Sean Penn numa teia de duas famílias

Sean Penn evoca uma relação pai/filha assombrada por uma série de fraudes criminosas: uma boa história esbanjada por uma narrativa pouco consistente.

No passado mês de julho, em Cannes, havia grande expectativa em torno do novo filme interpretado e realizado por Sean Penn, Flag Day, agora lançado entre nós com o subtítulo Dias Perdidos. Isto porque se esperava a superação de uma memória recente: em 2016, Penn estivera também na secção competitiva do festival com The Last Face - A Última Fronteira, thriller mais ou menos romântico cujo falhanço era tanto mais desconcertante quanto se tratava de uma produção ambiciosa, com um elenco liderado por Charlize Theron e Javier Bardem.

Apesar da simpatia com que Penn foi recebido, não se pode dizer que Flag Day tivesse reencontrado o fulgor de O Lado Selvagem (2007), sem dúvida a sua melhor realização. Aí se consumava uma revisitação amarga do Sonho Americano através da personagem de um jovem (Emile Hirsch) que nas paisagens do Alaska procura reencontrar a redenção de uma mitologia perdida.

Tal como em O Lado Selvagem, estamos perante um argumento baseado numa personagem verídica, mais exatamente no livro da jornalista Jennifer Vogel (Flim-Flam Man: The True Story of My Father"s Counterfeit Life, 2005) sobre as atribulações do seu pai, John Vogel. Tudo depende, aliás, de uma dramática discrepância entre o pouco que Jennifer sabe da vida do pai e o facto de este se ir transformando num homem sempre em fuga, montando negócios fraudulentos no sector imobiliário e, por fim, imprimindo uma quantia descomunal de dinheiro falso (22 milhões de dólares!).

Penn terá acreditado que tinha entre mãos uma história de contagiante vibração dramática. E podemos compreendê-lo: a estranha relação Jennifer/John contém os elementos necessários e suficientes para reativar um modelo clássico de melodrama familiar tingido pelas emoções do thriller. Há mesmo na personagem de John a marca de um assombramento com ressonâncias nacionais, desde logo expresso no título original (à letra: "Dia da Bandeira"). Ele nasceu a 14 de junho, dia em que se comemora a adoção da bandeira dos EUA (no ano de 1777); ora, segundo a maldição recordada pela mãe de John (Dale Dickey), "não se pode confiar num sacana nascido no Dia da Bandeira". Infelizmente, tudo isto se apresenta reduzido a um primarismo tanto mais bizarro quanto o filme tenta "compensar" as suas limitações narrativas através da voz off de John, repetitiva e redundante, para mais "ilustrada" por imagens de duvidoso lirismo.

Em todos os filmes que dirigiu, esta é a primeira vez que Penn surge também como ator. Mais do que isso: entregou o papel de Jennifer à sua filha Dylan Penn (o irmão, Hopper Penn, surge também num pequeno papel). Escusado será dizer que a dimensão familiar do empreendimento não é um elemento de avaliação. O certo é que Dylan Penn não tem condições, nem parece possuir os recursos, para corresponder ao que lhe é pedido: a "naturalidade" da sua relação com a câmara é um trunfo que, por vezes, falta a atores muito talentosos, mas não basta para assumir uma personagem tão complexa.

dnot@dn.pt

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