Um thriller em busca da solução para uma febre tropical

O DN publica todos os dias o excerto de um livro recém lançado no mercado, para ajudar às leituras nestes tempos difíceis em casa. Em A Febre, Nick Louth (Editora Jacarandá) conta a busca de um homem pela mulher candidata ao Prémio Nobel que desaparece numa noite. Veja outros livros aqui.

Agosto em Nova Iorque. Uma noite quente, dessas que nos põem a transpirar, a bordo de um jumbo completamente cheio, numa classe estilo zoo, à espera de levantar voo do aeroporto JFK. A chuva que caía há uma hora fumegava do asfalto como óleo numa frigideira quente. Por fim, movimento, depois deuma hora de atraso. O 747 começou a acelerar; os motores gemiam.
Pequenas gotículas caíam na diagonal através das janelas, as linhas demarcadoras da pista corriam por baixo do aparelho como balas tracejantes, os compartimentos para bagagem de mão por cima da cabeça chocalhavam ruidosamente. O voo 648 da KLM descolou, com destino a Amesterdão. Trezentos e cinquenta passageiros começaram a descontrair, pensando que os seus problemas tinham terminado. De maneira nenhuma.

John Edward Davies estava sentado no assento 38C, na coxia. Era como qualquer John Edward Davies: banal, anónimo, olvidável. Um nome apropriado para um passaporte falso. Debaixo do assento à sua frente levava um pequeno saco com fecho de correr. Lá dentro estava um tupperware com a tampa bem fechada e segura por três elásticos grossos. Era aí que as coisas deixavam de ser banais.

A caixa de comida representava, em linguagem do Pentágono, um «vetor de armamento eficiente e acessível». Muito leve, muito
inócua. Aparentemente vazia. Quase, mas não de todo. Não continha nada eletrónico, tão‐pouco um relógio, explosivos, químicos, gás tóxico, nenhuma bactéria ou vírus estranhos ou sequer materiais radioativos. Nada que qualquer terrorista alguma vez tivesse utilizado. Nada que alertasse a segurança do aeroporto.

Nada visível num aparelho de raios X, nenhum cheiro detetável pelo faro de um cão farejador, nenhum metal que fizesse disparar
o alarme detetor. No entanto, aquela caixa era mais mortal do que qualquer bomba. John Davies fizera o trabalho de casa. O conteúdo da caixa poderia matar mais gente do que a bomba atómica de Hiroxima. Só que de uma forma muito mais subtil. Muito mais lentamente.

Durante as horas seguintes, tudo o que ele tinha para matar era o tempo. Manter a calma e permanecer quieto. Pensar em coisas
banais, agir de forma comum e conservar os pés bem pressionados em volta da caixa. Ao seu lado, no lugar 38B, estava sentado um
homem de cabelo encaracolado, a rasgar páginas da revista de bordo, dobrando‐as em cisnes e pombas de origami, que depois
pousava, equilibradas, no tabuleiro. Antes de Davies conseguir virar a cara para o outro lado, o vizinho cruzou o olhar com o dele
e meteu conversa. Chamava‐se Max, era escultor, americano. John Davies acenou com a cabeça e sorriu nos momentos apropriados,
dizendo pouca coisa até ter, por fim, oportunidade para se entregar à leitura de uma revista.
Lá fora, o pôr do sol cristalizou‐se numa vibrante pincelada cor de laranja no horizonte azul‐escuro, enquanto o avião se embrenhava na noite do Atlântico.

Exatamente às 10h30, hora de Nova Iorque, Davies tirou um frasco de comprimidos do bolso. Abriu‐o, retirou o algodão, deu‐lhe uma pancadinha para fazer sair um comprimido alaranjado com uma pequena pinta azul no centro, que engoliu com um copo de água. Folheou rapidamente um pequeno diário até à página do mês de agosto. Fez um círculo em redor do dia, anotou a hora, tal como tinha feito ao longo das últimas três semanas, tal como ainda teria de fazer durante várias semanas.

Mas o destino tem por hábito entrar sem ser convidado emtodos os planos traçados com precisão. Uma senhora de meia-idade esgueirou‐se para passar pelo carrinho das bebidas no corredor e deu um encontrão no cotovelo de Davies. A embalagem entornou‐se e saltaram comprimidos cor de laranja por todo o lado. A mulher pediu desculpa, fletiu os joelhos gorduchos para se baixar e começou a tentar apanhá‐los do chão. A hospedeira juntou‐se‐lhe, para a ajudar. Um despertar indesejável de mais atenções. Davies disse‐lhes:

- Não se incomodem, eu apanho. Eu trato disto. São só vitaminas, não há problema. Mas elas continuaram, enquanto tagarelavam, pondo‐lhe os nervos em franja.

