"Saladino, o conquistador de Jerusalém, ainda é visto como modelo por muitos no Médio Oriente"

Em A Vida e a Lenda do Sultão Saladino de Jonathan Phillips descobre-se uma figura que tanto é um herói para os muçulmanos como um guerreiro respeitado pelos inimigos cristãos. O autor do livro é professor de História das Cruzadas no Royal Holloway, na Universidade de Londres.

Saladino é popular entre os modernizadores do Islão, ou pelo menos laicos, como eram Nasser ou Saddam Hussein, e também entre grupos fundamentalistas islâmicos, como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico. Como explica isso?
A essência da atração de Saladino para essa diversidade de gente é que em 1187 ele congregou os muçulmanos do Médio Oriente para derrotar os cruzados (que conquistaram a Terra Santa durante a Primeira Cruzada, em 1099) e recuperou a cidade sagrada de Jerusalém para o Islão. Resistiu depois aos esforços dos grandes reis da Europa, principalmente Ricardo, Coração de Leão, de Inglaterra, e conseguiu manter Jerusalém. Essa narrativa de unidade (na verdade, uma coligação bastante frágil), de vitória sobre invasores externos e de um triunfo para a sua fé e para o seu povo é algo que nunca foi esquecido no Médio Oriente. Quando os europeus recomeçaram a ter um maior interesse na região, encetando com a invasão de Napoleão ao Egito, em 1798, a memória dos cruzados matando e conquistando terras tornou-se particularmente ressonante. A criação de Israel, "novos cruzados" para alguns, pode ser vista como uma continuação desse paralelo, e na figura de Saladino - um homem de carisma, que reuniu as pessoas para derrotar os forasteiros e expulsá-los de Jerusalém - existe um modelo ideal para os muçulmanos. O facto de ele ser visto como um homem de piedade, justiça e honra aumenta a sua atração.



Também é tradicional entre os ocidentais, ou no mundo cristão, uma visão simpática de Saladino, como uma espécie de nobre cavaleiro. Saladino era realmente um nobre cavaleiro?
É um paradoxo extraordinário que o homem que desferiu um golpe tão terrível na fé cristã, removendo a cidade de Cristo das mãos dos cristãos, logo tenha passado a ser visto sob uma luz amplamente positiva no Ocidente. Em parte porque, ao contrário dos primeiros cruzados, que massacraram os defensores muçulmanos e judeus de Jerusalém em 1099, Saladino poupou os cristãos. Durante a Terceira Cruzada (1188-1192), os europeus ocidentais tiveram que se relacionar intimamente com ele, principalmente para concluir o tratado de paz que encerrou a cruzada. Consideraram-no cortês, generoso, piedoso e um homem de honra e justiça, características que os cavaleiros ocidentais admiravam ou aspiravam para si mesmos. Ele também foi um vencedor! Saladino foi, em muitos aspetos (fé à parte), o exemplo de cavaleiro ideal, e de imediato foi adotado como tal pela Europa Ocidental, aparecendo na poesia e na literatura de forma cada vez mais exagerada. Ele era realmente nobre? Certamente tinha as características pessoais mencionadas acima, mas por puro espírito prático precisava ser duro às vezes. Ele era, além de um grande guerreiro sagrado, um construtor de impérios, que usurpou as terras do seu antigo patrono para ganhar um território para a sua própria dinastia (conhecida como os aiúbidas). Durante cerca de 13 anos lutou com os seus companheiros muçulmanos sunitas para estabelecer a sua autoridade sobre o que hoje é o Egito, a Síria e o Norte do Iraque, a fim de ter os recursos para enfrentar os cruzados. Embora seja famoso por poupar os habitantes de Jerusalém, ocasionalmente executou centenas dos seus inimigos cruzados, principalmente após a Batalha de Hattin, em 1187. Por outras palavras, Saladino não era perfeito, e nem devemos esperar que o fosse. Dito isso, as suas características pessoais positivas certamente foram parte das razões do seu sucesso e também ajudam a explicar por que ainda hoje é considerado um exemplo.

"Quando os europeus recomeçaram a ter um maior interesse na região, encetando com a invasão de Napoleão ao Egito em 1798, a memória dos cruzados matando e conquistando terras tornou-se particularmente ressonante. A criação de Israel, "novos cruzados" para alguns, pode ser vista como uma continuação desse paralelo, e na figura de Saladino - um homem de carisma, que reuniu as pessoas para derrotar os forasteiros e expulsá-los de Jerusalém◘- existe um modelo ideal para os muçulmanos. O facto de ser visto como um homem de piedade, justiça e honra aumenta a sua atração."


Sendo um curdo, quão difícil foi para Saladino tornar-se um governante poderoso? Naquele momento, século XII, a religião era mais importante que a etnicidade entre os muçulmanos?
As origens curdas de Saladino pareciam importar relativamente pouco para os contemporâneos. A sua família ganhou destaque como grandes guerreiros e administradores a serviço dos governantes turcos de Alepo e de Damasco. Houve momentos de tensão étnica entre turcos e curdos durante a sua vida, mas na maioria das vezes os dois povos parecem ter trabalhado juntos de forma muito eficaz.

