"Nunca cruzei uma outra Namalimba nos meus 44 anos de vida"

Em tempos de pandemia, este foi um "brunch" às 16:00 com Namalimba Coelho, no Café Buenos Aires, com vista para o Castelo de São Jorge

Estamos sentados no Café Buenos Aires, numa esplanada com vista para o Castelo de São Jorge, e é inevitável começar a conversa pelo nome da minha convidada. "Namalimba é uma lenda do Huambo, que conta a história de amor da princesa guerreira e do cágado Kembeu. Sendo o nome a forma de nos identificarmos e individualizarmos em sociedade, o meu revelou-se um verdadeiro legado, que semeou em mim um sentido de pertença, identidade e orgulho na minha angolanidade. É um desafio contínuo na minha relação com o mundo, todos os dias, em qualquer contexto e geografia. Ensinou-me a celebrar e a lidar com a diferença, a construir uma identidade própria, sem necessidade de procurar semelhantes ou referências padrão, e a honrar o que nos aproxima ou distingue nessas fronteiras invisíveis. Com o tempo percebi que, afinal, ninguém se chamava como eu...", explica a responsável pela comunicação do Museu Berardo, que com pandemia ou sem pandemia continua a ser o mais visitado de todos os museus portugueses, como em março revelou o The Art Newspaper, divulgando os números de 2020.

Claro que Namalimba me questiona sobre o nome também, e rimo-nos quando percebemos que, no caso dela como no meu, os professores no início do ano se engasgavam sempre quando estavam a fazer a chamada. Mas se eu Leonídio tenho um pai e um avô homónimos (palavra adequa-se a um nome que tem ligação à Grécia) e sei que há um presidente de câmara em Portugal também chamado assim e um deputado brasileiro igualmente, já com Namalimba a situação é bem mais singular: "Nunca cruzei uma outra Namalimba nos meus 44 anos de vida, entre os sete mil milhões de outros que somos no planeta, pelo que, a busca por outra Namalimba tornou-se uma missão. Pela primeira vez, numa pesquisa recente na internet, apareceu um resultado que não remetia para mim, mas para um ponto do mapa do Uganda, que assinalava uma aldeia de nome Namalimba. Entretanto, fui dar a outro link, uma música no YouTube, intitulada Insansa Namalimba, cantada por um grupo de gospel da Zâmbia. Uma miragem, já que o vídeo desapareceu... apesar de eu ter salvado uma versão."

Foi o pai, Sebastião Coelho, nascido no Huambo, que escolheu o nome da filha inspirando-se nas lendas africanas. Jornalista, radialista, editor discográfico e historiador da música popular, era um nacionalista angolano e naquele ano de 1976, com a independência ainda muito recente, escolheu chamar Namalimba à bebé de olhos verdes e cabelo louro. A vinda da família para Portugal deu-se em meados da década de 1980, "mas sempre entre cá, e lá", reforça Namalimba, enquanto aproveita para pedir vinho branco e empanadas de carne tipicamente argentinas. Por causa das limitações causadas pela covid-19, este Brunch foi às quatro da tarde!

Frequentadora do Café Buenos Aires desde que abriu, em 2004, um belo segredo lisboeta que acabo de descobrir, Namalimba conta que o restaurante nasceu de uma história de amor entre uma portuguesa e um argentino que se casaram em Paris. Está ela a dizer isto e continua a vir mais comida para a mesa, agora umas minissandes com recheios vários. E também uns espargos grelhados e papaia.

Em Luanda, Namalimba estudava numa escola francesa, por isso, em Lisboa foi para o Liceu Francês. E de uma forma natural, realça, a sua dinâmica de vida levou-a até Paris para concluir a formação em Direito. "Há acontecimentos e fatores determinantes na nossa vida, que acabam por orientar caminhos e escolhas. A minha infância passada em guerra civil em Luanda foi uma dessas circunstâncias, que me levou a estudar no sistema francês e que me expôs a uma realidade que acabou por influenciar a formação da minha personalidade, o sentido de empatia para com o próximo ensinou-me a nunca dar nada por adquirido, a estar atenta ao outro, e a lutar para que as ações que pratico no quotidiano celebrem a igualdade, a dignidade e a liberdade de cada ser humano, sem distinção de classe social, cor, género, nacionalidade, religião, orientação sexual ou de qualquer outro tipo, que anule os direitos fundamentais que nos deveriam assistir. Tudo isto influenciou a minha forma de estar no mundo, assim como as escolhas que fui fazendo ao longo da vida, nomeadamente, regressar sempre a Angola, viver e estudar em Paris, especializar-me na área de Direitos Humanos, integrar formações e projetos ligados a ONG, à ONU, aos Tribunais Penais Internacionais para o Ruanda e ex-Jugoslávia, à Comissão de Direito Internacional em Genebra, convicta de que o meu percurso e missão de vida teriam como meta os outros."

