"The Rookie". O lado bom da polícia numa série sobre reinvenção pessoal

A série protagonizada por Nathan Fillion deu um salto de 82% nas audiências em novembro e a ABC encomendou mais sete episódios do drama policial, que agora terá vinte episódios na temporada de estreia.

A ideia de que um homem se pode inscrever na academia para entrar na polícia de Los Angeles depois dos 40 anos parece rebuscada. Mas esta premissa, que dá vida à nova série televisiva "The Rookie", baseia-se em algo que aconteceu mesmo. Há apenas duas esquadras na grande metrópole do sul da Califórnia que aceitam novatos com mais de 37 anos, e é uma delas que protagoniza a produção da ABC com Nathan Fillion, que o público conhece de oito anos de "Castle." A audiência parece estar a gostar do ângulo inusitado: em novembro, o rating da série deu um salto de 82% nos Estados Unidos, para 7,3 milhões de espectadores, e a ABC encomendou mais sete episódios na primeira temporada, que agora terá vinte capítulos.

"A nossa entrada nesta série policial é um homem que recomeça", explicou Fillion numa conversa em Burbank, nos estúdios onde são filmadas as cenas de esquadra. O ator interpreta John Nolan, um quarentão que começa a reinventar-se após o seu divórcio e vai parar à LAPD (Los Angeles Police Department) como o novato ("rookie") mais velho de sempre. Aquilo que ele procura não é emoção, mas sim relevância. E aquilo que oferece à audiência, além de perseguições espectaculares em locais emblemáticos de Hollywood, é a esperança de que se pode sempre começar de novo.

Não é mais uma série sobre polícias

A piada de ver um homem mais velho ser ridicularizado pela falta de destreza física entre agentes novatos consome-se depressa, e o que o criador Alexi Hawley oferece é muito mais profundo que isso. "The Rookie" tem várias características que a distinguem das outras séries policiais que abundam no panorama televisivo: primeiro, um elenco mais diversificado que qualquer produção do género, já que apenas dois dos oito personagens principais são homens brancos. Depois, um equilíbrio surpreendente de mulheres em posições de poder, algo pouco comum neste tipo de histórias (e na maioria das outras, na verdade). Há também um elemento de comédia que ajuda a quebrar o peso do desenvolvimento emocional das personagens, algo que, diz a atriz Alyssa Diaz ("Angela Lopez") "é o que distingue a série."

Por fim, uma abordagem ao trabalho policial que não se foca nas exceções e sim nas regras. "Com tudo o que está a acontecer no mundo com a violência policial e as pessoas já não confiarem tanto nas autoridades, o importante para nós é mostrar que os polícias também são humanos", disse a atriz Mercedes Mason, que dá corpo à capitã Zoe Anderson. "O Alexi quer mostrar a forma como gostaríamos que os polícias agissem quando confrontados com certas situações."

Os polícias são (outra vez) os bons

Todo o elenco repete esta ideia: a maioria dos polícias faz o melhor que pode, mas a atenção mediática vai para as "maçãs podres" e os episódios que correram mal. Isto é particularmente interessante tendo em conta que três dos personagens são afro-americanos, embora o criador Alexi Hawley tenha frisado que não vai tocar em temas como o movimento "Black Lives Matter", por achar que não o conseguiria "tratar com o respeito que merece."

A visão do ator afro-americano Titus Makin Jr., que interpreta o "rookie" Jackson West, é a mais contundente neste aspeto. "Vejo a polícia de forma 100% diferente", admitiu. "Quando fui escolhido tive dúvidas, dada a tensão que se vive. Conhecer tantos polícias, ouvir as suas histórias e receber algum treino serviu para os humanizar. É difícil tomar aquelas decisões. Fez-me compreender melhor."

