Quando o atentado do 11 de Setembro trocou as voltas aos 'gafanhotos'

O DN publica todos os dias o excerto de um livro recém lançado no mercado, para ajudar às leituras nestes tempos difíceis em casa. Em A Educação dos Gafanhotos, David Machado (Editora D. Quixote) relata a influência nos personagens de um dos piores momentos da história do século XXI. Veja os outros aqui.

O ar dentro do carro estava húmido e morno como uma sopa, irrespirável. Endireitei o assento: senti nas costas os nódulos de dor, tensos e duros, alguns antigos, vários novos. Nas últimas semanas tinha‑me habituado a despertar assim, dorido e transpirado, e começava a pensar que talvez pudesse fazê‑lo para sempre.

Passava pouco das seis. Encolhido no banco do passageiro ao meu lado, o Marco dormia. Saí do carro. A brisa fresca da manhã no rosto e nos pulmões foi como renascer. Estávamos num pequeno parque de estacionamento, cercados por uma densa vegetação tropical, em Palm Beach, cerca de quarenta quilómetros a norte de Miami. O nosso Ford Escort alugado era o único automóvel no parque. Diante de nós, erguia‑se uma moradia alta e de janelas redondas, em cujo alpendre repousava um lagarto de escamas verdes e amarelas e, ao lado, um trilho mal delineado que desaparecia entre as árvores. Ouvia ‑se o piar melódico das aves escondidas nos ramos, o murmúrio das ondas desfazendo ‑se na areia e vozes.

Percorri o trilho. Passei muito perto de três homens que estavam a construir uma espécie de anexo nas traseiras da moradia. Eles não me viram, embora eu não tivesse tentado esconder‑me ou caminhar sem fazer barulho. Como se fosse invisível.
É assim que começa, avisou o lagarto que me seguira, a alguma distância, por entre os troncos. É assim que te separas de tudo.

Eu quero separar ‑me de tudo, respondi sem parar de andar. Por isso aqui estou.

O trilho chegou ao fim: a manhã nascia sobre o mar, desvendando um céu de chumbo e a praia deserta. Um pelicano passou a voar, as asas amplas e direitas, rasando a superfície da água e desaparecendo no clarão do sol que despontava no horizonte. Às vezes lembro‑me desse momento. Ali, na costa Leste dos Estados Unidos da América, o dia começava; em Portugal era hora de almoço; na Ásia era de noite. Em todo o lado a vida acontecia. Mas eu não pensava nisso, eu queria esquecer‑me de tudo, eliminar o tempo e o espaço da equação que trazia talhada nas células e ser livre de verdade. Nessa manhã, isso aconteceu: por um instante, a minha história não existia, as pessoas da minha vida não existiam, o meu futuro não existia. Havia apenas os raios de sol a arder no mar e um cargueiro que navegava nessa incandescência, o cheiro adocicado das gardénias debruçadas sobre a areia atrás de mim, o ar morno na minha pele e o ruído das pequenas ondas a quebrarem‑se na areia. Nesse momento, eu ainda não sabia que depois daquele dia tudo seria diferente para sempre, que não haveria mais manhãs iguais àquela.

Voltei para o carro. O Marco ainda dormia. Sentei‑me ao volante e abri o mapa das estradas. O nosso plano para esse dia era conduzir para sul, até Key West, a última ilha das Keys. Quase setenta anos antes, Ernest Hemingway vivera nessa ilha, num casarão de dois pisos e varandas amplas que, entretanto, fora transformado em museu. Estávamos dispostos a guiar mais de quinhentos quilómetros só para entrar nesse casarão, sentir o soalho gemer debaixo dos pés, o rumor das árvores no jardim. Pelo caminho, faríamos uma paragem nos pântanos da reserva protegida dos Everglades para visitarmos as quintas de jacarés e crocodilos. Correndo tudo bem, na manhã seguinte acordaríamos numa praia semelhante àquela, doridos e suados e livres.

Memorizei os números das estradas que teríamos de tomar e liguei o carro. O Marco mexeu‑se sem chegar a acordar.
O carro tinha‑se tornado a nossa casa. As mochilas com roupa e a tenda estavam no porta ‑bagagens. No banco de trás, havia um colchão insuflável cor de laranja, cheio e coberto com as toalhas de praia, as mantas com o símbolo da British Airways que trouxéramos do avião, garrafas de água e coca‑cola, o repelente de mosquitos, bonés, ténis, t‑shirts, um Simba (do Rei Leão) em peluche e uma caixa de piza vazia. Havia colares de contas de plástico em várias cores pendurados no retrovisor e, no tabliê, uma pequena cabeça de crocodilo embalsamada, a bocarra aberta ostentando a fileira de dentes finos e pontiagudos, os olhos de vidro encarando‑nos ameaçadoramente. Descontando a questão do espaço, era exactamente como uma casa.

