"Só eu escapei": As tragédias acontecem enquanto bebemos chá

As atrizes Márcia Breia, Maria Emília Correia, Lídia Franco e Catarina Avelar são as protagonistas do espetáculo que se estreia sábado no Teatro Aberto, em Lisboa.

Quatro senhoras encontram-se no jardim perto de casa. Três são amigas de infância, a outra é uma vizinha recente. Sentam-se, conversam, tomam chá. Falam do tempo e dos filhos, das dores nas costas e de quanto eram novas, conversa de circunstância entre quatro senhoras já não muito novas. Cada uma tem o seu passado. Uma odeia gatos, não suporta sequer ouvir a palavra gato. Uma matou o marido e esteve oito anos presa. Uma sofre de ansiedade e tem medo de sair à rua. Mas há uma da qual pouco sabemos: mas ela está atenta ao mundo que a rodeia e relata-nos todas as tragédias que estão a acontecer - a fome, as guerras, as catástrofes climáticas, as mortes.

A estreia de Só eu escapei, com texto da dramaturga britânica Caryl Churchi, esteve prevista para maio último, mas acabou por ser adiada devido à pandemia de covid-19. Estreia este sábado, no Teatro Aberto, em Lisboa, e é, nas palavras do encenador João Lourenço, um espetáculo "de alto risco, quanto mais não seja pela idade", já que, além do encenador, as quatro atrizes têm todas já "uma idade avançada": Catarina Avelar, Lídia Franco, Márcia Breia e Maria Emília Correia são as quatro atrizes em cena.

Só eu escapei, título que a dramaturga britânica foi buscar à expressão "Só eu é que escapei para te trazer a nova", presente no Livro de Job e em Moby Dick, é, diz João Lourenço, um espetáculo "profético", que "reflete a inteligência, sagacidade e capacidade que a maior autora britânica da atualidade teve de antever a angústia dos dias estranhos que estamos a viver". Escrita "antes de Donald Trump e do 'pateta' brasileiro se tornarem presidentes", Só eu escapei questiona o futuro da vida na Terra, face "aos delírios de uma evolução que deixou de ter em conta a dimensão humana e a preservação das espécies", explica.

A ação gira em torno de quatro mulheres "irónicas, engraçadas, inteligentes e, principalmente, duras", que se encontram no jardim de uma casa, a conversar. As quatro mulheres "vão tomando chá ao mesmo tempo que vão denunciando a violência física e psicológica dos tempos que correm", num mundo "em sobressalto diário e em que, pela primeira vez, também o teatro se encontra ameaçado, na plateia e no palco", explica.

O espetáculo vai estar em cena até 28 de fevereiro de 2021 na sala Azul do Teatro Aberto, com sessões às 19.00 de quarta a sábado e às 16.00 ao domingo, devido à situação de confinamento parcial que se vive em Lisboa.

João Lourenço sublinha "a resiliência, o empenho e o profissionalismo demonstrados pelas quatro atrizes", desde a preparação da peça, porque, apesar de ter chegado a ser ensaiada a partir da casa de cada um, nos últimos tempos, com a aproximação da estreia, impôs-se a necessidade de haver deslocações diárias ao teatro. "Uma aposta e um risco diário quase às cegas, pois devido à pandemia do novo coronavírus nunca sabíamos se conseguiríamos estreá-la", diz. "Mas elas, enquanto grandes atrizes que são, embora com carreiras em registos diferentes, mostraram sempre uma força e capacidade de resistência e insistência inigualáveis".

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