Como explica a vitória de Saladino sobre os cruzados? Foi resultado das suas aptidões militares ou também de fragilidades e divisões nas fileiras cristãs?
Saladino recuperou Jerusalém por vários motivos. Primeiro, aproveitou a popularidade crescente da jihad, guerra santa, para se concentrar em tomar a cidade sagrada para o Islão. Em segundo lugar, era extremamente bom em persuadir e pressionar as pessoas a juntarem-se a ele nessa luta e também em garantir que fossem recompensadas pelos seus esforços. Mas os erros dos cruzados foram uma grande contribuição para o sucesso de Saladino. Uma mistura de infortúnio - eram governados pelo rei Balduíno IV, um menino-rei afetado pela lepra, até 1185 - e lutas políticas surpreendentemente egocêntricas criaram as condições para Saladino explorar as fragilidades. A sua capacidade de unir o Médio Oriente muçulmano colocou tanta pressão sobre os cruzados que, no final, eles cometeram um terrível erro ao tentar marchar através de um planalto sem água, no auge do verão, e em julho de 1187 Saladino conseguiu esmagar as suas forças na Batalha de Hattin.

A conquista de Jerusalém em 1187, logo a seguir à Batalha de Hattin, foi o grande momento da vida de Saladino?
Sem dúvida! Foi para esse objetivo que ele trabalhou durante muitos anos e a tomada da cidade representou um grande triunfo para o Islão e para o próprio Saladino. Durante muitos anos teve de enfrentar críticas consideráveis em todo o Médio Oriente muçulmano por usurpar as terras do seu antigo patrono (um homem chamado Nur al-Din), mas quando entrou na cidade sagrada, podia - e fê-lo - alegar que Deus havia aprovado manifestamente as suas ações. Inscrições na mesquita de al-Aqsa descrevem a sua gratidão a Deus e mostram um sentimento particularmente pessoal de realização nessa sua vitória.


É possível ver ainda hoje na política do Oriente Médio um impacto das ações de Saladino?
Absolutamente. As ressonâncias de Saladino e das cruzadas são uma parte importante do tecido cultural, religioso e político da região. Em sentido estrito, é claro, as cruzadas medievais como guerras santas cristãs, autorizadas pelo Papa, há muito desapareceram, mas a memória das violentas invasões ocidentais perdura. Da mesma forma, as complexidades do período medieval, como Saladino lutando contra os seus companheiros muçulmanos ou os cruzados compartilhando terras periodicamente e fazendo alianças com alguns grupos muçulmanos, ou as boas relações pessoais entre indivíduos específicos, são fáceis de deixar de lado na busca por retórica simplista de dois lados opostos. No entanto, esses pontos, às vezes contraditórios, representam mais plenamente a realidade do que aconteceu. Deve-se notar, no entanto, que para os muçulmanos xiitas Saladino pode ser visto em termos muito negativos. Isso porque, ao assumir o controlo do Egito em 1171, ele afastou o seu califa e instalou o islamismo sunita, algo que não foi esquecido na comunidade xiita. Dito isso, em termos simples, para a maioria sunita Saladino é uma figura que uniu as pessoas pela sua fé, expulsou invasores e recuperou Jerusalém; em resumo, uma mistura muito poderosa, de facto. As suas características pessoais carismáticas são outro ponto importante; ele pode representar um modelo positivo e um símbolo de esperança além das manchetes feitas com a retórica de líderes políticos e religiosos. Por mais frágil que seja a confederação que ele montou, esse sentimento de unidade é algo a que muitos no Médio Oriente aspiram e a sua constante presença no drama, literatura, poesia, canções e filmes árabes atesta as muitas ressonâncias culturais que ele desencadeia.

Qual é para si, enquanto biógrafo, a qualidade mais importante deste homem?
Para mim, Saladino tinha muitas características admiráveis. Sim, ele foi um usurpador e um construtor de impérios, bem como um campeão da sua fé, mas a construção de impérios era omnipresente na região; todos estavam a tentar fazer isso, então por que é que isso deve ser visto de forma tão negativa? O seu ex-patrono tinha afastado governantes legítimos para construir a sua própria base de poder. Admiro a sua capacidade de se adaptar às situações; Saladino era bom a escolher pessoas para o servirem - tinha um grupo de administradores extremamente leais e talentosos, que, em termos modernos, eram propagandistas brilhantes, mestres das redes sociais medievais, o que significa exibição pública e interminável redação de cartas. Ele também foi auxiliado pela sua família leal - pense quantas vezes a própria família de um governante é a causa da rebelião - e grandes guerreiros. Aliás, eles também eram jogadores de polo obsessivos, a forma favorita de Saladino para relaxar, além de ouvir e aprender poesia. Lamentavelmente, sabemos pouco sobre a sua vida pessoal. Ele tinha 17 filhos (de várias mães) e era particularmente dedicado à esposa, escrevendo-lhe constantemente durante uma doença quase fatal; as suas irmãs também eram grandes patrocinadoras de instituições religiosas. Saladino era realmente piedoso, misericordioso (especialmente com as mulheres), justo e generoso; mas também era incrivelmente duro. Durante a maior parte dos últimos seis anos da sua vida, esteve frequentemente muito doente, com uma forma debilitante de cólica, o que significava que às vezes não conseguia lutar. Embora tenha esmagado os cruzados em Hattin, não estou convencido de que tenha sido o maior general da História. Ricardo, Coração de Leão, derrotou-o em várias ocasiões, mas o facto de que Saladino manteve o controlo sobre Jerusalém e os cruzados voltaram para casa é o que confirma o seu lugar na História.


leonidio.ferreira@dn.pt

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