O som do silêncio

Sound of Metal é a coqueluche do momento nos EUA. Uma história de um baterista que repentinamente perde a audição, filmada pelo estreante Darius Marber. Está no streaming (Amazon Prime).

Os dramalhões ainda são o que eram? Quem entrar no mundo duríssimo de Sound of Metal pode ficar espantado com veleidade antissentimental desta abordagem: a história tinha tudo para ser um espalha lágrimas - um jovem baterista punk-rocker perde a audição e os seus sonhos e a sua vida ficam em xeque. Darius Marder prefere antes dar a volta ao relato do "coitadinho" e propõe uma experiência de rigor emocional.

Sound of Metal é acima de tudo um convite para entrarmos no mundo novo, o mundo do silêncio. Este baterista, de repente, tem de saber encontrar uma nova vocação, aprender a viver como surdo e descobrir a sua linguagem. O espectador que for com ele é cúmplice dessa mudança de vida, e é aí que o filme tem realmente o poder certo de nos afrontar. Desde o Festival de Toronto 2019 que são comuns os relatos de pessoas extremamente afetadas com o impacto desse choque.

Se no começo temos a vibração da música rock, a vertigem da potência sonora, o caos da vida boémia do baterista, depois surge o ruído do silêncio. Chega de forma abrupta e implacável. O som distante do aparelho, os feedbacks e os graves... A vida de Ruben tem de mudar radicalmente, primeiro num centro de aprendizagem de surdos, mais tarde lá fora, num mundo no qual os estímulos e a velocidade dos elementos são outros.

Darius Marder filma tudo como uma composição imagética que aplica uma sensação gutural no espectador, como se fosse possível ter uma reação física. E se é verdade que essa sensação de estar "lá" elucida a própria mise en scène do realizador, sentimos tudo mais na pele pela interpretação transcendental de Riz Ahmed, ator que consegue dar uma empatia forte a uma personagem à partida antipática. E, por esta altura, já se percebeu que este londrino de origens paquistanesas tem praticamente garantida a nomeação para o Óscar.

Mas as esperanças de Sound of Metal nas pretensões do jogo da temporada dos prémios não se esgotam no ator britânico, também Paul Raci pode ser nomeado como secundário no papel do guru do centro de aprendizagem de surdos. Um ator a representar com uma autoridade sufocante e uma humanidade que não se compra... Menos óbvia é a campanha em torno de Olivia Cooke como atriz secundária, apesar de uma interpretação sólida e irrepreensível, ela que já foi musa de Steven Spielberg em Ready Player One: Jogador 1.

A cereja no topo do bolo chega com o segmento francês, em especial quando entra em cena a personagem do pai da ex-namorada, neste caso um francês interpretado com enormíssima subtileza por Mathieu Amalric; é como se o filme se elevasse, afastando uma certa sensação a meio de encontrarmos dispositivos narrativos a mais e uma série de esquinas estruturais derivativas.

Ainda assim, importa sublinhar que o filme arroga a dimensão humana de nunca ser lamechas.
Ode à paz interior, a estreia de Darius Marder é um objeto singular e defensor praticante de um lugar que o cinema raramente chega: as trevas do silêncio.

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