O melhor Tom Hanks dos últimos anos!

Quando os diálogos são muito mais importantes que as dinâmicas da ação e da peripécia. Assim é Finch, de Miguel Sapochnik, ficção-científica melodramática que está a fazer sensação na Apple TV +. Tom Hanks é fabuloso!

Um robô, um cão e um homem a morrer. Estamos na América destruída após um apocalipse ambiental e estes três tentam sobreviver numa viagem entre St. Louis e San Francisco. Não é o típico filme de ficção-científica mas tem aqui e ali o que já vimos em filmes com o mundo a acabar: supermercados destruídos, sobreviventes a matarem-se uns aos outros por comida em latas, etc. De I am Legend, de Francis Lawrence aos dois Um Lugar Silencioso, de John Krasinski, parece que já vimos isto algures... O que o torna num objeto novo é a força de um argumento que joga no poder dos diálogos, neste caso no carisma da personagem de Tom Hanks, um génio da tecnologia que consegue ir sobrevivendo após o apocalipse graças ao seu engenho. Mesmo sabendo que não tem muito tempo de vida devido às radiações que apanhou, é um homem que se dedica a criar um simpático ciborg chamado Jeff para que mais tarde este fique a cuidar do seu simpático cão. Simpatia a mais? Talvez, mas esta produção de Robert Zemeckis vai buscar o melhor de Cast Away - O Náufrago (2000) e cruza-o com uma pincelada de drama existencial onde o ser humano ensina à máquina as vicissitudes da matéria humana. Diálogo, diálogo e mais diálogo numa forma de road-movie que resulta e na qual se explora um conceito dos deveres da paternidade. Tudo assente num tom emotivo que é tão expansivo como recatado. Um caso de afetos simples e bem geridos por uma realização seguríssima do britânico Miguel Sapochnik e por um Tom Hanks ao nível dos grandes momentos. Toda a sua interpretação equilibra-se perante uma perenidade de "veterano", uma espécie de força interior clássica onde o peso da idade faz maravilhas, embora, ao mesmo tempo, a deterioração da doença é tratada com aquela sobriedade e dignidade que conhecíamos de Filadélfia, de Jonathan Demme. Pode-se mesmo dizer que depois de Um Amigo Extraordinário, de Marielle Heller (onde foi nomeado para o Óscar) e de Notícias do Mundo, o western adorável de Paul Greengrass, Hanks está de novo a atrair para si algum do melhor material de Hollywood.

Mesmo com essa tal pecha de não haver o elemento de "novidade", Finch é um dos casos mais recentes do cinema americano de ficção-científica que sabe praticar um cruzamento feliz entre humor e emoção, nunca caindo nas tentações de criar peripécia atrás de peripécia. É tudo muito simples, uma viagem para "nenhures", até mesmo com a canção Road to Nowhere, dos Talking Heads, a sublinhar o evidente. Claro que há a sombra da ameaça - o descuido do ciborg faz com que Finch, assim se chama a personagem de Hanks, tenha de fugir de perigosos sobreviventes, mas o argumento dispensa twists, prefere antes espelhar uma mensagem de alerta sobre a forma como estamos a destruir o clima do nosso planeta, uma mensagem que não dispensa nunca de uma maquilhagem de grande produção de Hollywood - os efeitos visuais que animam o ciborg são topo, topo de gama e aí há que aplaudir a voz e a captação de movimentos do ator Caled Landry Jones.

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