Sangue de Portugal. A luta de D. Pedro e D. Miguel inspirou um romance

Um país falido e dividido entre os irmãos D. Pedro e D. Miguel é o cenário do romance histórico de António da Costa Neves, Sangue de Portugal. Uma guerra civil de seis anos que dividiu os portugueses como nunca.

As 500 páginas do romance Sangue de Portugal até poderão ser poucas para descrever o conflito da nossa história que mais dividiu os portugueses até grande parte do século XX. Hoje, serão suficientes para relatar o conflito, esbatidas as preferências entre os "manos" D. Pedro e D. Miguel por parte de uma população - e de leitores - que continua a desconhecer a maior parte dos factos que aconteceram nos seis anos de guerra civil que começou em 1828. Principalmente se a narrativa for interessante, respaldada em bons diálogos, ação militar e de milícias populares e intriga política, num cenário de época em que a pobreza, a estrutura administrativa quase nula e o adiamento do regresso à vida normal são confrangedoras.

Para o autor, António da Costa Neves, colocar um conflito desta dimensão num romance é o "trabalho do escritor". Considera que "tudo passa pelas escolhas porque é impossível contar tudo". Dá o exemplo de Luz Soriano que "escreveu a sua História da Guerra Civil em 7 livros e 9 tomos e, decerto, terá deixado muito de fora". Por essa razão, acrescenta, há que "selecionar os acontecimentos mais relevantes e fazer deles pontos essenciais da trama romanesca".

Dada a dimensão dos acontecimentos, Costa Neves refere que se viu "obrigado a criar um núcleo alargado de protagonistas de modo a poder estar presente onde o essencial ocorreu". Garante que estão todos no livro: "o momento da usurpação, a revolta do Porto, a Belfastada, a fuga para a Galiza, o barracão de Plymouth, o desembarque frustrado de Saldanha nos Açores, o exílio parisiense de muitos prófugos, a regência dos Açores, o desembarque em Papelido, o cerco do Porto, a libertação do Algarve, as batalhas da Cova da Piedade, Amarante, Almoster e Asseiceira e, finalmente, Évora Monte; mas também os julgamentos das Alçadas, os prisioneiros do Estado da Torre de São Julião da Barra, os bandos de caceteiros, o incêndio dos armazéns da Companhia, os jornais, os pasquins e as polémicas, as divisões entre palmelistas e saldanhistas e as caturrices de Mouzinho da Silveira..."

Confessa no posfácio que lhe deram o romance Guerra e Paz para se inspirar para este romance histórico. De que lhe valeu Tolstoi?

Como deixo no meu posfácio, Guerra e Paz é um grande romance, mas escrito sob o ponto de vista de uma classe superior, a aristocracia, a que Tolstói, sem dúvida, pertencia. Por outro lado, Tolstói foi oficial do Czar e, por isso, foi participante e testemunha privilegiada dos acontecimentos sobre os quais reelabora; por vezes, mais interessado em construir teses na tentativa de desacreditar outros autores que escreveram sobre o mesmo tema. Não é, pois, um autor independente, ele viveu de tal modo tão intensamente o que nos relata - ao fim e ao cabo, a invasão da Rússia e a saga da sua própria família - que, do meu ponto de vista, não pode ser um exemplo para ninguém. No entanto, as descrições que faz das batalhas, com enfoque especial na batalha de Borodino, que prenuncia a derrota de Napoleão, são exemplares e difíceis de igualar. Uma particularidade em que me revejo é na caracterização das personagens, cuja sobriedade e essencialidade apenas com o tempo vão ganhando espessura. Também as ações humanas e as variações dos sentimentos das personagens, muitas vezes expressas de forma crua e inesperada, podem ferir a lógica e a razão, mas são expressão de um livre arbítrio para o qual Tolstoi ou não encontra explicação ou pura e simplesmente considera uma fatalidade. E isto também me agrada.

A "nossa" guerra tinha os melhores ingredientes: a luta entre irmãos. É o grande argumento?

Sinceramente, acho a tese dos irmãos inimigos absolutamente redutora. Sendo paradigmática da divisão da sociedade portuguesa, a sua importância, em termos políticos e sociais, é irrelevante. Outro tanto não direi dos interesses que cada um deles representava. Romanticamente, e à posteriori, deu-se importância a essa questão, francamente menor, quando a verdade é que os dois se estimavam e respeitavam. Há inúmeros testemunhos de que, de ambos os lados, os sentimentos eram mútuos e fraternais. E se alguma dúvida pudesse ficar, a dotação de 60 contos anuais de subsídio, concedido a D. Miguel para viver o seu exílio dourado, bastaria por deitar por terra essa tese. Concretamente, a guerra entre irmãos nunca fez parte do meu enfoque, até porque D. Pedro só muito tardiamente, após a abdicação da coroa imperial brasileira e com muitas reticências iniciais, se resolveu a tomar em suas mãos a causa de sua filha.

