Satyajit Ray, o contista: quatro histórias na Netflix

Contos do maior cineasta indiano adaptados ao pequeno ecrã. O Mundo de Satyajit Ray é uma antologia com a diversidade de géneros que alimentava a mente criativa do realizador e escritor.

Pouco tempo depois de se assinalar o centenário de Satyajit Ray (1921-1992), a 2 de maio, eis que deparamos com uma série de pequenos filmes, quatro "episódios", baseados em contos seus. Sem se estabelecer uma relação direta com as comemorações da data - limitadas devido à pandemia, apesar de haver uma produção em curso a cargo do filho, Sandip Ray -, este original Netflix chega numa altura em que importa enaltecer o legado do mais internacional dos cineastas indianos, certamente o grande realizador bengali, que, entre outras facetas, foi também um notável escritor, responsável pelas famosas sagas do detetive Feluda (personagem inspirada em Sherlock Holmes, de que o próprio fez dois filmes) e do Professor Shonku, este último no registo da ficção científica. A adaptação ao pequeno ecrã de contos da sua autoria surge agora como uma homenagem ao talento que tinha para as narrativas concentradas, dentro de diferentes géneros.

X-Ray: Selected Satyajit Shorts, ou no título português O Mundo de Satyajit Ray, reúne quatro histórias que concentram quatro temas: o ego, a vingança, a traição e a inveja. Com um genérico de abertura que evoca ainda a arte de Ray como ilustrador, esta antologia arranca com um thriller psicológico centrado num empresário arrogante, cuja memória é posta em causa depois de um episódio passado que este não é capaz de recordar, e termina com a sátira à volta de um ator popular e de uma figura feminina ainda mais carismática, ambos hospedados no mesmo hotel. Pelo meio há uma espécie de conto noir sobre um maquilhador maltratado que idealiza um plano de vingança através do uso de próteses faciais, desafiando o poder dos deuses, e uma comédia com um cantor cleptomaníaco que, numa viagem de comboio, volta a encontrar-se na mesma carruagem com uma das vítimas dos seus roubos (o formato da viagem de comboio foi também usada por Ray em O Herói, filme de 1966, sobre uma estrela de cinema).

Cada uma destas histórias urbanas acaba por ter como linha comum a questão moral do protagonista. E embora não sejam aqui objeto de realização exemplar, prevalece a evidência do rasgo narrativo de Satyajit Ray: "Quando escrevo um texto gosto de abordar profundamente um tema, limitando-o no tempo e no espaço." Ora a operação X-Ray, assinada por três realizadores, não só respeita a referida condensação do texto, como prova a qualidade e economia de uma escrita geralmente assente em acontecimentos triviais que operam mudanças na vida de uma personagem. Já para não falar na intrínseca modernidade, ou intemporalidade, e de um desejo de explorar diversos registos.

Mesmo enquanto cineasta, Ray interessava-se pela variedade. "Não gosto de encadear dois filmes análogos", escreveu, nomeando "um filme de capa e espada, um filme histórico, uma obra de ficção científica" como géneros que gostaria de ter abordado. E, no entanto, estamos a falar do maior cronista de Calcutá, o Tagore do cinema, realizador de Pather Panchali e Charulata, que retratou o campo e a cidade e o valor da integridade pessoal - nunca deixando de intercalar obras-primas com comédias e filmes de aventuras.

O que se reconhece em O Mundo de Satyajit Ray é então a alma de um contista, a mente criativa e o olho para a construção de tempestades interiores que funcionam como reflexões modernas, com várias máscaras, ou simplesmente ironias com autocomentário, como aquela, no terceiro episódio (talvez o melhor dos quatro), que à boleia do tema da cleptomania faz alusão a uns tais contos roubados de Satyajit Ray... Digamos que esta série é um pequeno assalto a um dos gigantes da cultura indiana.

Veja o trailer aqui.

dnot@dn.pt

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