E então a mulher afastou o saco com o fecho de correr para chegar a um comprimido. As pernas de Davies deram um esticão
involuntário, e ele vociferou:

- Deixem estar, já disse.

A mulher olhou para cima e os seus olhos grandes mostraram‐se surpreendidos, salpicados de medo. Depois de a mulher se ir embora, Davies começou a meter no frasco os comprimidos que estavam sobre o tabuleiro, contando‐os em silêncio. Faltavam onze. Agitado e furioso, só lhe apetecia nesse momento fazer aquilo que tinha de fazer e acabar com o assunto. Mas sabia que não podia ser. Ainda não. Pelo menos até ter chegado a altura certa.

Depois do filme, mais bebidas, e a seguir a irritante confusão de auscultadores e máscaras para os olhos, cobertores e meias de dormir. Seria no fim daquilo tudo. Quando baixassem a intensidade das luzes e se instalassem as regras artificiais do sono a bordo. Só nessa altura Davies poderia levantar‐se e levar a cabo o que tinha de fazer. Aquilo com que sonhara durante tanto tempo. Um leve sorriso desenhou‐se‐lhe nos lábios. Fora da janela, toda a luminosidade havia sido engolida pelo mar da noite. Um mundo que se dirigia para a escuridão a uma velocidade para além dos desígnios da natureza.

Era meia‐noite, hora de Nova Iorque, quando o diretor‐geral da Pharmstar Corporation, John Sanford Erskine III, se levantou do seu lugar na classe executiva para ir à casa de banho. Passou pelos vultos adormecidos da sua assistente pessoal, Penny Ryan, e de Don Quiggan, diretor financeiro. Do outro lado do corredor, Bob Mazzio, responsável pelas fusões e aquisições, estava a ver um filme no ecrã diante de si.

Dentro do pequeno quarto de banho, Erskine ajeitou a gravata de seda, deu uma escovadela aos ombros do casaco e com umas palmadinhas espalhou colónia sobre as faces bronzeadas. Com o seu metro e noventa e três, precisava de se baixar um pouco para se ver ao espelho. Observou o seu perfil leonino, enfiou um toalhete de papel no colarinho e com cuidado escovou os dentes, limpando‐os com fio dental. Com um pequeno pente de prata deu um toque em dois ou três cabelos rebeldes, colocando‐os no sítio certo. Satisfeito, sorriu. Aos cinquenta e oito anos ainda possuía uma farta cabeleira. Outrora muito negro, o seu cabelo era agora grisalho e pincelado de branco por cima das orelhas.

De um saco de couro com monograma retirou um pequeno boião de creme. Com um novo toalhete de papel enrolado no dedo tirou um bocadinho e espalhou‐o suavemente ao longo das espessas sobrancelhas negras. Assim que os pelos desalinhados se encontraram no lugar, limpou o excesso e serviu‐se de um secador de cabelo para os fixar. As sobrancelhas realçavam os seus penetrantes olhos azuis, mas Erskine usava‐as para fins mais subtis. Com um pequeno arquear, umas inflexões e o sobrolho franzido, aquilo a que ele chamava a sua caligrafia de influência, era capaz de orientar uma reunião sem levantar a voz, assim como conseguia seduzir sem baixar o tom.

Jack Erskine de Ferro - era assim que lhe chamavam - convencia investidores e dominava banqueiros, subjugava rivais e intimidava os opositores. Quando alguém se opunha a Jack de Ferro, costumava dizer‐se na indústria farmacêutica que as probabilidades de essa pessoa perder eram de mil para um. O problema é que alguns inimigos nunca ligavam às probabilidades. Enquanto as vítimas dormem, os predadores caçam.

Eram 2h15 em Nova Iorque e 8h15 em Amesterdão. Davies retirou o seu saco de debaixo do assento e apalpou o conteúdo através do tecido para sentir que a tampa da caixa estava bem selada. Intacta. O seu vizinho de cabelo encaracolado continuava enfiado debaixo de um cobertor, com um cisne de papel na mão. Do outro lado do corredor, um homem de negócios careca ressonava com o computador portátil ainda aberto; o cursor a piscar reclamava atenção. A classe económica parecia um campo de batalha envolto na obscuridade: corpos espraiados, pernas abertas, bocas escancaradas e, do outro lado do corredor, um cobertor salpicado de vinho tinto. Aqui e ali, lâmpadas de leitura perfuravam o ambiente sombrio, iluminando velhotas com permanente no cabelo e óculos presos por correntes, a ler com dificuldade o thriller mais recente.

