"O Brasil ainda apresenta tiques dessa coisa que começa em 1500"

A narrativa de As doenças do Brasil, o mais recente romance de Valter Hugo Mãe, apropria-se de uma recriação de linguagem como raramente se encontra em Portugal. É uma transfiguração da língua como em A Torre da Barbela de Ruben A., ou porque não, de invenção linguística como fez Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas. Inesperado!

O novo romance de Valter Hugo Mãe é sobre a chegada da "fera branca" ao Brasil e a repercussão desse pôr o pé em terra alheia. A protagonista é a comunidade abaeté e os personagens principais o mestiço Honra e o negro Meio da Noite, que "explicam" o impacto da descoberta daquele novo mundo em 1500 e as feridas abertas nos primeiros brasileiros, nos escravos para lá levados em massa e na gestão do domínio político e de emoções dos colonizadores. O legado é uma questão nunca resolvida seja qual for o lado do Atlântico para que se olhe e que, segundo o autor, ainda provoca hoje "uma incredulidade de como é que o Portugal de hoje poderia corresponder ao de outrora" e no lado de lá "uma das fraturas mais violentas da sociedade brasileira devido à realidade mestiça que o país apresenta".

Este é um romance para leitores brasileiros...

... Não, até tenho a convicção de que o romance chamará menos a atenção aos leitores brasileiros do que dos portugueses porque para eles uma certa exuberância do imaginário que o romance apresenta faz parte de uma normalidade perfeitamente assumida. Ou seja, o embate com as culturas originárias é já naturalizado no Brasil e todo esse deslumbre de que o livro se faz acaba por ser menos apelativo para o leitor mediano brasileiro porque já se terá habituado à existência de universos assim, o que não se passa com o leitor português, para quem pode ser a entrada num universo excecional e inesperado.

Os portugueses já se descolonizaram o suficiente para lerem As doenças do Brasil?

Acho que o preconceito mais ignorante em Portugal existe por profundo desconhecimento. Está instalada no comum cidadão uma falta de informação que faz com que as questões que este livro levanta possam chegar-lhe como uma surpresa absoluta. Dificilmente estará ainda à espera de que tal seja consequência de um passado violento, branco, português e europeu. No Brasil, o preconceito, a existir, é mais informado mas está ainda em prática por motivos estranhos como é o de todos os preconceitos - mas é menos ignorante.

Nos últimos anos, estes primeiros brasileiros não continuam a ser muito maltratados pelos que habitam o país?

Sim. Uma das fraturas mais violentas da sociedade brasileira tem exatamente que ver com essa realidade mestiça que o país apresenta, feita de uma forma que não é pacífica ou paritária, daí que o desequilíbrio venha muito dessas divisões raciais e étnicas. Por outro lado, também durante os últimos duzentos anos as comunidades originárias foram motivadas a esquecerem as suas tradições para escaparem à violência a que estavam sujeitos pelos povos brancos. Libertando-se de uma possível escravização, como aconteceu com os povos negros, os povos vermelhos disfarçaram-se muitas vezes em caboclos e foram-se destituindo ao longo de séculos das suas tradições ao ponto de perderem a sua própria memória.

Há muitas acusações neste livro, como quando o personagem negro diz "Deus me ajude" e Honra pede para falar a língua do branco mas a tribo não o deixa. Os primeiros brasileiros dificultaram essa miscigenação?

A História ensina-nos que a chegada dos brancos ao continente sul-americano foi vista pelos peles vermelhas como uma anunciação divina e o primeiro relato de Pero Vaz de Caminha sobre a descoberta desses povos mostra que eles estavam de boa-fé e nós estávamos com intenções inquinadas. Quantos mais pechisbeques lhes déssemos mais bens preciosos eram dados em trocas e isso está perfeitamente assumido nesse primeiro texto enviado ao rei, daí que seja importante perceber que a nossa chegada não foi desinteressada e instalou imediatamente uma violência, como no caso da mestiçagem. Por isso é que o Honra representa o estupro e uma ferida que nunca chega a cicatrizar, como é o caso do mestiço. Nós, deste lado do Atlântico queremos ver a glória - que existe num grupo de homens que navegam numas carcaças de madeira e atravessam mares desconhecidos -, mas é inevitável ver-se o lado de lá, que essa bravura correspondeu à subjugação e extermínio de milhões de pessoas.

"Escrevi três versões diferentes, com narradores distintos, e fui percebendo que precisava de me proteger e fazer com que o discurso se levantasse a uma meditação um pouco mais universal."

