Portugal e Luxemburgo. Da fuga da guerra à fuga da miséria: os fios que ligam os dois países

Já esteve patente na cidade do Luxemburgo e pode agora (e até setembro) ser vista na Cidadela de Cascais, a exposição "Portugal e Luxemburgo, países de esperança em tempos difíceis" recebe hoje a visita do grão-duque Henri.

Portugal e Luxemburgo, países de esperança em tempos difíceis". O nome da exposição que inaugurou na segunda-feira no palácio da Cidadela de Cascais e que hoje recebe a visita do grão-duque Henri diz quase tudo sobre a relação entre os dois países. Desde os dias em que Portugal serviu de refúgio aos judeus que escapavam da perseguição nazi durante a II Guerra Mundial - incluindo a família grão-ducal, ela própria ligada por sangue a Portugal - ou quando milhares de portugueses procuraram terras luxemburguesas nos anos 1960 para escapar à miséria e à ditadura.

"São dois países com características até curiosas de proximidade. São ambos pequenos, claro que falta a Portugal a parte económica - o Luxemburgo é um dos países mais ricos do mundo. Mas há semelhanças", explica Margarida Ramalho. Em conversa com o DN, a curadora da exposição recorda como esta foi inicialmente feita no Luxemburgo, a convite da Memoshoa e no âmbito da presidência luxemburguesa da International Holocaust Remembrance Alliance. " a Memoshoa convida-me a mim e à arquiteta Luísa Pacheco Marques, que tínhamos feito o museu de Vilar Formoso [Fronteiras da Paz - Memorial aos Refugiados e ao Cônsul Aristides Sousa Mendes]. A primeira ideia era que se repetisse o museu no Luxemburgo, o que era completamente impossível. Por isso pensámos numa exposição que de alguma forma pudesse ser interessante para os dois lados."

E depois de ter estado patente no Centre Culturel de Rencontre Abbaye de Neumünster, na cidade do Luxemburgo, está agora na Cidadela de Cascais até setembro.

Mas não se pense que ali só se vai falar de refugiados da II Guerra Mundial. "O meu co-comissário, Claude Marx teve essa belíssima ideia de referir não só a parte do acolhimento dos refugiados da guerra em 1940, mas também a ida dos portugueses para o Luxemburgo nos anos 60. Porque de alguma forma, eles também querem "cativar" a comunidade portuguesa, que hoje representa um terço da população estrangeira", explica Margarida Ramalho.

Quanto aos "países de esperança em tempos difíceis" do título, a curadora recorda que "durante a guerra Portugal era país de esperança para os luxemburgueses e para quem fugia. E o contrário depois nos anos 60 - e não só, continua a ser. Este ano teve o maior número de pessoas a emigrar para o Luxemburgo". Claro, admite, que são emigrações diferentes. Se nos anos 60 eram sobretudo "pessoas iletradas que procuravam fugir da miséria pura e dura ou do regime político", os novos emigrantes portugueses estão à procura dos salários atrativos do Luxemburgo: "São quase todos licenciados e vão para outro tipo de serviços, atraídos pelas instituições que existem no Luxemburgo. O que é curioso é que há muitos luso-luxemburgueses que vê dessa primeira geração do emigrante puro e duro e que hoje dá cartas no Luxemburgo". E dá um exemplo: Marc Godinho, um artista plástico que representou o Luxemburgo há dois anos na bienal de Veneza.

Ora esta exposição quis também dar atenção a esta parte da relação entre os dois países, colocando em destaque artistas e intelectuais luso-luxemburgueses. A última sala apresenta assim parte da instalação Memória Episodika do artistas plástico Edmond Oliveira, baseada na experiência de vida do pai, um dos primeiros emigrantes portugueses a chegar ao Luxemburgo. Aí podemos também ver as fotografias de Paulo Lobo, que refletem o impacto da presença portuguesa na paisagem luxemburguesa.

Desta experiência, Margarida Ramalho destaca ainda o facto de começar a haver uma comunidade luxemburguesa em Portugal. Sejam os que vêm atrás dos benefícios fiscais, os descendentes de portugueses que, já reformados, decidem regressar ao país das suas origens ou mesmo luxemburgueses que casam com portugueses ou portugueses e decidem mudar-se para cá. E dá o exemplo de um luxemburguês que abriu um restaurante na Ericeira ou outro que investiu num turismo rural no Alentejo. Ao todo umas três centenas de pessoas. "Como diz a Aline Schiltz, a adida cultural da embaixada do Luxemburgo, há uma ligação. Não é um cá e um lá - há uma mistura permanente entre o cá e o lá", refere a curadora.

Uma relação "real"

Um dos pontos em destaque nesta exposição é a caixa de luz com as fotografias de 80 dos 300 passageiros de um comboio de refugiados vindos do Luxemburgo que não foi autorizado a entrar em Vilar Formoso. "Temos uma grande caixa de luz com as caras dessas pessoas. E nunca estamos a falar de números. Estamos a falar de gente. De pessoas, de crianças, de mulheres, de velhos, de novos. Pessoas que tiveram uma cara, uma vida como nós. O que nos leva a pensar que nem sempre estamos seguros. Ou que nunca estamos seguros", sublinha Margarida Ramalho.

Mas se estes refugiados não entraram em Portugal, muitos outros conseguiram. Inclusive a grã duquesa Charlotte. "A grã-duquesa vem com a mãe, Maria Ana de Bragança, filha de D. Miguel, que nunca tinha vindo a Portugal. Vêm com vistos do Aristides de Sousa Mendes. Aliás elas e toda a sua comitiva, que eram para aí umas 70 pessoas."

Autorizada por Salazar a instalar-se em Portugal na condição de não falar de política, a grã-duquesa Charlotte viveu primeiro em Cascais e depois no Monte Estoril. "É daqui que ela depois vai a Londres fazer a primeira comunicação através da BBC para o Luxemburgo, explicando porque não regressa". Nessa altura o Luxemburgo estava nas mãos de um gauleiter, um governador provincial nazi que estava empenhado em fazer daquela a primeira região do Reich livre de judeus. Para Margarida Ramalho, "por muito que vejamos filmes e documentários, por muito que se leiam livros, parece que é sempre a primeira vez. Isto é de tal maneira sinistro e abjeto e incompreensível que não tem explicação."

Quanto à exposição, destaque ainda para a museografia da arquiteta Luísa Pacheco Marques que trabalhou a ideia de um Fio Vermelho que nos liga a todos ao longo das nossas vidas. "É um fio invisível. Em que vamos estabelecendo laços uns com os outros", explica Margarida Ramalho, sublinhando que esta é a parte mais tridimensional da exposição, que nos faz refletir sobre a nossa maneira de andar pelo mundo".

helena.r.tecedeiro@dn.pt

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