Pessoa, Bruno Aleixo e Cardoso Pires - brevemente nas salas

Foram apresentados na 6.ª edição dos Encontros do Cinema Português alguns dos próximos filmes portugueses. Vamos ter mais um Bruno Aleixo, mas também aproximações a universos literários.

Mesmo com ausências de peso de produtoras como as de Paulo Branco, Pedro Borges ou Pandora da Cunha Telles, a edição de 2021 dos Encontros do Cinema Português reuniu numa sala da NOS mais de duas dezenas de novos projetos. Como sempre, este encontro promovido pelo ICA - Instituto do Audiovisual e Cinema e pela NOS Audiovisuais, juntou alguns exibidores e jornalistas, tendo havido também um debate sobre o estado do cinema português.

Em sistema de pitching e com a revelação das primeiras imagens, produtores, realizadores e atores foram apresentados a alguns dos projetos que veremos entre este final de ano e o próximo. Destaque óbvio para Não sou Nada, de Edgar Pêra, uma produção de Rodrigo Areias com um elenco que impressiona: Miguel Borges, Albano Jerónimo, Miguel Moreira e Victoria Guerra. Trata-se de um "thriller psicológico" todo ele passado no interior da cabeça de Fernando Pessoa e na qual os seus heterónimos disputam espaço. Parece o projeto mais ambicioso de Pêra, mas pelas primeiras imagens montadas especialmente para o evento percebe-se que o cineasta não faz concessões ao seu habitual estilo de sobreposição das imagens. Deverá, antes de chegar aos nossos ecrãs, ainda poder estrear num festival internacional de nomeada.

Nunca nada Aconteceu, de Gonçalo Galvão Teles, outro dos filmes com um elenco carregado de talento (de Beatriz Batarda ao falecido Filipe Duarte, passando por Rui Morrison e Alba Baptista), também teve as suas primeiras imagens. Uma história livremente inspirada no famoso caso do suicídio de jovens no Aqueduto das Águas Livres. Imagens que mostram um pudor na encenação de uma dor de uma família a desintegrar-se. Fica-se com a ideia de que o realizador de Gelo procura refletir sobre os fossos entre as gerações de pais e filhos. Ao DN contou que considera estes encontros de uma pertinência total: "Se alguma coisa aprendemos neste último ano e meio é que dificilmente isolados podemos ser alguma coisa daquilo que pretendemos. Estes encontros também são importantes para todos nós termos noção do que se está a fazer e o que está para ser lançado. E é tão preciso pensar em conjunto para os filmes terem melhor visibilidade e solidez!".

Mais surpreendente foi já ver imagens de uma das propostas de natal de 2022, O Natal do Bruno Aleixo, de João Moreira e Pedro Santo, sequela do sucesso de 2019, O Filme do Bruno Aleixo. Pelas imagens que Luís Urbano (produtor) e os realizadores trouxeram, a fórmula agora é outra: não há atores, apenas as personagens animadas deste herói da rádio e da net. Vamos ter um Bruno em coma em período de natal, em coma que pode ser psicológico, "tal como as gravidezes psicológicas", segundo avança Busto. Um conto de natal imaginado pela pobre criatura em coma que imagina cenários de Dickens no passado e no futuro. Um primeiro olhar que provocou gargalhadas.

A Ar de Filmes, produtora dos últimos filmes de João Botelho, apresentou O Bêbado, a primeira obra de André Marques, cineasta conhecido do circuito das curtas. Pelas primeiras imagens percebe-se que se trata de um drama-thriller onde um alcoólico de Setúbal tenta ajudar uma jovem vítima do tráfico de mulheres. Ficou à vista um filme de ambientes perturbadores e com um desencanto negro. Perfeito para festivais que acreditam na exposição das crónicas reais dos males do mundo... André Marques confessou que poderia estar algo nervoso nesta apresentação: "sim, mas por outro lado, desta vez, foi mais simpático - já tenho o filme rodado, das outras foi em modo de puro pitch. As imagens sinto que me defenderam e, ainda para mais, aqui não estamos a concorrer".

Do muito esperado Sombras Brancas, de Fernando Vendrell, olhar sobre a experiência de José Cardoso Pires no hospital aquando o seu AVC, foram mostrados excertos. Um projeto da produtora de Variações pensado para quem quer entrar no universo literário do escritor português. História em dois tempos, com um Cardoso Pires jovem e outro mais velho. Segundo o realizador, filmar durante o confinamento foi um desafio que acabou por perturbar as filmagens.

Surpresa foi também as primeiras imagens da nova produção de Tino Navarro, Revolta, de Tiago R. Santos, argumentista que agora se estreia na realização. Um casal recebe em tempos de covid dois amigos e a partir daí desencadeia-se uma "comédia com um cheirinho de distopia". O estreante cineasta assume que é um filme "palavroso": "trata-se de um reflexo e de um olhar sobre um tempo que vivemos, uma história urbana, contemporânea e provocadora. Enfim, uma sátira social disfarçada de drama intimista". Pode seriamente encontrar público, haja promoção que saiba rentabilizar a presença no elenco de Ricardo Pereira...

Do debate que procurava encontrar razões para os números baixos nas bilheteiras do nosso cinema (sobretudo pós-covid), pouco ou nada se acrescentou, tendo faltado talvez uma voz da imprensa especializada no painel. Rodrigo Areias foi ainda quem disse algumas das frases mais agitadoras: "Os apoios do Estado são inadequados, uma lástima, mas nunca foram tão bons. Hoje, ao contrário de há uns dez, vinte anos, há uma variedade e democratização evidente no nosso cinema". José Fragoso, da RTP, Ana Rocha de Sousa, cineasta, e o produtor João Gandarez, foram vozes em coro a defender que um dos problemas da quota de cinema português ser miserável passa pela fraca promoção dos filmes junto das pessoas. Os números bons de Listen foram dados como exemplo de um filme que chegou ao espaço mediático apenas pela força de ter vencido prémios em Veneza....

dnot@dn.pt

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