Voltam a encher-nos os copos com 100 Hectares, um branco do Douro, e a conversa flui. Relembro a Namalimba que a ideia deste Brunch nasceu de um convite para o DN cobrir umas iniciativas do Museu Berardo e aproveitei para perguntar como é que de estudar Direito se passa a trabalhar em comunicação de arte. "Tudo começou em 2003, acabada de chegar de Paris, quando soube de entrevistas para integrar o departamento de comunicação da ExperimentaDesign, onde acabei por ficar até 2007. Foi um ato espontâneo que acabou por revelar-se uma vocação já que fui sendo convidada a integrar a comunicação de outros projetos na área das artes, do design, da moda, mas tentando não abandonar os direitos humanos. Recordo quando, a dois meses de a bienal inaugurar, fui selecionada para integrar um grupo de trabalho na Comissão de Direito Internacional em Genebra, onde fiquei um mês, em que tive de conciliar estes dois universos de trabalho. É essencial diversificar interesses e conhecimentos, por isso, no meu regresso a Lisboa, procurei estar envolvida noutras áreas, o que me levou a frequentar o curso de Língua e Cultura Árabe na Nova, uma formação de acesso à carreira diplomática pelo MNE, outra de jornalismo no Cenjor, um curso intensivo de Luxury Brand Management no ISEG, entre outros. Dos direitos humanos às artes, tudo foi acontecendo, consequente e naturalmente, colaborando com o Festival Jazz em Agosto da Gulbenkian; ModaLisboa - Lisbon Fashion Week; Fundação Ellipse; Festival Temps D"Images; Fuso - Anual de Videoarte Internacional de Lisboa; Fundação Leal Rios; Festival de Artes de Macau; Plataforma/Galeria de Arte Urbana Underdogs; Festival Iminente, entre outros projetos de Vhils. Também assumi a curadoria das exposições do artista Francisco Vidal, na ArcoLisboa2019 e AKAA Paris2019, com quem fundei o Projeto #MAKALisboa, no qual usamos as artes e a palavra para dar voz e visibilidade a causas e temáticas relacionadas com os direitos humanos. Desde 2007, sou assessora de imprensa do Museu Coleção Berardo", explica Namalimba e é difícil não ficar impressionado com o muito que esta mulher que diz "não encaixar em nada" consegue fazer.

A comida continua a vir para a mesa. Agora são umas endívias com roquefort derretido, pera e amêndoas. Uma vez mais rendo-me às artes do Café Buenos Aires. Sublinha-me Namalimba que quando vem jantar aqui não falha o bife argentino. Tomo nota e penso logo voltar ao cimo das Escadinhas do Duque para um belo almoço ou jantar de carne das pampas acompanhado por um Malbec.

