O mais internacional tenor português chega à Gulbenkian

Paulo Ferreira estreia-se nas temporadas da Gulbenkian como um dos quatro solistas vocais no "Requiem" de Giuseppe Verdi, hoje e amanhã, dirigido por Michel Corboz.

Leva dez anos de carreira e menos ainda de percurso internacional, mas já se vem afirmando no circuito muito competitivo dos tenores de ópera por essa Europa fora. No entanto, é raro ouvirmo-lo em Portugal. Paulo Ferreira canta hoje e amanhã na Gulbenkian, onde será o tenor solista no "Requiem" de Verdi: "Estou muito satisfeito por ter finalmente a minha estreia na Gulbenkian, e com uma obra que me é particularmente cara."

Na realidade, o tenor tem cantado a grande "missa dos mortos" verdiana com alguma regularidade, e foi com ela que se estreou, em maio último, na mítica Filarmonia de Berlim: "Uma obra estratosférica", assim a resume. "O que mais me fascina é a forma como, usando embora estruturas derivadas do seu universo musical [a ópera], Verdi consegue, sobre o texto latino tradicional da missa de exéquias, descrever com força e expressão únicas o sentido da vida e da morte, para nos dar um testemunho sublime que sempre impressionará e comoverá quem interpreta e quem ouve." Momento que mais o toca, enquanto tenor solista, "é a ária "Ingemisco": uma prece da qual perpassa um intenso arrependimento, esperança e anseio de redenção, e na qual Verdi pede ao tenor o uso de todos os seus recursos vocais e expressivos." Mas não resiste a destacar igualmente "o início da obra, com o tenor a dizer "Kyrie eleison", com música e palavras usadas de tal modo que conferem a esse trecho uma força emocional absolutamente extraordinária!"

Do seu batismo internacional, o mínimo que se pode dizer é que foi muito auspicioso: um concerto ao lado da soprano "superstar" Anna Netrebko e do tenor Erwin Schrott, em Colónia, no verão de 2011: "O que é incrível é que esse foi de facto o meu primeiro concerto fora do meu país, pelo que representou um momento absolutamente marcante", assegura. Uma oportunidade que classifica como "sem dúvida, uma bênção" e que o ajudou a concretizar "um sonho que nunca me tinha sido permitir realizar no meu país até então": o de fazer do canto lírico profissão. Daí que ainda hoje não tenha dúvidas de que esse concerto, há sete anos, "significou um impulso determinante para o ulterior desenrolar da minha carreira."

Talvez isso ajude a explicar que o seu primeiro papel importante numa ópera tenha sido logo o de Mario Cavaradossi, na "Tosca" de Puccini: "Sim, fi-lo no Teatro de Hof [norte da Baviera] e a crítica entusiástica que recebi pelo meu desempenho firmou o início da minha carreira internacional." Desde aí, explica, "o alargamento do meu repertório tem sido natural e tenho podido escolher e desenvolver os papéis mais adequados para mim e para a minha progressão de forma tranquila, inteligente e apropriada à evolução da minha voz." E a voz de que estamos a falar, no caso de Paulo Ferreira, é a de "um tenor lírico "spinto" [significa algo como "puxado" ou "esticado"]", isto é, "uma voz aguda e com o brilho da de um tenor lírico, mas com um timbre mais escuro e com um acréscimo de "peso" vocal tal, que lhe permite que a voz seja puxada para clímaxes dramáticos, sem com isso gerar tensão na emissão vocal." Um tipo de voz que explica por que razão Paulo faz tantos papéis verdianos e veristas: "É na realidade o tipo de voz que justamente se procura para a interpretação de papéis de tenor nas óperas [da maturidade] de Verdi e do período verista [corrente da ópera italiana do final do século XIX]!" Embora, esclarece-nos, "nem sempre o tipo de voz é determinante para se entregar um papel a determinado cantor", pois, considera, "a capacidade de interpretação e de movimentação cénica" são critérios igualmente importantes, além de um outro que não nos ocorreria talvez de imediato: "a aparência física, ligada a cânones de beleza, também se tornou importante mais recentemente", uma direção que se acentuou com "a tendência crescente para a transmissão direta em alta definição, um pouco por todo o mundo, de espetáculos de ópera em salas de cinema."

Dos quase 20 papéis que já ostenta no seu currículo, confessa que "o mais exigente é o de Don Alvaro", o protagonista masculino da ópera "La forza del destino", de Verdi. "Cada interpretação que faço dele exige uma grande preparação física prévia, seja pelo tempo que Don Alvaro está em palco, seja pela própria extensão do papel, seja ainda pela escrita vocal da personagem." Um papel que, confessa, "é sempre um desafio que encaro com enorme respeito." E o curioso, acrescenta, é que "continua a ser o papel para o qual sou mais requisitado, além de ser um dos meus prediletos."

Isso quererá dizer que Don Alvaro figura sempre entre as "quatro a seis produções diferentes de ópera" que Paulo Ferreira faz por ano, recordando o "pico" atingido na temporada 2016-17: "nesse ano participei em nove diferentes produções, em 11 países!"

Sobre atuações em Portugal ainda não há nada certo: "Os meus agentes estão em negociações para um projeto a decorrer em abril", mas o facto de ser ainda um "work in progress" impede-o de avançar mais pormenores. Certo, certo é que a sua ligação ao São Carlos resume-se, até ao momento, a um concerto ao lado de Elisabete Matos, por convite dela, no evento que marcou os 25 anos de carreira da soprano portuguesa, no verão de 2014, no Festival Ao Largo: "Com muita pena minha, ainda não surgiram perspetivas de futuras colaborações com o nosso teatro nacional de ópera..." Tem, porém, certeza de que "o momento chegará", pois "tudo tem o seu tempo", pelo que, diz, "estou tranquilo". Nota-se no seu discurso, contudo, sempre um grande desejo de se apresentar "naquele que é o meu país, junto do público português".

Mas no seu horizonte desenha-se um evento que promete ser marcante: a estreia como Otello, na ópera homónima de Verdi, um dos papéis máximos de qualquer tenor com voz para o afrontar. "Tudo indica que se irá confirmar [tanto assim que ele já "levanta o véu" no seu "site" oficial pois o contrato está a ser finalizado. A acontecer de facto, será, como é evidente, motivo de grande felicidade e orgulho."

Aqui na conhecida ária "Nessun dorma", de Puccini

"Requiem" de Giuseppe Verdi

Solistas, Coro e Orquestra Gulbenkian

Direção: Michel Corboz

Grande Auditório Gulbenkian

hoje, às 21.00; amanhã, às 19.00

bilhetes entre 20€ e 40€

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