desconhecida: o que é que começa ou termina? Não vale a pena tentar adivinhar. Tudo fermenta no plano interior de uma mulher.

Yana é casada com David, ministro de uma congregação rural de Testemunhas de Jeová, que um dia vê a sua casa de oração ser destruída por moradores intolerantes. Na sequência do ataque ele faz uma viagem até à capital, Tbilisi, para se reunir com os anciãos da comunidade religiosa, e ela fica uns dias por sua conta, na companhia do filho, à procura de respostas para a insatisfação persistente que sente naquele ponto da sua vida. Yana era atriz e deixou de o ser quando casou com David. Agora, enquanto prepara um grupo de crianças para o batismo, e depois de ser surpreendida, dentro da própria casa, pela presença invasiva de um homem que se faz passar por detetive de polícia, entrega-se a um silêncio doméstico que a lente capta com quietude calculada.

Essa quietude parece ser a marca de Kulumbegashvili, que usa muito pouco dos movimentos de câmara. Num dos atos mais "radicais" do filme, sensivelmente a meio, a protagonista fica deitada sobre um manto de folhas de outono durante cinco minutos, sem se mexer, num plano estático, bem enquadrado, que só admite o canto dos pássaros como banda de som daquele estado de suspensão. De olhos fechados, ela está a fingir-se de morta para o filho e para nós. A experiência tem algo de imersivo e de pura estética, em simultâneo. Como se fosse difícil perceber o que tem mais impacto: a expressividade temporal da pausa ou o trabalho notável do diretor de fotografia Arseni Khachaturan, que equilibra a luz e a sombra desta e de outras composições.

A verdade é que, ao aceitarmos o convite do formalismo intenso, quase intimidante, desta realizadora, acabamos recompensados com uma visão sólida. Isto é, um retrato minimalista da conjuntura patriarcal e dos conceitos religiosos que a sustentam num meio isolado. Um retrato universal que não deixa de ser particular na sua paisagem georgiana. E para primeira obra, O Começo tem aquela qualidade de corpo estranho que nos faz querer seguir a sua realizadora. O pecado, o céu e o inferno, de que tantas vezes aqui se fala, são palavras que ganham dimensão nos lábios inocentes das crianças - estas que parecem saídas de um filme de Kiarostami, mas estão presas num universo de violência fria à Michael Haneke... Venham daí mais filmes para descodificar a voz de Dea Kulumbegashvili.

dnot@dn.pt

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