Teatro D. Maria II lança temporada com incertezas de orçamento e peças internacionais

O Teatro Nacional D. Maria II apresentou no domingo a programação para a próxima temporada, "mas com uma enorme incerteza" quanto aos espetáculos internacionais, porque é uma incógnita se as fronteiras vão abrir, e quanto ao orçamento.

A temporada arranca a 1 de setembro, com A vida vai engolir-vos, espetáculo dirigido por Tónan Quito que adapta quatro textos de Tchékhov e que se divide em duas partes - entre o Teatro Nacional D. Maria II (TNDM) e o São Luiz Teatro Municipal, ambos em Lisboa. Nos palcos vão estar, entre outros, Álvaro Correia, Gonçalo Waddington, Miguel Loureiro, Mónica Garnel, Rita Cabaço e Sílvia Filipe.

Este espetáculo deveria ter sido apresentado no fecho da temporada mas teve que ser cancelado devido à pandemia de covid-19. Foram mais de 20 os espetáculos que estavam agendados para a temporada anterior e que não puderam ser apresentados e que agora foram reagendados para a nova temporada. Nas palavras do diretor artístico do TNDM, Tiago Rodrigues, "ninguém ficou fora do barco".

Todos os espetáculos reagendados

A programação para 2020/2021 integra todos os espetáculos cancelados na temporada anterior, mas a presidente do conselho de administração do teatro, Cláudia Belchior, confessou à Lusa que "ainda há muitas incertezas" relativamente às apresentações internacionais e às digressões.

Segundo Cláudia Belchior, "houve um enorme trabalho que foi ver o que havia agendado para final de março, abril, maio, junho e julho, que era uma programação intensa, de pagar a todos os artistas e todas as companhias que estavam previstas até ao fim, fazer o reagendamento e a calendarização". "Agora estamos a lançar a nova temporada como um ato de coragem e de fé, de que as coisas vão entrar numa nova normalidade, embora estejamos sempre conscientes de que temos restrições de público", afirmou.

Depois de três meses fechado devido à pandemia, o teatro reabriu ao público nos dias 21 e 22 de junho para a apresentação do espetáculo By Heart, de Tiago Rodrigues, com apenas 50% da sala disponível, e que esgotou nos dois dias. A presidente da administração explica que foram feitos "investimentos volumosos" para adquirir 50 dispensadores de álcool gel, equipar todos os postos de atendimento ao público com acrílicos, dar formação interna sobre cuidados de saúde e distanciamento.

Dúvidas para o futuro

No entanto, há muitas dúvidas sobre o que vai acontecer na próxima temporada. Por um lado, há ainda uma "enorme insegurança" com as fronteiras europeias e mundiais, porque o teatro está a "prever receber espetáculos internacionais" e fazer digressão, "e essa insegurança das fronteiras tem de ser avaliada dia a dia". "Há incerteza quanto às digressões. Tivemos uma carta de conforto dos nossos coprodutores internacionais, no sentido de que estão a honrar os compromissos com os valores de coprodução. Mas quanto aos valores depois da digressão, da apresentação local, nós desenhámos o orçamento com alguma cautela porque não sabemos se as fronteiras vão abrir ou não".

Por outro lado, o contrato-programa termina em dezembro deste ano e o TNDM está já a desenhar o que será o próximo triénio, de 2021, 2022 e 2023. "Sabemos que para o ano vai ser complicado em termos de Orçamento do Estado, mas há ainda um silêncio, porque não sabemos o que vai acontecer e esperamos que pelo menos se mantenha igual a este ano. É com essa meta que estamos, e esperamos conseguir cumprir", afirmou à Lusa Cláudia Belchior, admitindo que "é sempre um jogo e uma negociação aturada, complicada, diária com as tutelas da cultura e, sobretudo, financeira".

Para o diretor artístico, trabalhar e repensar a temporada, depois de um encerramento por tempo indeterminado, foi como preparar a programação com os obstáculos normais de todos os anos, mas "em equilíbrio instável, como se estivesse numa jangada em mar alto, durante uma tempestade, e a escrever a lápis".

"Foi uma temporada que teve de ser escrita a lápis muitas vezes até podermos passá-la a tinta e mesmo essa tinta com que está escrita é a tinta possível hoje, face à incerteza do futuro que atravessa, não só a sociedade portuguesa, mas que atravessamos todos no mundo com esta pandemia".

O que vamos ver?

A programação do Teatro Nacional Dona Maria II está já disponível no site do teatro e também neste vídeo. Ficam aqui alguns destaques:

1 de setembro: A vida vai engolir-vos, de Tónan Quito, a partir de Tchékhov.

18 de setembro: Seis Meses Depois, novo espetáculo de Olga Roriz que se estreia no ano em que a Companhia assinala 25 anos de existência.

25 de setembro: da Suíça, Massimo Furlan e Claire de Ribaupierre trazem Eurovisão da Canção Filosófica, um espetáculo-concurso de canções com letras escritas por filósofos de 11 países europeus.

8 de outubro: Última Hora, peça que Rui Cardoso Martins escreveu para o D. Maria II, que se desenrola na redação de um jornal, e que Gonçalo Amorim encena.

3 de dezembro: Fake, espetáculo de Inês Barahona e Miguel Fragata sobre o universo da verdade e da mentira.

18 de dezembro: pela primeira vez em Portugal, o japonês Michikazu Matsune traz ao D. Maria II All Together.

14 de janeiro de 2021: Carta, nova criação de Mónica Calle que conta com um elenco de mais de 30 atrizes e músicas.

14 de janeiro: Off, encenação de Jorge Andrade a partir do texto que Chris Thorpe escreveu para a companhia Mala Voadora.

8 de fevereiro: Morte de um Caixeiro Viajante, de Arthur Miller, produção dos Artistas Unidos, com encenação de Jorge Silva Melo.

12 de março: o alemão Frank Castorf apresenta a sua mais recente criação, a partir de Artaud e Racine - Bajazet, considerando O Teatro e a Peste.

7 de abril: Catarina e a beleza de matar fascistas, nova criação de Tiago Rodrigues que questiona se haverá lugar para a violência na luta por um mundo melhor

8 de abril: Tempo Para Refletir, da dupla Ana Borralho e João Galante.

28 de abril: Mathilde Monnier, La Ribot e Tiago Rodrigues apresentam Please Please Please, espetáculo com uma mensagem para as futuras gerações.

20 de maio: Top Girls, com encenação de Cristina Carvalhal e Distante, com encenação de Teresa Coutinho, dois espetáculos que celebram as palavras de Caryl Churchill.

24 de junho: Calígula morreu, Eu não, um espetáculo de Marco Paiva, que junta intérpretes com e sem deficiência, numa coprodução com o Centro Dramático Nacional de Madrid.

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