A sua simpatia cai para os partidários de D. Pedro ou de D. Miguel?

Considero a pergunta maliciosa... O progresso das sociedades faz-se por etapas, e estas são pautadas pela cultura, pela evolução das mentalidades e pelo desenvolvimento técnico e científico. Depois, temos, também, a economia e a apropriação dos meios de produção. Talvez alguns nacionalistas empedernidos possam rever-se, ainda hoje, nos princípios que enformavam o Antigo Regime; ninguém de bom senso, porém, o fará. Enquanto autor, não posso ignorar, porém, que à época, os partidários de D. Miguel eram incomensuravelmente em maior número do que os liberais. E que estes eram apenas uma elite cultural, letrada e/ou viajada, que em Coimbra ou em Paris tinha bebido as doutrinas libertárias da Revolução Francesa. No meu romance, que não é uma tese académica, conto uma história multifacetada de amores e amizades, com protagonistas reais e ficcionados agindo dos dois lados da barricada, sobre os quais não tomo nem tenho de tomar partido.

Pode dizer-se que esta é das partes mais obscuras da nossa História para os portugueses?

Não sei se é das mais obscuras. Tendo sido objeto de tantos estudos, até seria natural que não o fosse. O que acontece é que desde a fuga da família real para o Brasil, em 1807, a catadupa de acontecimentos relevantes foi de tal ordem que qualquer estudante fica naturalmente confuso. Depois, o ensino da História já teve melhores dias entre nós. Penso que o romance histórico, quando bem documentado e alicerçado, é um contributo importante para desobscurecer as partes mais sombrias do nosso passado coletivo.

Considera que fugiu aos lugares comuns que esta guerra civil sempre viu destacados em romances anteriores?

Para além de Guerra e Paz, só li dois romances sobre a temática. E mesmo um deles, Guerra Civil, de Álvaro Guerra, só depois de já ter entregado o original ao meu editor e que, por isso mesmo, não consta da bibliografia. Não procurei copiar ninguém e, por essa razão, o meu romance será diferente de todos os outros. A questão dos lugares comuns não é despicienda e tive-a sempre presente no esboço e na construção dos personagens, de modo a que não fossem meras caricaturas ou estereótipos reprodutores de uma certa vulgaridade.

Entre os autores do 'antigamente' que escreveram sobre esta guerra civil estão Arnaldo Gama e Camilo Castelo Branco. O seu livro vai mais longe?

Arnaldo Gama, literariamente não conheço. Mea culpa! Quanto a Camilo, Camilo é Camilo, trabalhava de empreitada e por encomenda. Às vezes é tendencioso, superficial e repetitivo. E, muitas vezes, simplesmente paroquial. Nunca escreveu um grande romance sobre a Guerra Civil, nem sequer a Brasileira de Prazins, que sai mal comparada com o período da Regeneração, abordado nesse genial A Queda de um Anjo. Mas longe de mim querer comparar-me a um mestre da Língua. Penso, no entanto, que o meu romance é de todos os que conheço o mais ambicioso nos seus propósitos: integrar os leitores, mediante algumas horas de prazer, nesse período crítico em que o regime constitucional encetou os primeiros passos em Portugal.

Mudou de opinião em relação a algum dos protagonistas deste conflito após a pesquisa, como o caso de Alexandre Herculano?

Sim, de facto mudei de opinião. Não, no caso de Alexandre Herculano, autor que conhecia razoavelmente bem, nem muito menos de Almeida Garrett, mas de alguns outros, nomeadamente Palmela e Saldanha e, até certo ponto, o próprio D. Pedro. E aprofundei razoavelmente o conhecimento que já tinha sobre Mouzinho da Silveira, de quem gostava de ter falado do seu "testamento político", um tema sobre o qual muito hesitei e acabei por deixar de fora.

Quais as páginas que mais lhe custaram escrever?

Não direi que tenha havido algo que me tenha custado a escrever. Escrever, para mim, é, essencialmente, uma inesgotável fonte de prazer. Mas tudo o que diz respeito à situação dos prisioneiros da Torre de São Julião da Barra impressionou-me. A minha preocupação foi manter-me fiel ao relato do licenciado João Batista da Silva Lopes, que aí viveu, como todos os outros, em condições abjetas, as arbitrariedades do brigadeiro Teles Jordão. Em termos romanescos, tive de matar algumas personagens e isso nunca é fácil para quem, como eu, se afeiçoa às suas criaturas.

