O Estado contra o curandeiro

Com Charlatão, a cineasta polaca Agnieszka Holland recorda uma personagem verídica cujas práticas medicinais foram reprimidas pelas autoridades estatais.

Coincidência interessante: a exibição simultânea de Caros Camaradas!, de Andrei Konchalovsky, estreado a semana passada, e agora Charlatão, de Agnieszka Holland. São filmes de autores que viveram o chamado "socialismo real" dos países de Leste - Konchalovsky é russo, tem 83 anos; Holland é polaca, 72 anos -, refletindo no seu trabalho os fantasmas e tragédias de um sistema em que o Estado atua como detentor de uma "razão" universal, unívoca e compulsiva.

O caso de Charlatão é tanto mais curioso quanto coloca em cena Jan Mikolasek (personagem verídica, embora "romanceada" no seu tratamento fílmico) que, na década de 1950, na Checoslováquia, ganhou fama como curandeiro: através de diagnósticos resultantes da observação (em contraluz...) de amostras de urina dos seus pacientes, associados a um sofisticado conhecimento dos poderes curativos de algumas ervas, tornou-se um verdadeiro mito popular, acabando por suscitar a investigação das autoridades.

O filme não é exatamente sobre as dúvidas científicas que a prática de Mikolasek não pode deixar de suscitar. O que mais interessa Holland é a ação das forças policiais que veem no curandeiro uma ameaça ao agressivo racionalismo do Estado e das suas estruturas.

Não por acaso, em várias cenas cuidadosamente orquestradas, o filme sublinha as singularidades da "crença" que faz mover Mikolasek: a dedicação ao tratamento dos seus semelhantes não pode ser dissociada da vibração religiosa e, mais do que isso, mística com que encara o sofrimento humano. Aliás, tal misticismo existe em paralelo com uma homossexualidade oculta que, importa lembrar, era punida como crime no contexto em que decorre a ação.

O filme recorre a um ziguezague temporal (com vários flashbacks a recordar o tempo da guerra) que, no seu esquematismo narrativo, limita a energia dos resultados. Seja como for, Holland consegue colocar em cena essa tensão perturbante entre a verdade dos corpos, íntima e misteriosa, e os ditames de uma lógica ditatorial, conferindo a Charlatão a dimensão de uma genuína visão política.

dnot@dn.pt

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