Samuel Úria apresenta "uma elegia a um inverno desesperado"

O músico, um dos primeiros a voltar aos palcos, no início de maio, fez uma releitura de alguns temas do álbum Canções do Pós-Guerra, agora editados num EP em formato cassete.

Com um álbum novo editado no final do ano passado, que por estes dias deveria estar a ser apresentado ao vivo, Samuel Úria viu os seus planos alterados, a exemplo de grande parte da população, por causa do segundo confinamento, durante o qual fez "uma espécie de regresso às origens", regravando a solo seis temas agora editados no EP Canções do Pós-Guerra - Solo. "Foi um período vivido com uma grande dose de incredulidade", começa por dizer ao DN o músico, que irá ser um dos primeiros a voltar aos palcos, com quatro datas marcadas em Lisboa e no Porto, a 3 e 4 de maio no Teatro Maria Matos e a 6 e 7 no Auditório CCOP, respetivamente, onde também estará sozinho em palco. "Vejo esses concertos com alguma ansiedade, mas não de uma forma castradora. Pelo contrário, até pode funcionar a favor, porque a vontade de tocar é tanta que sou feliz só com a ideia de o fazer", afirma com humor, assumindo, ainda assim, um "pessimismo defensivo", devido a todas as incertezas que ainda pairam no ar. "Para quem tudo correu mal neste período, como aconteceu com os trabalhadores da cultura, um dos pouco ensinamentos positivos com que ficámos foi o de deixarmos de dar as coisas como garantidas. E, ao mesmo tempo, isso trouxe-nos uma enorme vontade de agarrar tudo aquilo que nos vai aparecendo. É assim que estou a encarar estes concertos", revela.

Ao contrário do que aconteceu nos concertos de apresentação do último disco, Canções do Pós-Guerra, em que surgiu acompanhado da sua banda habitual, em espetáculos esgotados no Teatro Tivoli BBVA e na Casa da Música, desta vez Samuel Úria apresentar-se-á a solo. "Apesar de gostar mais de tocar com banda, até por questões de convivência social, já há algum tempo que tinha vontade de voltar a tocar assim, como quando comecei e pareceu-me a altura certa para o fazer, até devido a este contexto histórico de incertezas e desesperanças comuns", admite. A "relação mais íntima" que, neste tipo de atuações, se consegue criar com o público pode até funcionar, defende, como "uma espécie de amparo, para ambas as partes"

O próprio EP Canções do Pós-Guerra - Solo é já "um reflexo dessa vontade", também ela estimulada pelo novo período de confinamento. "Embora isto possa soar um pouco presunçoso, percebi o potencial que uma pessoa sozinha poderia ter neste contexto, porque foi mesmo um inverno muito desesperado e solitário para todos", sublinha. Nas palavras do autor, o disco pretende "marcar o fim desse período", não em forma de celebração, mas antes "como se fosse um memorial ou uma elegia a esse tempo". As seis canções escolhidas têm que ver com essa "temática desesperada" e o objetivo era que, no seu conjunto, se escutasse "a melancolia real dos primeiros dias de 2021", para assim "avivar a esperança de dias melhores".

Além das releituras mais despojadas de Guerra e Paz, Fica Aquém e A Contenção, três dos temas mais emblemáticos do último álbum, o alinhamento inclui ainda duas composições de Samuel Úria para outros artistas. São elas Cantiga de Abrigo, originalmente interpretada por Ana Moura no álbum Moura; E Sinais, feita em parceria com Hélder Gonçalves para o último trabalho dos Clã, Véspera. "Na altura escrevi já a pensar na voz da Ana Moura, mas na minha cabeça a canção era bem mais tristonha do que acabou por ser na voz dela e optei por recuperar esse sentimento inicial. Já a dos Clã, mudei apenas um pouco a estética, para a diferenciar do original", explica. A tudo isto acrescenta-se ainda a versão de um original de Márcia, Amor Conforme - "é uma música de que gosto muito, daquelas que gostaria de ter sido eu a fazer e este EP foi um bom pretexto para a cantar", confessa. Além do lançamento nas habituais plataformas digitais, Canções do Pós-Guerra - Solo terá também uma edição física, em formato de cassete áudio, apenas disponível para venda nos concertos, integrada num pack "analógico" que também contém o vinil do álbum Canções do Pós-Guerra.

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