Se elas soubessem onde estava realmente a ação...

Os seus dedos introduziram‐se no saco através do fecho, soltando os elásticos. A tampa continuava bem fechada. Pôs o saco ao ombro e dirigiu‐se para a cortina que separava a classe executiva. Na cozinha, para lá da cortina, estava uma hospedeira a preparar bebidas, mas esta não levantou o olhar quando ele caminhou adiante por os seus passos terem sido amortecidos pela alcatifa. Um metro e meio à frente ficavam as escadas que levavam ao andar superior da classe executiva. A zona que era o seu alvo.

Davies pisou os degraus suavemente, para se assegurar de que as escadas de metal não faziam barulho enquanto ele subia. A três degraus do topo, parou. Cadeiras largas e macias, ocupadas por corpos reclinados. Corpos moles, vulneráveis, adormecidos. Ele tirou a caixa do saco. Lançou uma última olhadela para cima. Ninguém se mexeu. Ninguém estava a olhar. Com cautela, retirou a tampa.

- Ei, Max! Estou aqui.

Max ainda nem sequer tinha avistado Erica quando esta avançou através da multidão aglomerada nas chegadas, em Amesterdão, e se atirou para os seus braços.

- Tive tantas saudades tuas! - O seu sotaque inglês fê‐lo sentir ondas de deleite pelas costas abaixo, enquanto se perdia no seu abraço e no seu perfume.

- Meu Deus, é tão bom ver‐te! - disse Max.

Beijou‐lhe o pescoço e passou‐lhe as mãos pelo cabelo negro, estilo Chanel; depois segurou‐lhe o rosto e fitou de forma intensa os seus olhos incrivelmente verdes, o seu sorriso rasgado. Vê‐la fazia‐o sempre sentir‐se emocionado, como se dez dias longe dela
fossem tempo suficiente para se esquecer de como era bonita.
- Toma. Tenho aqui uma coisa para ti.

Pousou um cisne de papel no ombro dela. Erica olhou para a peça e sorriu abertamente.

- Obrigada. Vou juntá‐lo à minha coleção cada vez maior de aves de origami. - Depois conduziu‐o para o restaurante do aeroporto.

Encontrei um hotelzinho simpático para nós, e a Universidade da Columbia pagará a conta.

- Tens esse teu trabalho importante pronto para domingo?

Quero ler o New York Times e ver o título «Erica Stroud‐Jones recebe um Prémio Nobel».

Erica sorriu. Max tinha, em relação à ciência, uma visão de artista: uma profusão de fórmulas misteriosas e frascos com gás borbulhante, acentuada por professores de cabelos desgrenhados a gritar «eureka» a meio da noite.

- Tenho ainda de o rever - respondeu ela. - Os organizadores da conferência já andam em cima de mim para lhes entregar o artigo, mas não posso dar‐me ao luxo de fazer má figura por causa de uma ponta solta.

- A minha perfecionista! - Max beijou‐lhe a ponta do nariz e pousou os sacos que levava ao ombro sobre uma mesa. - Mas que isso não seja um impedimento para passarmos bons momentos juntos. Não podes continuar a dar‐me com os pés. Não vou permitir.

- Max, para com isso. - Erica colocou‐lhe um dedo sobre os lábios; os seus olhos brilhavam. - Vá lá. Já discutimos o assunto. O trabalho tem de estar impecável, é por isso que demorou anos...

- Anos, não! Décadas, seguramente. Sem ser reconhecida, sentada numa cadeira partida, a ter de mendigar e de lutar com unhas e dentes para arranjar um computador emprestado, dormindo no escritório...