Pergunto o que significa para ela trabalhar no Museu Berardo. "É o privilégio de fazer parte de um projeto com esta dimensão/relevância artística, ainda mais, quando se faz parte da sua história, já que integro a equipa que organizou a sua abertura, com repercussão à escala mundial, em junho de 2007. Durante todo o século XX, Portugal não teve um museu/coleção de arte moderna e contemporânea que permitisse, através da sua apresentação cronológica, contar a história da arte dos principais movimentos do século XX até à atualidade, ou que permitisse aos estudantes terem uma aula sobre Picasso ou Mondrian com uma obra destes artistas ao alcance de uma visita ao museu. Ao longo destes 14 anos, para além do desafio que representa trabalhar num museu desta escala, tenho aprendido muito além da comunicação, pelas oportunidades vividas e pelas pessoas que tenho tido o privilégio de cruzar, inspiradoras na sua visão e ensinamentos, nomeadamente, artistas, colecionadores, curadores e profissionais desta área provenientes de instituições do mundo inteiro, a par dos meus cúmplices colegas de trabalho", diz, entusiasmada. E acrescenta: "Profissionalmente, tem sido de uma intensidade imensa, uma vez que, desde a abertura do museu comuniquei mais de uma centena de exposições, temporárias e permanentes, a par das várias mostras da Coleção Berardo além-fronteiras. É uma instituição com uma dinâmica de bastidor que as pessoas não imaginam, desde o empréstimo de obras que são solicitadas pelas mais prestigiadas instituições, à diversidade das atividades dirigidas ao público, escolas, famílias, crianças, projetos especiais do serviço educativo, sem falar no desafio que foi adaptarmo-nos à dimensão digital e à realidade museológica possível em 2021. É inspirador trabalhar num espaço onde, ao alcance de uns passos do meu gabinete, tenho acesso às obras que contam a História da Arte Moderna e Contemporânea, não só através das exposições patentes, como pelo acervo composto por mais de mil obras de artistas como Duchamp, Picasso, Dalí, Miró, Warhol, Bacon, Pollock, Moore, Basquiat, Hockney, Koons, Lichtenstein, Man Ray, Helena Almeida, entre tantos outros".

"Namalimba é uma lenda do Huambo, que conta a história de amor da princesa guerreira e do cágado Kembeu. Sendo o nome a forma de nos identificarmos e individualizarmos em sociedade, o meu revelou-se um verdadeiro legado, que semeou em mim um sentido de pertença, identidade e orgulho na minha angolanidade. É um desafio contínuo na minha relação com o mundo, todos os dias, em qualquer contexto e geografia."

Vem para a nossa mesa ainda uma sobremesa, um apple crumble. Difícil de resistir. Na esplanada vizinha um grupo de adolescentes celebra um aniversário. Esqueceram já a regra dos quatro no máximo por mesa e estão amontoados como se o país não vivesse em pandemia. Namalimba comenta comigo que a situação é inaceitável e chama a atenção ao grupo. Ficam surpreendidos, e entre o justificarem-se e o minimizarem os riscos que estão a correr, lá acabam por terminar a festa e ir embora.

Estamos a terminar, e voltamos à questão da identidade de uma mulher que usa um quimono desenhado por ela, feito com tecidos africanos comprados por ela nos mercados informais, e usa uma T-shirt Bazofo, marca criada na Cova da Moura: "Mais do que angolana ou portuguesa, o que define a minha identidade é o mapa de vivências que conta a minha história, em coreografia com o que me move no espaço e no tempo presentes. Chamo-me Namalimba, sou angolana, sou portuguesa, sou francesa, sou crioula, sou livre, sou feliz, sou um ser humano que antes de qualquer qualificação ou designação deseja que o que me ligue ao outro seja a empatia de quem sou na essência, para lá das fronteiras que delimitam a expectativa que a sociedade tem de cada pessoa. Sou a prova viva de que todos esses cânones e carimbos se revelam obsoletos, se perguntar como imaginam alguém que se chame Namalimba, angolana nascida em Luanda depois da independência, infância passada em guerra civil, nacionalidade portuguesa adquirida posteriormente, estudos no sistema francês, formada em Direitos Humanos, com tese de mestrado dedicada à reconstrução jurídica e judicial de Timor-Leste, mas a trabalhar no meio das artes e da comunicação cultural, mãe de dois filhos chamados Kenzo e Jade; namorado chamado Francisco, nascido em Lisboa, mas que, por ter a tez mestiça, quando estamos juntos, é a ele que perguntam como vai Angola, país que só conheceu quando adquiriu a nacionalidade com 35 anos, sendo que quando vamos a Luanda é em casa da minha família que ficamos. Como vês, o que me move e define acaba por desconstruir o que seria a expectativa da minha luso-angolanidade. Por isso insisto que não é a nacionalidade, a origem, a religião, a condição social, a cor da pele ou a aparência que deveriam definir a nossa identidade, mas sim a essência do que nos move e somos para lá dessa circunstância."

leonidio.ferreira@dn.pt

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