Policial alemão revisita memórias do nazismo

Com a estreia de "O Caso Collini", reencontramos um cinema alemão que não desiste de lidar com a herança da Segunda Guerra Mundial, quer no plano factual, quer em termos legais. Ou como o policial pode envolver uma revisitação crítica da história.

A estreia do filme alemão O Caso Collini, realizado por Marco Kreuzpaintner, vale, antes do mais, pelo seu carácter excepcional. De facto, em termos globais, a relação do mercado português com a produção recente da Alemanha tem sido irregular e instável, ainda que com exceções que importa sublinhar - recordo, por exemplo, o caso do admirável Nunca Deixes de Olhar, de Florian Henckel von Donnersmarck, que esteve na corrida para o Óscar de melhor filme estrangeiro de 2018.

O Caso Collini não possui a dimensão dramática nem a subtileza simbólica do filme de Donnersmarck (fresco histórico de várias décadas a partir da experiência singular de um pintor), mas não deixa de ser um objeto que, de modo inteligente e sóbrio, aposta numa revisitação das memórias do nazismo. A ação decorre mais de meio século depois do fim da Segunda Guerra Mundial, desencadeando-se a partir do crime de Fabrizio Collini (interpretado pelo veterano Franco Nero, há algum tempo ausente dos nossos ecrãs), um italiano que, logo na cena de abertura, mata um poderoso industrial alemão.

Vogamos, assim, no interior das convenções do drama de investigação policial que, a certa altura, se converte no tradicional "filme de tribunal". Em boa verdade, Collini funciona como pivot da narrativa, com o seu advogado de defesa, Caspar Leinen (Elyas M"Barek), a ocupar o lugar central. Duas nuances vão baralhar todos os dados da investigação: por um lado, a sua inexperiência vai levá-lo a descobrir, num misto de perplexidade e desencanto, alguns vícios processuais do sistema em que passou a trabalhar; por outro lado, a investigação do passado de Collini irá cruzar-se, de forma inesperada e perturbante, com as memórias de adolescência do próprio Leinen.

Ainda que evitando revelar demasiados pormenores da evolução da intriga, vale a pena referir que, no plano temático, O Caso Collini se aproxima de Labirinto de Mentiras (2014), produção alemã dirigida pelo italiano Giulio Ricciarelli. Embora em contextos diferentes - Labirinto de Mentiras situava-se em 1958, O Caso Collini acontece no começo do século XXI -, ambos os filmes questionam a herança nazi, não apenas através da memória compulsiva dos factos, mas também discutindo as ambivalências legais com que os protagonistas desses factos foram (ou não) julgados. Em resumo: para lá do conhecimento dos clássicos, vale a pena continuarmos atentos ao cinema alemão contemporâneo.

* * * [ Bom ]

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