Uma "bravura" que ainda não foi digerida pelos portugueses 500 anos depois!

Há quase uma incredulidade de como é que o Portugal de hoje poderia corresponder ao de outrora? É um sentimento inevitável em relação a todos os povos que tiveram instantes de grande feito ou de tragédia e depois prosseguem numa história mais discreta. Basta pensar como os gregos de hoje não são os da grande cultura helénica clássica. Os processos de transformação fazem com que aquelas pessoas de hoje não correspondam aos clássicos gregos, e se a globalização de que fomos responsáveis está mais perto, mesmo assim está longe o suficiente para que não sejamos imediatamente os mesmos. Isso causa sempre perplexidade.

Ao contrário de Wenceslau de Morais, que decidiu submergir na civilização oriental, no seu caso existe uma outra perspetiva sobre os últimos séculos. Como é que, consciente da história, conseguir modelar a narrativa em função do que pretendeu escrever?

Até sinto uma certa inveja do Wenceslau de Morais, que pôde viver parte da vida substancial num outro país e não se limitou a estar apenas no Japão, mas a mim o que me faz correr e criar um nomadismo de livro para livro é um certo poema. Mudar de latitude e de mentalidade tem muito que ver com a tentativa de caçar o distinto, o poema novo. A dada altura criei a convicção de que teria mais dificuldade em obter dentro da mundividência portuguesa resultados puramente literários que trouxessem em relação àquilo que já escrevi um sentimento de novidade. Por isso, ambientar livro ali pelo século XIX numa hipotética comunidade da Amazónia, estragando o meu português, perturbando a língua ao ponto de ela parecer outra coisa, foi fundamental. Não queria qualquer novidade histórica, nem o romance é um levantamento linguístico fidedigno, nem sequer antropológico, vale o mesmo que qualquer poema. É uma proposta de criatividade poética.

Os dois anteriores livros situaram-se na Islândia e no Japão. Qual é o lugar deste romance entre essas experiências geográficas?

Esta história, sendo estrangeira, é a mais alienígena de todas porque parece passar-se num mundo proibido e essa é uma das teses do livro: a sensação que fica é de que a fera branca poderá apagar da face da Terra culturas sobre as quais mais nada poderemos saber. Ou seja, torna-se diferente dos outros livros nesse aspeto - a Islândia e o Japão são lugares que continuam ostensivamente no esplendor da sua cultura - porque a tribo dos abaeté não existe; eles são hipotéticos e, sobretudo, uma especulação acerca de quanto nós, a fera branca, exterminou.

Porquê chamar-lhes abaeté se são uma mistura imaginada de várias tribos?

Os abaeté podem ser uma ressonância de tudo o que posso saber e intuir sobre as comunidades originárias e não correspondem especificamente a nenhuma comunidade que se possa identificar. Para mim era importante que houvesse hipótese de os abaeté desaparecerem, pois ao longo da história foi o que aconteceu a várias tribos, completamente exterminadas; ou elas mesmo a fazê-lo através do processo de máscara a que foram obrigadas a entregar-se, eliminando e esquecendo as suas culturas, crenças e todas a suas sabedorias para sempre. Queria muito que fosse assim, tal como desejava respeitar a oportunidade que as comunidades existentes têm de se pronunciar. Tem muito que ver com algo que é debatido no Brasil e não tenho o direito de ocupar o lugar de fala das comunidades originárias indígenas. Por essa razão, vejo o meu livro como um lugar de escuta. É um lugar de ressonância, onde deixo entrar vários clichês e deixo participar também pela necessidade poética muito assombro. A comunidade abaeté não está no livro para ser exemplar, perfeita ou politicamente correta, antes com o mesmo horror e fascínio com o que de uma forma muito imediata cada um de nós pensa sobre as tribos da América Latina.

Até porque se lê a discriminação que os abaetés fazem ao negro, dizendo que nem seria espiritual. É um questionamento inevitável?

Sim, porque uma das conquistas do livro tem que ver com a relação entre o Honra e o Meio da Noite e a forma como paulatinamente se vão entendendo. Do lado do vermelho e do negro vai-se chegando à ideia de que ambos são plenamente humanos e é interessante que excluem o branco dessa equação porque é através deles que acaba por haver uma espécie de levantamento de esplendor humano. Como se entre eles os dois, acossados pelo mesmo inimigo, conseguissem chegar à conclusão de que ambos são dignos. Coisa que talvez falte à comunidade branca fazer, porque o racismo perdura em relação aos negros e vermelhos e até está na ordem do dia, num regresso com uma certa euforia.