Erica arqueou uma sobrancelha, fingindo sentir‐se ofendida.
- Dei‐te autorização para embelezares a história dos anos em que tive de comer o pão que o diabo amassou?
Na altura em que a empregada veio anotar o pedido, eles estavam a rir‐se, de mãos dadas em cima da mesa. Max nunca se vira relegado para segundo plano na vida de uma mulher, mas, se queria estar com Erica, sabia que não havia outra forma. Durante toda a sua vida, na escola, na universidade, nos sete anos que estivera na Guarda Costeira dos Estados Unidos, tinha lutado para ser o primeiro, sem pensar nas consequências. No domingo faria trinta e oito anos. Parecia‐lhe uma boa idade para lhe ser concedida uma
pequena benesse.
- Tenho algo de especial planeado para o dia dos teus anos - disse Erica, acariciando o cabelo de Max.
- Mal posso esperar. - Max tinha preparado a sua própria surpresa para ela. Dentro do bolso, os seus dedos bateram levemente na pequena caixa de casca de ostra. Apenas para verificar se esta ainda lá estava, tal como havia feito vezes sem conta desde que saíra de Nova Iorque. Dentro da caixa, sobre um forro de cetim roxo, encontrava‐se um anel. Tinha sido a única vez na sua vida que ele trabalhara o ouro ou fixara um diamante. Estava preparado para domingo, que seria a única vez na sua vida em que pediria a uma mulher que casasse com ele.

Esta manhã, quinta‐feira, a nossa primeira manhã em Amesterdão, o Max e eu chegámos juntos ao bonito hotelzinho que reservámos, o Erwin, com a sua maravilhosa escada em caracol e o átrio forrado a madeira. O quarto era lindo e não nos importou nada que o elevador tivesse apenas espaço suficiente para a bagagem. Ao descermos, vimos uma senhora levantar o marido incapacitado de uma cadeira de rodas e tentar carregar com ele por aquelas escadas íngremes acima. O Max apressou‐se a ajudá‐la e subiu as escadas com aquele homem pequeno, mirrado e engelhado nos braços. Foi um espetáculo comovente.

Erica pousou a caneta e começou a folhear o seu diário para trás. Ouviu ao longe os sinos do Westerkerk. Correu as páginas até àquilo que escrevera três meses antes, quando encontrara Max pela primeira vez em Nova Iorque. Tinha sido apenas alguns meses após o 11 de setembro, a cidade ainda estava em choque, e ela acompanhou Zoe a um evento em Midtown, para angariação de fundos a favor dos bombeiros feridos. O irmão de Zoe trabalhava nos bombeiros de Nova Iorque, e mais tarde levou‐as a um bar em Alphabet City, no Lower East Side, onde algumas das famílias se tinham reunido para recordar os mortos e os feridos de maneira mais informal. Zoe chamou‐lhe a atenção para um certo indivíduo de aspeto robusto, que parecia estar sozinho, mas Erica já reparara nele.

Foi só muitas horas e muitas bebidas mais tarde, numa festa num pequeno apartamento em Brooklyn, que finalmente teve oportunidade de conversar com ele. Olhava para todos os lados à procura dele, mas deduzi que tivesse ido para casa. Fui encurralada na cozinha por um sujeito de calças de ganga rasgadas chamado Lawrence, que afirmava ser professor de Literatura Comparada na City University de Nova Iorque, mas que dava a impressão de estar mais interessado em olhar pela minha blusa abaixo. Fiquei contente quando a Zoe me arrastou para fora dali, para a frescura da escada de incêndio, e murmurou:

- Tenho uma surpresa para ti. Olha.

E lá estava ele, sentado uns degraus mais abaixo, de cerveja na mão, a apreciar a vista da Ponte de Brooklyn e das torres cintilantes de Wall Street. Hesitei.

- Vai lá falar com ele! - disse‐me a Zoe entredentes.

Ao ouvir o barulho metálico produzido pelos meus passos enquanto descia as escadas, ele levantou a cabeça e olhou para mim. Vi‐lhe aquele rosto, sombreado pelas barras da escada de incêndio, mas com um sorriso maravilhoso.

- O melhor assento nesta casa - disse ele, indicando a vista com um gesto. - E com direito a curgete frita - acrescentou, fingindo tocar com a mão o ar engordurado que se elevava do restaurante italiano lá em baixo. Depois ficámos apenas ali sentados, a conversar.

O Max vinha de uma família de bombeiros de Brooklyn. Um irmão mais velho estava no hospital devido à inalação de fumo tóxico, e esta era a primeira vez, em seis meses, que ele voltava a casa para o ver. A irmã também tinha casado com um bombeiro. Um bombeiro que nunca regressara.

- Ainda continua ali debaixo, não se sabe onde - disse Max, um gesto em direção à cidade.

(Diário de Erica, 2002)

A Febre

Nick Louth

Editora Jacarandá

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