Doclisboa começa hoje e não ignora o ator que morreu só na rua

Guerra, de José Oliveira e Marta Ramos, é o filme com mais alarido desta 18.ª edição do renovado DocLisboa. Uma obra para deixar viva a memória de um ator que morreu sozinho na rua, José Lopes. Este primeiro andamento do festival dura até 1 de novembro.

Um DocLisboa em múltiplas fases e andamentos. Começa hoje o arranque desta edição de 2020, que só acaba para o ano. Um festival novinho em folha, não só no conceito e na direção, mas também num formato que renega a competição e aposta numa continuidade.

Joana Sousa e Miguel Ribeiro, os elementos da direção que sucede a Cíntia Gil (partiu para o Festival de Sheffield), dizem que forjaram esta edição ao som de Zé Mário Branco. Em vez de 11 dias, o DocLisboa fugiu para a frente e vai durar seis meses, com mais narrativas e debates. Será cada vez mais um espaço para discutir ideias, inquietações e limites.

Com estes cinco andamentos,, o festival vai perder força mediática e do ponto de vista de comunicação internacional, talvez caia num efeito de banalização, mesmo quando esses andamentos propõem formas de cinema diferentes, talvez se encontre uma nova via. É esperar e explorar... Seja como for, neste novo DocLisboa, o cinema e o ativismo social andam sempre de mãos dadas, quer seja em sessões presenciais ou digitalmente.

Hoje, o DocLisboa arranca com uma coprodução luso-brasileira em estreia mundial, Nheengatu - A Língua da Amazónia, de José Barahona, viagem à Amazónia para se pesquisar a força de uma língua que é sinal de resistência dos índios e memória convulsa da nossa colonização. Um documentário de um português que ficou bastante doente em plena selva mas que sobreviveu e tem agora um olhar sobre uma terra ameaçada neste Brasil presente. Filme com porte de odisseia, Nheengatu - A Língua da Amazónia é também uma possibilidade de repensar a pesquisa no cinema documental - Barahona e o seu esforço estrutural são também protagonistas de um processo que envolve a imagem de um telemóvel...

Mas o maior acontecimento do cinema português neste primeiro andamento do festival chama-se Guerra, de José Oliveira e Marta Ramos. Trata-se de uma ficção ancorada em José Lopes, ator recentemente encontrado morto tragicamente depois de ter começado a viver como sem-abrigo. Guerra é um ensaio realista sobre os cravos do trauma da Guerra Colonial a partir do pai de um professor de Português, um veterano que aos poucos é engolido pela experiência da guerra e dos seus fantasmas.

O que é mais impressionante neste objeto feito sem orçamento oficial e com a ajuda do nosso maior cineasta, Pedro Costa, é a forma como a ficção e a realidade se cruzam. A câmara de Marta e José documentam de forma impressionante a personagem e o ator a caminharem para um caminho de morte. Obviamente que talvez possa cair na ratoeira de muita da ficção do real, onde para termos algo forte e estimulante temos de estar à pesca de forma exasperante numa duração excessiva, mas esse abismo que é testemunhado pela câmara deixa qualquer um em pele de galinha, e aí o talento de José Lopes, já em visível degradação física, desafia convenções, não sendo por acaso que atores como Diogo Dória ou Luís Miguel Cintra tenham feito questão de contracenar com ele nesta literal despedida.

Esta estreia mundial decorre no próximo sábado na Culturgest, às 21.30. E se há filme que pede debate logo a seguir com o público é este. "O filme tem também tem um lado belo, porque se trata do testamento de um homem íntegro a chegar ao público", vai avisando o realizador José Oliveira. Guerra está já selecionado para festivais internacionais, nomeadamente BAFICI, na Argentina, e a Mostra de São Paulo, no Brasil.

Desta primeira das cinco partes do DocLisboa grande expectativa também para Kubrick por Kubrick, neste domingo na Culturgest, um telefilme de Gregory Monro baseado em material de entrevistas de Michel Ciment, o diretor da revista de cinema Positif. Um documentário na secção Sinais, o grande tema deste primeiro movimento do festival.

Em novembro, já a partir de dia 5, a sequela. Depois dos Sinais temos Deslocações, e aí o DocLisboa encher-se-á de cinema no feminino...

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