Sonhos tailandeses falados em espanhol

O cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul continua fiel ao seu cinema de sonhos, desta vez, com Memoria, filmando em cenários da Colômbia.

O tailandês Apichatpong Weerasethakul é uma figura querida de Cannes. Os seus filmes transportam sinais concisos das convulsões do seu país, ao mesmo tempo que nos convocam para viagens em que o sonho pode triunfar como única realidade habitável. Assim era, por exemplo, o bem chamado O Tio Boonmee que se Lembra das suas Vidas Anteriores, vencedor da Palma de Ouro no festival de 2010.

Reencontramo-lo agora na competição com um filme fiel à vocação surreal do seu cinema, mas abraçando, literalmente, outras paisagens. Chama-se Memoria - assim mesmo, em espanhol, já que estamos perante o resultado de uma rodagem em terras colombianas, com Tilda Swinton a assumir a personagem condutora dos acontecimentos; a atriz inglesa foi mesmo decisiva na montagem do projeto, surgindo o seu nome no genérico como principal produtora.

Que acontece, então? Um misto de perturbação e encantamento que passa pelo apelo, ora cru, ora selvagem, dos elementos paisagísticos. Tilda Swinton tenta compreender de onde vem um som (um corpo a cair?...) que vai assombrando o seu quotidiano, ao mesmo tempo (ou serão tempos paralelos?...) que se envolve com algumas outras personagens que desafiam todas as suas certezas.

Do terreno de uma escavação arqueológica até à exuberância dos recantos florestais, sem esquecer a presença fantasmática de militares a guardar as estradas, Memoria vai evoluindo à maneira de um labirinto de sonhos cuja origem parece perder-se na teia do tempo. Um pouco à maneira de um quadro de Magritte, talvez se possa dizer que assistimos à instalação de uma dúvida metódica: sim, tudo aquilo será o resultado de uma vertigem onírica... mas quem está a sonhar? Uma personagem? O cineasta? O próprio espectador?

A estranheza, mas também a sedução, do cinema de Apichatpong Weerasethakul continua a enraizar-se num projecto de paradoxal racionalismo. A saber: trata-se de intensificar o cinema como experiência eminentemente sensorial, transformando a projeção de um filme num passaporte para um país ainda humano, mas sem fronteiras. Foi isso mesmo que pudemos sentir no ecrã gigante do auditório Lumière.

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