Liguei o rádio e procurei a estação de música clássica que tínhamos escutado nos últimos dias - estávamos cansados do hip‑hop, do rock, das entrevistas a estrelas de cinema, dos talk‑shows, dos concursos, da publicidade desenfreada a restaurantes de fast‑food. Começávamos a pensar nos outros Estados Unidos - os desertos e as montanhas, extensas florestas sem um único ser humano, as reservas de índios, os bares de blues e as pequenas cidades do Midwest onde nada acontece; os Estados Unidos de John Ford, Faulkner e Dylan. Nós que ríamos passar das auto‑estradas para as estradas nacionais. Conduzir até Key West passando pelos Everglades parecia claramente o início de uma nova etapa na viagem e, assim que na noite anterior decidimos fazê‑lo, futuros alternativos começaram a desenhar‑se na minha cabeça. Tínhamos bilhetes de avião para voltar a Portugal três dias depois, no entanto, a possibilidade de prolongarmos a viagem e ficarmos mais tempo, sem data de regresso definida, já havia sido discutida duas ou três vezes e não estava posta de parte. Pelo contrário: parecia cada vez mais real.

Entrámos na Interestadual 95. O trânsito matinal era compacto e lento. Dentro dos carros à nossa volta, milhares de pessoas dirigiam ‑se para os empregos e para as escolas, diligentes e comprometidas com o ideal americano. Nós seguíamos na mesma direcção e, contudo, os nossos destinos não poderiam ser mais distintos. Pouco tempo antes, eu também fora assim, orientando‑me pelo mesmo guião aborrecido pelo qual toda a gente regia a sua vida, sem questionar nada, uma normalidade convencionada, um logro cómodo para todos, porque tudo o que era diferente exigia um esforço que preferíamos evitar. Olhávamos o mundo através da mesma lente baça. Todos os nossos gestos eram repetidos - embora não soubéssemos explicar porquê. Éramos réplicas perfeitas uns dos outros, ovelhas num rebanho autónomo, sem necessidade de pastor, seguindo ‑se umas às outras. Eu tinha vinte e três anos: estava na altura de deixar o rebanho.

Quase uma hora depois, passámos ao largo de Fort Lauderdale, pouco antes de Miami. Eram oito da manhã e troquei de estação de rádio para ouvir as notícias. Havia um repórter a falar ininterruptamente com a sua voz grossa. Eu continuava a fabricar cenários alternativos para as semanas seguintes e, por um minuto ou dois, custou‑me encontrar uma ponta solta nas palavras do jornalista à qual me agarrar. Porém, mesmo quando por fim lhe prestei atenção, aquilo que estava a dizer pareceu ‑me bizarro.

- Ouve isto - comentei com o Marco. - Estão a dizer que um avião chocou contra uma das Torres Gémeas, em Nova Iorque.- Isso é treta - balbuciou, categórico, sem chegar a abrir os olhos.

Quase um mês antes, tínhamos estado lá em cima. Não pagámos o bilhete para subir até ao terraço panorâmico
- o nosso orçamento não nos permitia esse tipo de extravagâncias. Em vez disso, apanhámos dois elevadores até ao centésimo sétimo andar da torre norte do World Trade Center, onde ficava o restaurante Windows on the World. Eram dez da manhã, os empregados - quatro ou cinco tipos hispânicos - punham as mesas para o almoço e, assim que nos viram entrar, de calções e mochilas às costas, perceberam que não éramos clientes. Ainda assim, não nos impediram de atravessar o restaurante até às vidraças, nem disseram nada durante os vinte minutos que lá estivemos a olhar para o mundo inteiro com a testa encostada ao vidro.

- Daqui tudo parece mais fácil - tinha dito o Marco.

Era verdade: os carros tão pequeninos, as pessoas reduzidas a pontos minúsculos deslocando ‑se em todas as direcções, padrões de movimento que com certeza poderiam ser condensados num algoritmo qualquer, o quotidiano dos seres humanos calculado ao seu detalhe mais insignificante, os edifícios alinhados numa esquadria simples, o rio rematando a cidade e o silêncio em tudo. Vista dali, a vida era um jogo de peças de todos os tamanhos e feitios, possíveis de montar das formas mais elementares, um mecanismo que, desde que oleado e vigiado, funcionava.

- Daqui a vida funciona - corrigi.

Um dos empregados apareceu ao meu lado.

- Na minha primeira semana aqui, quase fui despedido por causa desta vista - exclamou num inglês cantado.

Tinha o cabelo muito preto penteado para trás com gel e um bigodinho tão fino que parecia riscado a lápis. Não devia ter mais de vinte anos.

- É a melhor cidade do mundo - disse o Marco, também em inglês, repetindo o que tínhamos ouvido a um canadiano com quem partilhávamos o quarto na pousada da juventude.

