Sacha Baron Cohen ou a arte do absurdo

O intérprete de Borat celebrizou-se através de um estilo em que a caricatura política se cruza com os "apanhados" televisivos: Sacha Baron Cohen é, afinal, um ator de invulgar versatilidade, igualmente competente na comédia e no drama.

Nas nomeações dos Óscares referentes à produção de 2020 (a anunciar na segunda-feira, dia 15), o nome do inglês Sacha Baron Cohen poderá surgir em duas categorias de interpretação: melhor ator em Borat: O Filme Seguinte (Prime Video), de Jason Woliner, e melhor ator secundário em Os 7 de Chicago (Netflix), de Aaron Sorkin. Com o primeiro desses filmes, já arrebatou um Globo de Ouro da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, na secção de musical ou comédia; o segundo valeu-lhe idêntica nomeação, mas não ganhou.

Obter duas nomeações no mesmo ano está longe de ser uma proeza impossível, ainda que pouco frequente na história dos prémios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Em 92 edições dos Óscares, aconteceu doze vezes, a última com Scarlett Johansson, nomeada por dois títulos de 2019, Marriage Story (atriz) e Jojo Rabbit (atriz secundária), sem ter ganho com qualquer deles. Uma coisa é certa: nunca ninguém foi distinguido no mesmo ano com dois Óscares de interpretação.


Segundo os analistas da indústria americana, nomeadamente no site Gold Derby - que recolhe e quantifica previsões de especialistas de todas as áreas para a temporada de prémios que culmina nos Óscares -, a interpretação em Os 7 de Chicago faz de Sacha Baron Cohen um concorrente especialmente forte na categoria de ator secundário: ocupa o segundo lugar no top de candidatos, tendo à sua frente Daniel Kaluuya, em Judas and the Black Messiah. O trabalho de Borat: O Filme Seguinte parece ter menos hipóteses, surgindo em 13º lugar numa lista liderada por Chadwick Boseman, em Ma Rainey: a Mãe do Blues.

São sinais de uma invulgar versatilidade de tom e estilo. Borat: o Filme Seguinte prolonga a primeira encarnação da personagem do repórter do Cazaquistão que visita os EUA (Borat, 2006), desta vez conseguindo que os delirantes disparates das suas "entrevistas" integrem figuras como Mike Pence e Rudy Giuliani. Dir-se-ia que Os 7 de Chicago funciona como contraponto dramático: Sacha Baron Cohen interpreta a personagem muito real de Abbie Hoffman (1936-1989), um dos ativistas políticos envolvidos nos protestos contra a guerra do Vietname durante a Convenção Nacional Democrata de 1968.


Na companhia de Madonna

Sacha Baron Cohen gosta de explicar as singularidades do seu registo cómico através da influência de Peter Sellers (1925-1980). E bastará evocar as composições de Sellers como Inspector Clouseau, nos filmes da série da "Pantera Cor de Rosa" (com direção desse mestre da comédia que foi Blake Edwards) para compreender tal influência: o humor não se esgota na mera acumulação de "gags", uma vez que envolve sempre a metódica criação de um ambiente em que o absurdo se impõe como regra "natural". Lidar com o absurdo em termos naturalistas, eis uma festiva contradição que talvez possa definir a arte de Sellers e, agora, o labor do seu herdeiro.

Nascido em 1971, em Londres, numa família de raízes judaicas, Sacha Baron Cohen teve uma formação especialmente ligada ao estudo da história do século XX, com particular ênfase na análise e desmontagem do antissemitismo. Artisticamente, para lá dos seus conhecimentos musicais (como violoncelista, chegou a participar num programa televisivo intitulado Fanfare for Young Musicians), estudou em França com Philippe Gaulier, professor de teatro, mestre da arte circense de ser palhaço.

Dir-se-ia que tudo isso confluiu na exuberância, desconcertante e sarcástica, de Ali G, personagem que lhe conferiu o estatuto de estrela. Surgiu em 1998, em The 11 O"Clock Show, programa do Channel 4. Verdadeiro estereótipo de uma cultura suburbana, nele confluem a pose irónica, as cores garridas do guarda-roupa e uma linguagem codificada, de elaborados ritmos sonoros, que remete tanto para um certo calão juvenil como para o universo do hip-hop. O sucesso de Ali G valeu-lhe o prémio revelação dos British Comedy Awards de 1999 e, mais do que isso, um programa televisivo em nome próprio: Da Ali G Show existiu no período 2000-2004, com um total de 18 episódios de meia hora difundidos no Channel 4 (Reino Unido) e na HBO (EUA).