Até que ponto o leitor brasileiro ficará chocado com este romance?

É muito importante para mim que este livro seja honesto pois não queria, após estabelecer uma relação tão forte com o Brasil, deixar no ar a ideia de que escrevi um panfleto de gratidão. Os meus livros nunca têm a intenção de me bajular enquanto pessoa ou autor, eles existem sempre devido a um imperativo do que me é colocado pela consciência e deste modo o livro é duro quando comparados a outros livros anteriores e se tem espaço de profunda beleza também o tem de horror, algo que sempre me caracterizou. O leitor brasileiro será desafiado nos seus próprios preconceitos e incómodos na leitura e solicito-lhe tanta boa-fé ao lê-lo quanta eu tive na sua escrita.

Sente-se uma espécie de Honra ao tentar racionalizar o passado?

Creio que há algo de ingrato nesta racionalização, porque nunca vamos fazer justiça a ninguém mesmo que se possam pedir desculpas ou arranjar quotas, favorecimento ou discriminação positiva. É impossível apagar o que emotivamente se inscreve na vida de cada um; consigo compreender como determinados ativismos degeneram em movimentos ou instantes opressores e se estivesse no lugar de uma minoria ou de alguém que vem de séculos de opressão, talvez não fosse capaz de dominar a minha emoção e de ser racional ao ponto de me manter diplomático, respeitoso e equilibrado. Por essas razões, existe essa tragédia quando se pondera o passado e se procura criar uma pacificação e uma visão de justiça aplicável no dia de hoje, contudo iremos sempre esbarrar com a emoção porque é impossível pedir aos povos negros que se destituam da sua raiva. É muito perto ainda para que se possa pensar sobre o que aconteceu aos povos negros e vermelhos sem que eles sintam um asco difícil de controlar.

A linguagem deste livro é inesperada. Como foi a investigação da língua, dos mitos e do dia a dia dos abaeté?

A grande conquista do livro foi a liberdade de como o escrever. A dada altura percebi que ao longo destes últimos nove anos fui tomando notas, criando versões sucessivas, e entendi que só poderia chegar a um texto assim se me fosse libertando - até de muita informação - porque existe uma exuberância natural nas culturas dos povos originários que facilmente me manipulariam e poderiam esmagar. Há cerca de três anos, após várias tentativas, compreendi que precisava de fechar todos os livros que tinha lido, evitar todas as imagens que tinha visto, e ausentar-me daquilo tudo. Escrevi três versões diferentes, com narradores distintos, e fui percebendo que precisava de me proteger e fazer com que o discurso se levantasse a uma meditação um pouco mais universal e por isso não poderia ser uma personagem como o Honra a contar porque ele duvidava demais e precisava de um discurso assertivo para declarar algumas coisas com a violência e a bravura próprias do narrador. Quando surge a última versão, a cultura é distinta e a língua também, usando vocábulos que são aparentados ou que podem produzir um certo efeito de semelhança, mas que são improváveis na língua portuguesa para o que está a ser dito. O livro acaba por fazer com que o leitor aprenda a lê-lo depois da resistência aos primeiros capítulos e começa a normalizar a forma como as coisas são ditas, e no fim do livro está dentro da comunidade abaeté como se fosse uma visita.

A última versão foi escrita em Paredes de Coura. Essa ambiência influenciou a narrativa?

Teve uma importância fundamental, mas participa no livro como uma tela branca. O bem-comportado da mata de Coura permitiu que eu estivesse em permanente viagem para a mata estranha e agressiva dos abaeté. É muito contrastante o que eu via da minha janela em Coura e como imaginava nos Abaeté, porque Coura é um lugar apaziguado e as ilhas de Três Mares ainda está em profunda ebulição.

O título já é um julgamento?

Sim, é um juízo de valor porque as doenças do Brasil são para lá levadas pelos portugueses. É uma chamada de atenção para aquilo que ainda preda os cidadãos brasileiros e os destitui de uma maior dignidade, em muito por aquilo que os portugueses lá deixaram. E nós cá temos muita dificuldade em lidar com isso porque os brasileiros já são independentes há duzentos anos. Creio que o Brasil ainda apresenta tiques dessa coisa que começa em 1500 e que é portuguesa. Como diz o Padre António Vieira, as causas originais das doenças do Brasil é a apropriação do alheio, a exploração dos bens e do corpo do outro e a incapacidade dessa sociedade para criar uma verdadeira paridade é o que desgraça o Brasil

Valter Hugo Mãe

Porto Editora

277 páginas

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