O estafermo viscoso que há em mim  

Tom Hardy regressa ao papel do jornalista hospedeiro de um parasita extraterrestre. Mais viscoso do que o filme anterior, Venom: Tempo de Carnificina, de Andy Serkis, é uma demonstração de efeitos especiais sem cérebro.

Por trás de uma sequela há sempre um primeiro filme que alcançou algum nível respeitável de sucesso. Venom: Let There Be Carnage só existe porque o Venom (2018) de Ruben Fleischer, ainda que desprezado pela intelligentsia, atingiu uma receita mundial bastante generosa (cerca de 850 milhões de dólares), e para além disso conseguiu acenar à possibilidade de uma comédia slapstick dentro do conceito dos filmes de super-heróis, expondo as peripécias de um corpo humano a ser invadido por um simbionte alienígena - no universo Marvel, Venom é a némesis do Homem-Aranha, mas também o anti-herói que vive em fusão biológica com um tipo porreiro chamado Eddie Brock (Tom Hardy).

Neste segundo filme, com o título ilustrativo Venom: Tempo de Carnificina, o slapstick foi levado ao ponto do exagero mais idiota, com uma dose de efeitos visuais que torna irrelevante qualquer ideia de perigo. Tudo se destrói aos olhos do espectador como se uma criança carregasse ansiosa e inadvertidamente nos botões de um comando de Playstation. Uma criança que dá pelo nome de Andy Serkis, realizador aqui substituto de Fleischer e cujo percurso, desde logo como ator, reflete a sua apologia da absoluta performance digital (recorde-se que é ele o intérprete da criatura Gollum em O Senhor dos Anéis e do primata Ceasar de Planeta dos Macacos). Assim, estamos perante um cenário cuja existência depende de agitação quase permanente. E, nesse aspeto, não deixa de causar perplexidade que Serkis seja incapaz de aguentar a duração normal de um plano, fazendo da câmara uma ferramenta elástica sem propósito algum de "dar a ver", mas antes provocar atordoamento na retina.

No meio dos borrões digitais, que proporcionam alguma da comédia involuntária de Venom: Tempo de Carnificina, há uma história não menos apalermada que deverá conduzir à batalha de titãs da praxe. Uma intriga vazia e funcional que se divide entre o malvado vilão de Woody Harrelson, Cletus Kasady, que acaba por tocar sem querer na substância viscosa de Venom gerando um monstro mais poderoso e destrutivo, e os problemas de coabitação do jornalista de Tom Hardy com esse parasita gelatinoso e impaciente por devorar cérebros, cansado que está da sua dieta imposta de chocolates e galinhas...

O desleixo do argumento e os diálogos com baixo QI tornam o romance fraterno destes dois numa fórmula falhada, que tenta aqui e ali promover uma leitura emocional interessante, mas quase sempre de forma inepta. Serkis limita-se a "filmar" uma relação disfuncional insuportável que consiste em partir coisas porque sim: pode ser o teto (sem incómodo dos vizinhos) ou qualquer objeto no raio de visão, atirando-se outros pela janela, como se na fúria redundante estivesse o ganho. Resta saber se há adolescentes para quem esta linguagem ultra adolescente faz sentido.

À mercê do bicho, do vilão e de um festival de nhanha, Hardy - que também tem culpas no cartório porque deu um contributo na escrita do argumento - não fica com muito para fazer além de exibir um corpo exausto, à espera que a desbunda de hora e meia acabe.

dnot@dn.pt

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