O escultor que nos devolveu a liberdade da forma

Não temia polémicas embora não as procurasse gratuitamente. João Cutileiro morreu esta terça-feira, em Lisboa, aos 83 anos, cedo percebeu que as artes plásticas, e a escultura em particular, têm uma capacidade de subversão semelhante à palavra.

Em 1997, a inauguração do seu monumento ao 25 de Abril, no topo do parque Eduardo VII, em Lisboa, inspirou, mais do que escândalo, uma certa verve brejeira. Embora sempre tenha negado a intenção fálica que muitos atribuíam à peça, o escultor João Cutileiro nunca se preocupou demasiado com este tipo de análises ao seu trabalho já que desde cedo rompera com os cânones estéticos do Estado Novo, tendo bem clara a consciência de que a forma pode ser tão subversiva como um poema de intervenção.

Nascido a 26 de junho de 1937, em Lisboa, numa família de forte pendor antifascista, João Pires Cutileiro, como o irmão mais velho (José, diplomata, falecido aos 85 anos, em maio do ano passado), beneficiou desde muito cedo do contacto com artistas e intelectuais que frequentavam a casa dos pais como Celestino da Costa, Abel Manta, Avelino Cunhal (pai de Álvaro), Fernando Lopes-Graça ou António Pedro. Seria, aliás, no atelier deste autêntico "homem do Renascimento", tal era a sua versatilidade (foi ator, escritor e artista plástico) que João começaria a praticar Desenho e se familiarizaria com essa gramática do subversivo que foi o Surrealismo. Tomou-lhe o gosto. Entre 1949 frequentou o estúdio do pintor e ceramista Jorge Barradas, onde aprendeu a modelar, pintar e executar vidrado de cerâmica, passando depois para o atelier de António Duarte, onde trabalhou dois anos como assistente de canteiro, decidido que estava a fazer da Escultura a sua arte. Aos 14 anos, realizaria, em Reguengos de Monsaraz, a sua primeira exposição individual composta por peças de escultura, cerâmica, aguarelas e pinturas. A par do artista, nascia o combatente pela Democracia. Nesses anos da adolescência ingressa no Movimento de Unidade Democrática (MUD), organização política de oposição à ditadura salazarista, e mais tarde no PCP, de onde sairia após alguns anos de militância.

Mas se a política não foi o seu destino, nem por isso desistiu de combater o regime através da subversão artística. Aluno da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa e de Leopoldo de Almeida (autor das principais obras de estatuária, nomeadamente histórica, erguidas durante o Estado Novo e pai da artista Helena Almeida), compreende que tanto academismo não lhe serve e sai do país. Em Londres, tendo como condiscípula Paula Rego, frequenta a Slade School entre 1955 e 1959, destacando-se na sua formação o escultor britânico Reg Butler, considerado ainda hoje um nome de referência nas artes plásticas do pós-guerra. Ainda no Reino Unido, Cutileiro foi selecionado para a I Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, em 1957, e expôs duas vezes na galeria Young Contemporaries, em Londres (1957 e 1959).

O regresso na "primavera" marcelista

Regressou a Portugal em 1970 (já em plena "primavera" marcelista) e não tardou a agitar as águas ainda estagnadas da arte pública e da sua leitura pelo cidadão. Em 1973, a sua estátua de Dom Sebastião erguida na cidade onde então residia, Lagos, dá que falar com a sua cabeça claramente macrocéfala e rosto infantil. Aos que estranhavam o contraste entre esta obra e a estatuária histórica do regime, claramente enaltecedora das virtudes guerreiras e viris de monarcas e navegadores, opunham-se vozes como a do historiador de arte e crítico José-Augusto França que, logo em 1973, escrevia na revista Colóquio Artes (editada pela Fundação Gulbenkian) esta nota: "notável obra de estatuária contemporânea que vem quebrar uma triste tradição do academismo modernizado português." E acrescentava: "Lagos pode estar orgulhoso de ter uma das melhores estátuas de Portugal - e a mais moderna de todas."

Esta visão menos apologética da História de Portugal seria, aliás, uma das constantes da obra de João Cutileiro, levando-o a criar o seu "Camões aborrecido a um canto", em que o poeta aparece de braços cruzados, em postura muito pouco épica. Na mesma linha de pensamento podemos ver em Oeiras, no Parque dos Poetas, o seu Almeida Garrett, muito pouco consentâneo com a imagem de dandy do Chiado que temos do autor de Viagens na Minha Terra ou o seu Marquês de Pombal, todo ele cabeleira, em Vila Real de Santo António.

Dimensão internacional

Após o 25 de Abril, Cutileiro prossegue uma carreira com dimensão internacional. Em 1976, as suas esculturas e mosaicos foram expostos na Unikat-Galerie, em Wuppertal, na Alemanha, seguindo-se exposições na Royal Academy of Arts, em Londres, e no Museu de Lagos (1978), na XV Bienal Internacional de São Paulo, Brasil (1979), em Évora (1979 e 1981), entre outros eventos. Em 1985, Cutileiro mudou-se para Évora, onde deixou exposta, na sua própria casa, boa parte de uma obra multifacetada, em que, para além do mármore, também trabalhou materiais como o cimento fundido, o bronze, o ferro soldado ou o gesso. Em Évora, aliás, já criara, em 1981, em colaboração com o Ar.Co - Centro de Arte e Comunicação Visual, o I Simpósio Internacional de Escultura em Pedra, reunindo um grupo de artistas como Sergi Aguilar, Andrea Cascella, Minoru Niizuma, Syoho Kitagawa e Pierre Szekely, e um conjunto de jovens escultores portugueses em que se destacavam Rui Anahory, Brígida Arez, José Pedro Croft, Amaral da Cunha, Pedro Fazenda, Luísa Periennes, Pedro Ramos, Manuel Rosa e António Campos Rosado. A subversão implícita que é toda a sua obra passou também pela erotização das formas, nomeadamente da representação do feminino. Criado numa tradição académica que, em conformidade com as políticas de corpo da ditadura, sublimava qualquer elemento sexuado, o escultor quebrou, uma vez mais, as regras, como se pode ver em obras de caráter público como o seu Lago das Tágides, no Parque das Nações, em Lisboa, ou nas peças reunidas no livro Lorelei, com fotografias de Gérard Castello Lopes e textos de Miguel Esteves Cardoso (ed. Porto Editora, 1989).

João Cutileiro foi condecorado como Oficial da Ordem de Sant"Iago da Espada, em 1983. Receberia ainda o doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Évora e da Universidade Nova de Lisboa e a medalha de Mérito Cultural, atribuída pelo Ministério da Cultura em 2018. Na sua casa-atelier de Évora estão mais de 900 obras que o artista doou ao Estado português.

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