Os Óscares da bondade e da diversidade   

O tão badalado favoritismo de Nomadland e da sua realizadora, Chloé Zhao, confirmou-se no âmbito de uma cerimónia correta, previsível, necessariamente íntima e sem grande charme humorístico. Fez-se história mas nem se deu por isso.

Uma Glenn Close perdedora dançou twerk e Frances McDormand uivou para agradecer a estatueta de melhor filme. Foram quase só estes dois momentos que destoaram da compostura geral da 93.ª cerimónia dos Óscares, que começou com Regina King a entrar na estação ferroviária de Los Angeles, Union Station, em grande estilo, seguida pelas câmaras, para fazer uma breve introdução e entregar os prémios de melhor argumento - o primeiro deles, com brio feminista, atribuído à britânica Emerald Fennell, por Uma Miúda com Potencial (estreia desta quinta-feira). A King, atriz e realizadora, que inclusive tinha o seu filme Uma Noite em Miami... nomeado em três categorias, coube marcar o tom esperançoso da gala, lembrando a notícia recente do ex-polícia que foi considerado culpado da morte do afro-americano George Floyd.

Em matéria de discursos, porém, houve pouco para entusiasmar. Uma ou outra exceção. De Thomas Vinterberg, vencedor do Óscar de melhor filme internacional por Mais Uma Rodada (a chegar também nesta semana às salas), veio a primeira e mais comovente. O realizador dinamarquês dedicou o prémio à filha que morreu num acidente de autoestrada, poucos dias antes do início da rodagem, e sublinhou o sentido de celebração da vida que está na génese do próprio filme, uma espécie de conto alcoólico. "Ela deveria estar envolvida nisto, e se alguém ousar acreditar que ela está aqui, de alguma forma, será capaz de vê-la a bater palmas e a partilhar a alegria connosco. Acabámos por fazer este filme para ela - como o seu monumento." Bonito.

Mais adiante na noite, e numa onda completamente diferente, a sul-coreana Yuh-Jung Youn, que era a natural favorita ao Óscar de melhor atriz secundária pelo maravilhoso papel da avó de Minari, quebrou a sonolência da sala com um discurso doce e despido de solenidade, que se tornou a atração do Twitter. "Como sabem, sou da Coreia. E, na verdade, o meu nome é Yuh-Jung Youn. A maioria dos europeus chama-me Yo Yo, e alguns deles chamam-me You-jung, mas esta noite estão todos perdoados." A mulher que se tornou a primeira coreana a vencer a estatueta, e apenas a segunda atriz asiática (depois de Miyoshi Umeki, em 1957), fez questão de negar o sentimento de competitividade: "Como posso vencer Glenn Close?" E, no entanto, desta vez, seria questionável se a recordista de nomeações tivesse saído vitoriosa. Yuh-Jung Youn afirmou-se a "sortuda" entre as suas colegas, privilegiada por uma certa "hospitalidade americana", disse ainda a brincar, mas a verdade é que não houve aqui senão justiça luminosa.

Por sua vez, Chloé Zhao, a sino-americana que, depois de Kathryn Bigelow, se tornou a segunda realizadora galardoada pela Academia - e a primeira de ascendência asiática - fez história da maneira mais discreta possível. Não só pela simplicidade com que se apresentou, de tranças, sapatilhas e sem maquilhagem, mas por ter centrado o seu discurso numa cândida mensagem sobre a bondade que sempre encontrou nas pessoas que a inspiraram... Pronto, é sentido e legítimo, tendo em conta a índole humana de Nomadland. Mas talvez se justificasse uma chama mais viva.

Frances McDormand animou um bocado a cena em palco, com o seu uivo no final da aceitação do Óscar de melhor filme, enquanto produtora - voltaria ao microfone, muito brevemente e como se nada fosse, para agradecer a estatueta de melhor atriz, afirmando-se uma orgulhosa trabalhadora -, mas nem isso tornou o marco de Nomadland especial para lá do seu simbolismo absoluto.

Numa cerimónia em que não houve música a pressionar os discursos, quase todos sensaborões, em que o humor ficou à porta e a diversidade de galardoados foi quase uma fórmula matemática, entre negros, mulheres (duas asiáticas) e europeus, a modéstia a que o espetáculo foi obrigado pelo contexto de pandemia não encontrou soluções criativas. Tudo era muito previsível e tudo passou por uma correção à prova de bala, como se a Academia de Hollywood, de uma só vez, quisesse escrever direito pelas linhas de um ano torto (e dos vários anos tortos). A coisa fez-se com amor, sim, mas muita falta de paixão.

dnot@dn.pt

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