O cinema paraíso em tempos maoístas

San Sebastían arrancou forte e bonito com One Second, de Zhang Yimou. Memórias cinéfilas em tempos de Mao Tsé-Tung.

De fazer inveja a Cannes ou a Veneza... Um festival a abrir com a obra chinesa mais importante dos últimos tempos, One Second, o tão adiado filme de Zhang Yimou, cineasta de obra-primas como Herói e Milho Vermelho. Esta obra de abertura apresenta-se como um épico histórico sobre o amor ao cinema em plena Revolução Cultural. A história de um homem em fuga do campo de trabalho obcecado para ver a sua filha num dos filmes noticiosos que as populares sessões de cinema nas salas de província passavam. Este fugitivo perdeu contacto com a filha e a oportunidade de a ver em película é a última forma de a "reencontrar" numa China imensa mergulhada no socialismo de Mao.

Ode ao lugar do pai, One Second não é aquilo que à primeira vista parece: uma "patusca" carta de amor ao impacto do cinema puro. É bem mais do que isso, é um ato de generosidade completa sobre uma maneira de ver cinema. Por isso mesmo, é feito com uma energia emocional sem freios e Yimou não pede desculpa por isso, antes pelo contrário. Seguramente, trata-se de um regresso aos tempos de um cinema que ausculta as épicas transformações da China, sempre filmado com o coração nas mãos e as mesmas grandes ideias de cinema de Viver, para muitos a obra-prima de Yimou. Em 2020 este filme não chegou ao festival de Berlim por supostamente ter tido "problemas técnicos". Afinal, o "cineasta do regime" parece ter problemas de censura.

Na sessão de gala antes de One Second, o veterano Carlos Saura apresentou Rosa Rosae- La Guerra Civil, curta-metragem a partir de desenhos e fotografias a ilustrar a canção Rosa Rosae de José António Laboreta. Parece mais um teledisco com demasiados zooms para reafirmar um trauma espanhol perante o horror de crescer com a Guerra Civil. Obviamente, tem um impacto mais do que simbólico num festival com quase todas as sessões esgotadíssimas.

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