O veterano Richard T. Jones, que interpreta polícias e detetives com regularidade, explanou uma posição semelhante. "É uma vida difícil. Eles veem muito na rua, coisas que nem imaginamos, toda a sujidade do mundo. Tem de haver uma vocação espiritual", descreveu o ator, que dá corpo ao sargento Wade Grey. "Não queremos mostrar a polícia a uma luz negativa, queremos mostrá-los como os indivíduos que são, que fazem sacrifícios para proteger as pessoas." E lembrou ainda algo importante: "As pessoas odeiam a polícia... até ao dia em que precisam dela."

A única atriz afro-americana, Afton Williamson, também está habituada a desempenhar papéis de autoridade (The Night Of, Shades of Blue). No entanto, não vê "The Rookie" como mais um policial. "É uma série sobre personagens que por acaso são polícias", argumentou. "Tivemos muito treino que me fez apreciar o que eles fazem, a forma como têm de pensar de forma tática, ser terapeutas", explicou a atriz ("Talia Bishop" na série). "Fez-me pensar que não devemos deixar que algumas pessoas manchem a ideia da força policial para nós. Eles estão ali para nos proteger e têm corações de ouro."

O charme que Nathan Fillion empresta ao seu personagem ajuda a torná-lo num mediador entre a audiência e a polícia. Não é que Alexi Hawley queira redenção; o que ele pretende é mostrar uma realidade que se perdeu na crispação entre a polícia e as comunidades nos últimos anos.

É por isso que a sala de escritores inclui um ex-polícia, Frederick Kotto, que contou que a maioria das histórias mostradas em "The Rookie" aconteceu mesmo. A diferença para outras séries é que aqui não se perde muito tempo a investigar casos. Não é um novo "Castle" nem outro "CSI". "A série é muito subjetiva", disse Alexi. "Não contamos histórias fora dos nossos personagens. Nunca verá uma cena com criminosos. Tentamos entrar nas cenas da forma como os polícias o fariam."

Algo que ajuda a fazer isso é a inclusão das imagens das câmaras que os polícias de Los Angeles agora usam no peito, uma adição recente que foi espoletada pelos episódios de violência dos últimos cinco anos. "A câmara corporal é para ajudar a representar o que se está a passar nas ruas hoje", indicou Melissa O"Neil, atriz que interpreta a "rookie" Lucy Chen. "As histórias horríveis que vemos por aí sobre polícias são uma minoria, não refletem o que se passa nas ruas. A câmara corporal dá uma perspetiva pessoal."

Frederick Kotto acrescenta: "A série mostra que a maioria dos agentes são pessoas trabalhadoras, honestas, dedicadas, sinceras, que realmente querem fazer algo positivo. Muitas séries afastam-se disso porque acham que a corrupção é mais interessante. E estamos a ver que há interesse em vê-los a fazer a coisa certa. É algo que é novo."

Por serem polícias de patrulha e não detetives, o foco está nas suas vidas e atitudes, não nos crimes. "Não é apenas uma série que mergulha nos casos que passam pelas mãos dos polícias, mas explora como é ser um polícia, como afeta a vida pessoal, as relações no trabalho", sublinha o ator Eric Winter ("Tim Bradford").

A lição da reinvenção

No primeiro episódio da série, o sargento Wade Grey praticamente insulta John Nolan, chamando-lhe "uma crise ambulante de meia-idade." É fácil olhar para a descrição de "The Rookie" e pensar isso mesmo, mas Alexi Hawley - que usou várias histórias do "rookie" verdadeiro na série - desfaz essa ideia. "Havia a piada da crise de meia idade, mas agora acho que todas as gerações estão a ter crises", argumentou. Talvez isso ajude a explicar porque é que uma série sobre polícias de patrulha na cidade de Los Angeles, que pouca gente conhece in loco, foi vendida simultaneamente para 160 países, incluindo Portugal. Esta crise de identidade afeta toda a gente, garante Alexi Hawley. As pessoas repensam as carreiras antes de chegarem aos trinta. Já não ficam presas em casamentos difíceis. "É isso que torna [a série] universal em 2018", afirma. "As pessoas não se conformam em serem infelizes."

"The Rookie" passa no AXN todas as segunda-feiras às 23:15.

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