O Karate Kid regressou. E trouxe com ele a nostalgia dos anos oitenta

A série Cobra Kai traz de volta os mesmo atores e dá continuação à história de um dos filmes de maior sucesso da década de 1980: Karate Kid - Momento da Verdade. Desde a semana passada no top das visualizações Netflix trouxe a nostalgia dos anos oitenta aos "quarentões".

O primeiro filme do universo Karate Kid - Momento da Verdade estreou em 1984. Agora, quase quarenta anos depois a maioria das personagens e os mesmos atores, sim os mesmos, estão de volta na série Cobra Kai que tem estado entre as preferidas dos portugueses serviço de streaming da Netflix.

Em boa verdade Cobra Kai já existe há dois anos no serviço de streaming do You Tube Premium, mas só agora com a chegada ao Netflix o sucesso parece estar a ser massificado.

E não é novidade que a Netflix explora como ninguém o filão da nostalgia pelos anos oitenta. Um dos seus maiores sucessos de originais é Stranger Things, que já é considerada uma série de culto e que em breve, tanto o quanto a pandemia do covid-19 deixar, irá estrear a quarta temporada.

Stranger Things, que conta no elenco com Winona Ryder num dos principais papéis e que deu a conhecer a atriz adolescente Millie Bobby Brown, é passado nos anos oitenta e tem inúmeras referências cinematográficas aos filmes e séries que por essa altura estrearam e tiveram sucesso (Goonies, Twilight Zone ou mesmo E.T.). Se os espetadores deliraram com esse regresso ao passado, vão ter constantes sensações de deja vú com Cobra Kai.

A ação da série passa-se numa atualidade ainda sem sinais da pandemia. Daniel LaRusso (Ralph Macchio) é um homem feliz, casado, pai de família e bem-sucedido no seu negócio de venda de automóveis de luxo - mais ou menos modelo do sonho americano. Por sua vez, o seu rival de 1984, o loiro Johnny Lawrence (William Zabka) trabalha a fazer biscates na construção civil, é divorciado e tem um relação muito difícil com o filho. O enredo da série deixa intuir que todo este caminho menos fácil de Lawrence poderá ter sido traçado pelo do pontapé que ficou para a história imposto por LaRusso no final do filme de 1984, o tal "momento da verdade". E a rivalidade entre ambos, embora mais desvanecida, continua.

E o melhor que vai acontecendo na série são mesmo todas as referências aos anos oitenta que leva os espetadores "quarentões" a visualizarem episódio atrás de episódio - aconteceu com o autor deste texto. Além disso, é o retornar a ver caras conhecidas, agora mais velhas, tal como nós.

O elenco é composto por quase todos os atores importantes do primeiro filmes - faltam Pat Morita, o Sr. Miyagi, falecido em 2005, e a atriz Elisabeth Sue que pelo menos nas duas primeiras temporadas de Cobra Kai não dá sinais de vida.
Estão lá a mãe de Daniel LaRusso, Lucille LaRusso (Randee Keller) e também, desculpem o spoiler, o professor de karaté sem escrúpulos John Kreese (Martin Kove), o fundador do Cobra Kai e do lema: "atacar primeiro, atacar com força, sem piedade!".

Não querendo revelar muito mais sobre a história dos 20 episódios, onde continuamente se revivem alguns episódios, cenas e gestos do primeiro filme (lembram-se do wax on, wax off?) não é difícil descortinar que ação continua no vale de Los Angeles em redor da rivalidade entre LaRusso e Lawrence, que decidem passar a ensinar artes marciais a uma nova geração de alunos.

O mais interessante é que em 1984 os espetadores estavam, sem pestanejar, ao lado de LaRusso e do Sr. Miyagi. Passadas estas décadas não é bem assim. Agora a preferência deambula entre as duas personagens. E damos por nós a pensar em que espécie de adultos nos tornámos? Uns "chatos" com sucesso como LaRusso ou descontraídos e aventureiros como o loiro Lawrence. Ou um misto dos dois?

A surpresa da série, pode dizer-se, é a interpretação de William Zabka, no papel de Johny Lawrence, que quase deixa transparecer o porquê de Ralph Macchio nunca ter tido grande sucesso em Hollywood depois dos filmes Karate Kid. Apesar dos clichés e tiques exacerbados da personagem - desconhece o que é o Facebook e só escuta hard rock antigo (o que não é mau de todo) - passa a ser a figura principal das duas temporadas de Cobra Kai. E ainda bem.


Há que recordar que Karate Kid teve mais três filmes além do original de 1984. A segunda parte em 1986 e a parte 3 em 1989 com mesmo protagonistas principais: Pat Morita, Ralph Macchio e William Zabka, só nos dois primeiros. E em 1994 com a então estreante Hilary Swank no papel de "nova" Karate Kid, a acompanhar, já a solo, o Sr. Miyagi, perdão, Pat Morita.

Mais recentemente, em 2010, estreou uma nova versão de Karate Kid. Passada na China e com Jackie Chan e Jaden Smith (filho do ator Will Smith) nos papéis principais. O filme não foi muito bem recebido pelos puristas ainda com Macchio e Morita, e, claro, Elisabeth Sue no coração.

Mas quem escreveu Cobra Kai não pensou apenas nos tais "quarentões" e na nostalgia que a década de 1980 consegue imprimir. Com uma banda sonora que recupera os tais clássicos de rock e alguns sintetizadores omnipresentes nessa década, entrelaçada em momentos com música pop contemporânea, vemos os dois protagonistas passarem o testemunho às gerações mais novas, quer na história, quer na conquista da audiência.

Se na primeira temporada (10 episódios) as cenas dos primeiros filmes de Karate Kid são constantes - o que ajuda a dar alguma consistência ao guião -, a história de Cobra Kai vai passando o testemunho aos mais novos. São agora os filhos, filhas e amigos dos rivais LaRusso e Lawrence que aos poucos tomam conta do ecrã e criam novas rivalidades.

Aliás, metade da segunda temporada é mesmo dos adolescentes Nota-se que os guionistas estão mais interessados em conquistar uma nova audiência e Cobra Kai passa quase a ser igual, ou pior, a tantas outras séries passadas nos liceus cheios de cacifos da Califórnia.

Cá por casa, funcionou. Enquanto os mais novos ficaram entusiasmados e impacientes com a já anunciada terceira série, o "quarentão" voltou aos anos oitenta: perdeu interesse em Cobra Kai e foi ver o filme original.

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