Serpa inaugura Museu do Cante mas género musical vive tempos de incerteza

O novo espaço surge na sequência da já existente Casa do Cante, que possui o Centro Documental Manuel Dias Nunes, uma galeria de exposições e um auditório, "ganhando", agora, o centro interpretativo. Covid-19 pode ter forte impacto no regresso dos grupos corais à atividade.

A criação de um centro interpretativo, que se junta a outras valências já existentes, vai dar origem ao Museu do Cante em Serpa (Beja), que é inaugurado amanhã, revelou ontem o autarca local, Tomé Pires. "A missão do novo centro interpretativo é dar a conhecer o cante para todos e não apenas numa perspetiva tão académica", indicou. Nesse sentido, "o conteúdo" do museu vai ser apresentado "de forma menos académica e de mais fácil acesso", prosseguiu o autarca, adiantando que haverá à disposição dos visitantes "muita informação em suporte físico e muito mais em suporte digital".

E, além de "uma linha do tempo com momentos marcantes do cante desde o seu nascimento até hoje", o novo Museu do Cante tem também "algumas partes interativas", com destaque para "a 'box' do cante". "A ideia é que alguém que entre naquela caixa possa ter a ideia do que é estar mesmo no meio do grupo coral, cantar e ficar gravada a sua performance", adiantou Tomé Pires. Mas "o karaoke", como lhe chamou o antropólogo Paulo Lima, que trabalhou nos conteúdos do museu, é apenas uma parte da visita "muito iterativa" que os visitantes vão poder fazer, a partir de sábado.

"Podem aceder a uma coleção de registos de áudio desde os anos 30" do século passado, exemplificou à Lusa o antropólogo, um dos responsáveis pela candidatura que levou à classificação do cante alentejano como Património Cultural Imaterial, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

Através dessa coleção, são desvendadas "algumas coisas curiosas", nomeadamente ficar a saber que o cante "é uma prática que esteve ligada ao baile, aos instrumentos musicais", adiantou. A cerimónia oficial de inauguração do Museu do Cante está marcada para as 19.00 de amanhã, na Alcáçova do Castelo de Serpa, e será aberta apenas a convidados, devido à "limitação de espaços imposta pela pandemia", informou o município, em comunicado.

A construção do novo equipamento, cujo projeto de museografia "tem a parceria da Direção Regional de Cultura do Alentejo", representa um investimento a rondar os 350 mil euros, cofinanciado em 85% pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER), através do programa Alentejo 2020, acrescentou Tomé Pires.

O cante alentejano, um canto coletivo, sem recurso a instrumentos e que incorpora música e poesia, foi classificado em 2014 como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO. A candidatura foi promovida pela Câmara de Serpa, em conjunto com a Casa do Cante, que passa, a partir de amanhã, a assumir a designação única de Museu do Cante, e teve o contributo da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo, da Casa do Alentejo, em Lisboa, da Confraria do Cante Alentejano e da Moda - Associação do Cante Alentejano.

Paulo Lima, um dos responsáveis pela classificação do cante como Património Cultural Imaterial pela UNESCO, diz, no entanto, que um terço dos cerca de 180 grupos de cante alentejano pode não voltar a reunir-se devido à pandemia de covid-19 . "Se calhar, um terço pode não voltar a reunir-se. Não quero estar a 'inventar', mas estou a dar um valor dentro daquilo que são as minhas suposições", disse o antropólogo, em declarações à agência Lusa.

Na base da estimativa de Paulo Lima, ligado ao novo Museu do Cante, está a mortalidade provocada pela pandemia em algumas aldeias do Alentejo, "onde havia dois ou três grupos" corais, mas também onde, devido à covid-19, "morreram umas 40 pessoas". "Muitos grupos corais estão envelhecidos, é provável que o 'rombo' seja muito grande", afirmou o antropólogo.

E, além das possíveis baixas provocadas pelo coronavírus SRAS-CoV-2 nos grupos corais, há que contar também com outro fator: "As pessoas têm medo" de voltar a juntar-se, frisou. "O cante é coletivo. Não dá para estar um aqui e o outro a dois metros. Os grupos corais vivem dos convites, dos convívios e o que noto é o medo. As pessoas não se querem juntar", concluiu Lima.

O presidente da Câmara de Serpa, Tomé Pires, admitiu que o cante "é indissociável do convívio" e que, se as pessoas não se podem juntar por causa da pandemia, "fica mais difícil" os grupos prosseguirem a sua atividade. No entanto, Tomé Pires afiançou à Lusa que "a maioria" dos grupos corais de cante alentejano está "com vontade de voltar a ensaiar e a cantar", o que deverá ser feito "conforme as condições assim o permitam". "Poderá haver alguns grupos corais com dificuldades, mas temos tentado acompanhar e vamos continuar a fazer um contacto telefónico, praticamente todos os meses, com todos os grupos corais", disse.

Tomé Pires apontou ainda que está em preparação uma avaliação do impacto a curto prazo da pandemia da covid-19 no cante, "quando baixar a poeira". Essa avaliação, acrescentou Paulo Lima, poderá começar a ser feita já "em outubro", quando pretende promover um grande encontro de grupos corais e de bandas filarmónicas, das quais está também a preparar a candidatura a Património da Humanidade, mas "o panorama não é bom, especialmente para o cante".

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