- Ámen - sussurrou o rapaz sem perceber o sarcasmo na tirada do Marco. Depois estendeu ‑me a mão e disse: - Miguel.

- David - apresentei‑me. - Este é o Marco.

Apertámos as mãos. Encostámos de novo a testa ao vidro da janela.

- Deve ser bom trabalhar aqui em cima - comentou o Marco.

- Não posso queixar ‑me. Os meus colegas não ligam à vista. Alguns nem gostam. Eu, sempre que tenho um minuto, venho até aqui, fico a olhar para isto tudo e é como se o coração me fosse falhar. Juro, tenho de bater no peito, assim, com força, para o coração voltar ao ritmo certo. E se o dia estiver limpo, Deus, podemos ver tão longe. Às vezes penso que sou capaz de ver Santo Domingo.

Ele atravessava o inglês com palavras e expressões em castelhano e eu pensei que podia ficar o dia inteiro a ouvi‑lo.

- És dominicano - disse o Marco.

- Ámen.

- É melhor aqui?

- Amigo, é sempre melhor na nossa terra. Eu não queria vir. Mas o meu irmão veio e depois a minha irmã veio e depois o meu outro irmão veio. Porque em Santo Domingo não há empregos e o nosso pai educou‑nos para termos orgulho no nosso trabalho. Lá, eu não era um homem completo. Por isso vim também. E agora estou aqui, na melhor cidade do mundo, e a minha vida é isto. Os meus irmãos estão aqui. A minha miúda está aqui. E em breve vou trazê‑la cá acima para ela poder ver tudo como Deus vê e, quando ela sentir o coração começar a parar e se afastar um pouco da janela para tomar fôlego, eu já vou estar de joelho no chão e com o anel pronto para lho enfiar no dedo.

- Ámen - disse o Marco.

Ao volante do Ford, a dois mil quilómetros de Nova Iorque, eu ouvi a notícia do avião que chocou contra o World Trade Center mas não pensei no Miguel e no seu plano romântico para pedir a namorada em casamento. A memória daquela manhã encontrava ‑se muito distante: muita coisa acontecera entretanto e aquele momento, lá em cima, quando olhámos para o Mundo e para a simplicidade da vida, já não era essencial. Eu estava a meio de um processo de introspecção, de análise, de ponderação, tentava pesar todas as variáveis, acreditando que tudo o que precisava para tomar a decisão mais lógica existia apenas dentro de mim. Eu queria ficar ali, daquele lado do oceano, mas a ideia metia‑me medo. Se o Marco ficasse, eu ficaria. Ou então regressávamos a Portugal, organizávamos as coisas com mais calma, juntávamos algum dinheiro e partíamos de novo - para os Estados Unidos ou para outro lugar qualquer. O Marco ainda não descartara por completo a hipótese de voltar para as vindimas da família no Alentejo. Mas eu sabia que aquilo não passava de uma desculpa, uma espécie de corda que o mantinha preso ao chão, impedindo ‑o de voar sem destino certo. Ele também tinha medo.

Procurei uma estação de música clássica e, durante meia hora, imaginei um cenário que nos ocorrera na véspera: conduzir para oeste e, uma vez no Texas, passar para o México. A ideia de percorrer o território da América do Sul formou‑se pela primeira vez na minha cabeça - e nunca mais se apagaria. Antes de sairmos dos Estados Unidos, teríamos de arranjar trabalho, ganhar algum dinheiro, comprar um carro em segunda mão. Parecia ‑me possível, fácil de concretizar. Mas eu queria ter o plano bem detalhado antes de voltar a falar dele ao Marco. Tinha horas de estrada pela frente para pensar em tudo e à noite, num bar qualquer em Key West, com um par de cervejas, conversaríamos. Ele aceitaria: se lhe apresentasse os argumentos certos, diria que sim. Nós pensávamos da mesma maneira - já tínhamos chegado até ali, bastaria continuar.

Deixámos Miami para trás, entrámos na Auto‑estrada 1 e o trânsito desanuviou. Mudei outra vez para a estação das notícias para saber mais sobre o acidente do avião. O repórter continuava a falar depressa, sem pausas, alarmado. Parecia estar a repetir‑se e durante uns minutos não compreendi nada. Depois ele disse «o segundo avião» e eu sacudi o Marco.

- Escuta. Chocou um avião com a outra torre.

O Marco endireitou‑se no banco. Esfregou a cara com as mãos.

- Outro? Não é possível.

Às vezes perguntam ‑me onde é que estava no dia 11 de Setembro de 2001. Eu estava na Flórida, tinha passado a noite no carro ao lado do meu amigo Marco e ia a caminho de Key West para visitar a casa do Hemingway, acreditando que em breve seria livre. Nenhuma dessas coisas veio a acontecer.

A Educação dos Gafanhotos

David Machado

Editora D. Quixote

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