O regresso dos filhos da droga

Chega neste sábado à HBO Portugal a minissérie alemã que revisita a experiência da famosa heroinómana Christiane Vera Felscherinow. Um olhar vivo e desencantado sobre a Berlim dos anos 1970, com feição contemporânea.

A história de Christiane F. correu o mundo com um título que se tornou símbolo de um certo imaginário desencantado da juventude. Publicado em 1978, Os Filhos da Droga é um testemunho fortíssimo de uma adolescente que aos 12 anos já fumava haxixe e aos 13 começava a prostituir-se para poder pagar a sua dose diária de heroína. Essa adolescente cresceu e, com os lucros do enorme sucesso literário que alcançou, não conseguiu manter-se afastada do vício. O relato da própria chegou 35 anos mais tarde, sob a forma de outro livro - A Minha Segunda Vida (2013) - e foi publicado em Portugal poucos dias depois da morte do brilhante ator Philip Seymour Hoffman, por overdose. Tinha 46 anos.

Lembrar esta sequência e ligação de eventos serve apenas para perceber que o fantasma das experiências de Christiane F., desde a narrativa original dos anos 1970, nunca deixou de estar presente no tal imaginário magoado da juventude. Passou ao grande ecrã logo em 1981, com a participação de David Bowie (o músico viveu em Berlim em 1976 e 1979, e foi num dos seus concertos que Christiane se injetou pela primeira vez com heroína), e a nova minissérie, We Children from Bahnhof Zoo, vem dar um outro fôlego ao retrato que dantes era só centrado na protagonista do bestseller. Por isso mesmo, desengane-se quem espera daqui uma adaptação fiel de Os Filhos da Droga. Os oito episódios que vão chegar à HBO Portugal, com produção da Amazon Prime, constroem-se a partir das vivências de um grupo de jovens, entre os quais se conta, claro, Christiane.

No primeiro desses episódios, alguém pergunta o que é que se sente depois de uma injeção de heroína. A resposta surge em jeito de fantasia natalícia: "É como estares lá fora ao frio gélido e, de repente, alguém envolver-te num cobertor quente. Simplesmente sabes que tudo vai ficar bem." A cena é particularmente bela e dolorosa, porque dá textura à imagem da árvore de Natal pintada na parede da sala onde três rapazes se entregam ao entorpecimento causado pela droga. Eles estão ali como um presépio desolado e coberto por uma luz onírica.

Há vários momentos deste género em We Children from Bahnhof Zoo, que dão conta do efeito narcótico através de um delírio visual. Mas em todos eles, por mais ou menos festivos que sejam, a sensação de sonho vem acompanhada de uma melancolia doce pela juventude em rota de colisão. Christiane, Stella, Benno, Michi, Babsi e Axel são seres com "sombra" desde o início, isto é, a partir do instante em que os seus destinos se cruzam na estação ferroviária Zoo. E a minissérie, competente e sofisticada como é, com recurso ao ziguezague temporal, explora o trajeto da decadência, dentro de contextos familiares problemáticos, sempre com um olho na alegria da amizade que une as personagens. Aliás, a abordagem tem qualquer coisa de energia musical, que muitas vezes funciona como uma moldura contemporânea para o retrato dos anos 1970-80. Os filhos da droga são aqui os corpos em fuga da realidade, que desaprenderam a dor do embate com o mundo físico. E Berlim uma recordação de cores vibrantes.

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