O que Sangue de Portugal traz de novo à literatura nacional?

Seria estultícia da minha parte pensar que Sangue de Portugal traz algo de novo à literatura nacional. Se conseguir cativar a atenção dos leitores já me dou por satisfeito. Sou essencialmente um contador de histórias; histórias do tipo clássico, com princípio, meio e fim. Não sou um educador do Povo. Não escrevo sobre o meu umbigo nem tento passar mensagens. A minha preocupação é escrever bem e coloquialmente, sem resvalar para a banalidade, de modo a ser compreendido por qualquer leitor médio.

Este é um entre os seus vários romances históricos. Qual foi o mais difícil escrever?

Sem dúvida, Adamastor. Mas também o mais desafiante. O romance histórico vive de fontes fidedignas. Quanto mais informações sobre o que na realidade aconteceu, mais facilmente se torna montar a urdidura do romance. Ora o que se sabe da passagem de Camões pela Ilha de Moçambique está tudo num único parágrafo da Década VIII, do Diogo de Couto. Passo a citar: "Em Moçambique achámos aquele Príncipe dos Poetas, Luís de Camões, tão pobre, que comia de amigos, e, para se embarcar para o reino, lhe ajuntámos toda a roupa que houve mister, e não faltou quem lhe desse de comer. E aquele Inverno, que esteve em Moçambique, acabando de aperfeiçoar as suas Lusíadas para as imprimir, foi escrevendo muito em um livro, que intitulava Parnaso de Luís de Camões, livro de muita erudição, doutrina e filosofia, o qual lhe furtaram. E nunca pude saber, no reino, dele, por muito que inquiri. E foi furto notável." Naturalmente que nesta breve descrição há drama e mistério suficientes para despertar a atenção de um qualquer espírito mais curioso. Foi, principalmente, sobre o mistério desse livro furtado e esquecido que encetei a minha investigação e desenvolvi o meu romance para ter a grande satisfação do mesmo já ter sido objeto de um seminário na Universidade de Coimbra e de uma comunicação académica na Universidad Complutense de Madrid. Sangue de Portugal também não foi fácil. Não apenas pela grandiosidade da contenda, mas, principalmente, pela ambição de, através de um romance de 500 páginas, ser capaz de proporcionar aos leitores o quadro sentimental, social e político de uma época.

Não vejo na bibliografia referência a Vasco Pulido Valente. Não valia a pena?

Valeria sempre a pena, principalmente quando a alma não é pequena. Na imensa bibliografia que li ou consultei privilegiei, acima de tudo, as fontes originais. Se, por exemplo, Oliveira Martins, no Portugal Contemporâneo, obra fundamental para a compreensão desse período, apesar da sua atitude crítica para com os liberais e, nalguns casos, demasiado simpática para D. Miguel e os seus prosélitos, se baseia no citado João Batista para falar sobre os prisioneiros de São Julião da Barra, então eu prefiro ler o original; se para falar nos bandos de caceteiros que malhavam nos franceses e malhados se socorre de Francisco José de Almeida, então eu vou ler os Apontamentos de um Homem Obscuro; se, ainda outro exemplo, para falar da retirada para a Galiza cita Sá da Bandeira, então eu prefiro ler o Diário da Guerra Civil. Isto para dizer que, talvez pela minha formação académica, eleja de longe as fontes às teorias elaboradas por terceiros, por mais conceituados que sejam. E isso está bem refletido na bibliografia consultada. Vasco Pulido Valente ficou de fora, como ficaram muitos outros autores. A longa lista bibliográfica em que, historicamente, suportei o livro, resulta mais das leituras que fiz em função da narrativa romanesca que elaborei e menos, muito menos, daquilo que num ensaio académico se designa por estado da arte ou revisão da literatura. Por isso, só lá estão dois autores vivos, Maria de Fátima Bonifácio e António Ventura, ambos académicos de nomeada. No entanto, dou de barato que talvez Vasco Pulido Valente, com a sua verrina, fosse capaz de acrescentar mais uma ou duas linhas ao meu romance. Uma coisa é certa, se der continuidade a este projeto até à Regeneração, então lerei, com certeza, pelo menos, Os Devoristas.

Sangue de Portugal

António da Costa Neves

Editora Saída de Emergência, 511 páginas

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