A notoriedade de Ali G fez com que Sacha Baron Cohen, ou melhor, a sua personagem, conseguisse entrevistas com personalidades muito diversas, sem quebrar o registo caricatural, mais ou menos provocatório. Exemplo célebre, gravado em 2003, é o seu brevíssimo diálogo (um minuto!) com um homem de negócios, de seu nome Donald Trump, a quem Ali G tenta vender a ideia de umas luvas especiais para que as pessoas não sujem as mãos enquanto comem gelado... com a vantagem de conservarem as mãos quentes!

No domínio musical, Ali G teria a sua consagração como motorista de Madonna. Era essa a sua garrida personagem no teledisco de Music, canção-título do álbum que a Material Girl lançou no ano 2000. Algo relutante em relação à música da patroa, Ali G vai-se sentindo cada vez mais à vontade na deambulação urbana que o teledisco encena, ainda que protagonize alguns momentos de tensão à entrada de um clube de striptease... A certa altura, atreve-se mesmo a sugerir que ela, a quem chama "Maradona", poderá integrá-lo num próximo single, tirando partido das suas qualidades de "rapper" - e começa a entoar o refrão de Like a Virgin...

"Apanhados" & etc.

Da Ali G Show funcionou como plataforma de desenvolvimento de mais duas personagens emblemáticas: Borat, claro, e Brüno Gehard, austríaco, repórter gay do mundo da moda cuja atividade é tudo menos discreta. Em 2009, numa das suas derradeiras aparições, Brüno protagonizou uma cena exuberante dos MTV Movie Awards: surgiu do teto da sala, literalmente, vestido de anjo e "aterrou" em cima de Eminem (a descrição, convenhamos, peca por defeito... mas as imagens estão disponíveis no YouTube).


Para o melhor ou para o pior, Sacha Baron Cohen impôs-se como um ator cuja versatilidade se exprimiu, antes de tudo o mais, através do poder desconcertante dos seus "apanhados". No limite, o seu trabalho - tendo como bandeira a denúncia de muitos preconceitos enraizados na história coletiva, em particular contra judeus e homossexuais - promoveu também uma das mais discutíveis (e pouco discutidas) proezas desse registo de raiz televisiva: a celebração dos artifícios do espetáculo através da humilhação de algum incauto ser humano e, mais do que isso, a legitimação dessa humilhação.

O fenómeno prolongou-se no cinema com os dois títulos de Borat, mas também com filmes das outras personagens: Ali G (2002), de Mark Mylod, em Brüno (2009), de Larry Charles. O seu requintado gosto caricatural teria outra encarnação cinematográfica em O Ditador (2012), também sob a direção de Larry Charles, sátira política sobre o General Haffaz Aladeen, definido pela publicidade como líder de uma nação africana (fictícia) que abraçou a missão de "impedir que a democracia chegue ao país que ele oprime com tanto amor." A personagem tinha como inspiração muito direta a figura e, em particular, a iconografia do ditador líbio Muammar Gaddafi (falecido em 2011, alguns meses antes do lançamento do filme).



A série televisiva Who Is America? (sete episódios estreados no verão de 2018) ficou como uma das concretizações mais sintomáticas dessa colagem crítica à atualidade que Sacha Baron Cohen tão perversamente tem sabido explorar. Assumindo a personagem de Erran Morad, especialista de Israel em antiterrorismo, vai desmanchado, com evidente alegria, a postura de figuras como o ex-vice-presidente Dick Cheney ou Philip Van Cleave. Este último, defensor da posse de armas de fogo, participa mesmo, com surreal convicção, na apresentação do programa escolar "Kinderguardians", proposto por Morad - objetivo: a distribuição de armas a todos os cidadãos americanos, a partir dos três anos de idade...

Surpreendentemente ou não, ele é também o fabuloso ator dramático que, antes de Os 7 de Chicago, vimos em filmes como Sweeney Todd (2007), de Tim Burton, A Invenção de Hugo (2011), de Martin Scorsese, ou Os Miseráveis (2012), de Tom Hooper. Sem deixar de ser, entenda-se, uma personalidade genuinamente militante que arrisca pensar o seu trabalho artístico em termos políticos. Exemplo modelar de tal atitude é o artigo que publicou na revista Time ("Importa defender a democracia contra as conspirações", 8 outubro 2020), denunciando as mentiras difundidas por Trump e o modo como o "algoritmo" do Facebook tem servido de "megafone" a muitos inimigos da democracia.

Para promover o novo Borat, Sacha Baron Cohen utilizou o Twitter para publicar uma espantosa variação de uma capa da Time (com o título "It Me"), em que surge a tirar uma máscara de Trump, agradecendo a utilidade da sua "cabeça" como fonte de humor ao longo de quatro anos: "Thank you for giving me fantastic head for the last four years" - como isto não é um episódio dos "apanhados", o leitor fará o favor de encontrar a tradução mais adequada.

dnot@dn.pt

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