Todos somos a metade de alguém: Amor Fati

Teve estreia online no Festival Visions du Réel, pouco depois do confinamento decretado em março, e chega agora às salas de cinema. Amor Fati, de Cláudia Varejão, é uma coletânea de afetos para tempos frios... mas não tem calor suficiente.

O cinema pode transmitir consolo quando a realidade está virada do avesso? O novo filme de Cláudia Varejão, concluído antes do início da pandemia que nos apanhou desprevenidos, embora não se enquadre de todo na ideia cliché de "filme para desanuviar" ou cinema de conforto, parece responder (teoricamente) de modo afirmativo a esta pergunta. E, porém, quando foi selecionado para o festival suíço Visions du Réel, em março, não podia imaginar o simbolismo de que se iria revestir em função dos tempos que estamos a viver, de contacto humano refreado.

O título Amor Fati é uma expressão latina que se traduz por "amor ao destino". Nele está resumido o conceito que a realizadora quis trabalhar: assumindo a crença de que cada um de nós é a metade de alguém, tal como a outra face da moeda, a câmara de Varejão recolheu vários retratos de casais, amigos, irmãos, pais e filhos, e até animais com os seus donos, que dão conta das manifestações desse amor como algo para a vida toda. Veja-se as irmãs gémeas que trabalham no mesmo restaurante, vivem juntas, vestem de igual dentro e fora de casa e partilham todos os hábitos e atividades; o par de amigos com penteado e estilo similar que faz uma sessão fotográfica; o jovem travesti que cuida do seu pequeno buldogue como quem cuida de uma criança; as duas irmãs unha com carne que recordam a infância conjunta e a ligação à figura materna; ou uma família arménia de músicos, a viver em Portugal, que encaixa numa sinfonia íntima.

No papel, tudo isto tem um ar muito apelativo, e não restam dúvidas de que a pesquisa (de dois anos) da realizadora, por mais espontânea que tenha sido, tentou corresponder à imagem abrangente de um coro de sensibilidades e afetos que transparecem a múltipla face do nosso país. Mas, no fim de contas, não há filme nem cinema. Há, sim, uma coleção de material filmado que deixa histórias individuais em potência para servir um propósito ilustrativo maior. A subtileza ficou nas ruas da amargura e raros - senão mesmo nulos - são os momentos em que os retratos libertam calor humano para além da evidência dos gestos e do toque, como se se considerasse que o valor estético das imagens tivesse lume suficiente.

Não duvidamos da honestidade de Amor Fati, da sua intenção de produzir um olhar documental com delicadeza poética, mas o resultado mostra que uma coisa matou a outra - e também aqui o amor para sobreviver precisa da outra metade. Pegando apenas numa das narrativas, Cláudia Varejão teria feito algo digno de observação demorada, tal como fez no seu filme anterior, o belo Ama-San (2016), com as mergulhadoras de uma pequena vila piscatória japonesa, que cumprem uma tradição de caça aquática com mais dois mil anos. Amor Fati, por sua vez, não vai além dos recortes de ternura decorativa.

* Medíocre

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