Nosferatu. O imortal que suga a alma das crianças é a nova séria sobrenatural

Em NOS4A2 (Nosferatu), a série televisiva que marca o regresso de Zachary Quinto ao pequeno ecrã, é um mundo fantástico mas uma metáfora para dramas bem reais. Estreia hoje.

Ao cair da noite, um homem muito velho atrai um rapaz para o seu Rolls Royce Wraith de 1938 e promete-lhe uma vida nova num sítio onde a tristeza é proibida. "Não queres ir para a terra do Natal?", pergunta-lhe, com a voz arrastada e bafienta. A viagem toma uma direção sinistra, porque quem está ao volante é Charlie Manx, um imortal de 135 anos que rapta crianças para lhes sugar a alma". Por detrás dos dentes podres e cabelo grisalho deste corpo em decadência está um vilão que se julga herói, interpretado por um Zachary Quinto ("Star Trek", "American Horror Story") irreconhecível nas imagens iniciais.

Esta é a introdução ao universo da nova série de terror sobrenatural da AMC, "NOS4A2" (lê-se Nosferatu), que estreia hoje em Portugal e se baseia no livro de Joe Hill, filho do prolífico Stephen King.

"É um livro tão rico em metáforas e camadas de significado, com temas que transcendem a narrativa e o género", explica a novata Ashleigh Cummings, que interpreta a protagonista Vic McQueen, numa conversa em Los Angeles.

A sua personagem é a adolescente que irá enfrentar Charlie Manx, uma jovem mulher que "redefine, de certa forma, o que significa ser uma heroína." Ambos são Fortes Criativos, pessoas que conseguem cruzar a imaginação e a realidade, atravessando de uma dimensão para a outra. "Somos capazes de transcender os limites que existem entre a realidade e a imaginação", descreve Zachary Quinto. "Há um tema interessante sobre o poder da imaginação e da mente, as diferentes dimensões e o que criamos como realidade. Em última análise, controlamos a nossa realidade e a série explora isso de uma forma tangível."

Charlie Manx aparece como uma encarnação dos medos mais profundos que temos na infância, transformando a magia do Natal numa armadilha fatídica. O interessante nele, diz a showrunner Jami O"Brien, é que acredita que está a salvar as crianças, apesar de lhes sugar as almas e as depositar num sítio na sua imaginação, chamado Christmasland. "Numa outra versão possível desta série, estaríamos a torcer por ele, porque tira estas crianças das circunstâncias terríveis onde as encontra."

Esta dinâmica sombria é perturbada quando Vic McQueen descobre que consegue atravessar uma ponte imaginária e encontrar coisas perdidas, algo que poderá ser usado para localizar as crianças raptadas por Manx.

O elemento aterrorizador ferve lentamente nos primeiros dois episódios, realizados por Kari Skogland, que foi nomeada para um Emmy pelo seu trabalho em "The Handmaid"s Tale." A forma como a showrunner Jami O"Brien apresenta este universo é cuidadosa, numa série que tenta ser duas coisas ao mesmo tempo: um drama familiar, de pés no chão, e um mundo fantástico de dimensões sobrenaturais.

"Uma das coisas que estamos a tentar explorar é a história de amadurecimento da Vic McQueen, no mundo real e no sobrenatural", explica O"Brien. "Queria espaço para fazer as duas coisas."

A série começa quando Vic entra no último ano do secundário, não tem muitos amigos, não se encaixa em muitos sítios e não sabe o que vai fazer. Vem de uma família da classe trabalhadora mas quer estudar Arte, o que é uma ideia pouco comum nas suas circunstâncias. "Precisa de se descobrir no mundo real, e ao mesmo tempo descobre que tem um dom sobrenatural", diz O"Brien. "A série funciona melhor quando as duas coisas se cruzam: à medida que ela ganha poderes e se encontra com Charlie, isso dá-lhe a força e a coragem de enfrentar os seus pais, e vice-versa."

O desempenho da desconhecida Ashleigh Cummings é convincente e inspirador. "Vic é uma jovem artista da classe trabalhadora que se sente presa e isolada no seu mundo e no ambiente familiar", descreve a atriz. "Descobre que tem uma capacidade e se decidir usá-la poderá trazer benefícios imensuráveis para ela e outros, mas também custos imensuráveis."

No aspeto físico de Vic, que anda sempre em cima da sua moto, há vislumbres de Jessica Jones e alguma rebeldia. "Temos sorte de ver uma vaga de filmes com mulheres na proa e super heroínas, mas noto que muitas vezes nos focamos no exterior, na força física", afirma Cummings. "O super poder da Vic, o seu músculo mais forte é o coração, os seus poderes são a empatia, a criatividade, a intuição, as emoções, a vulnerabilidade", considera. "Ela vai para a luta sem ser feroz e num estado de terror, mas mesmo assim aparece. É aí que está a sua coragem." Cummings decidiu não fazer exercício físico, de forma deliberada, "porque a sua batalha não é física, é usar a sua força interior."

Do outro lado está Zachary Quinto, que mais que regressar às origens se reinventa. A transformação física que se vê ao longo da série é possibilitada pelo trabalho de Joel Harlow, um virtuoso da maquilhagem de efeitos especiais, e contribui muito para o frio no estômago que Charlie Manx provoca. Jami O"Brien diz que não reconheceu o ator quando este entrou pela primeira vez na sala onde ela estava caracterizado como Manx aos 80 anos. O"Brien, que trabalhou em "Fear the Walking Dead", ficou "atónita" com a materialização do universo altamente estilizado que adaptou para a televisão a partir do livro de Joe Hill.

Cheia de metáforas, a série faz um comentário à classe social, algo que não se tem visto muito na televisão para lá das comédias. "Também explora a solidão da infância, o custo da criatividade, as maravilhas e o preço a pagar pela criatividade", analisa. "O mundo está cheio de pessoas muito dotadas; mas toda a gente que tem um dom deve pagar o seu preço." Zachary Quinto identifica também uma análise aos traumas não resolvidos, ao que acontece quando não os processamos e eles se enraízam no nosso corpo.

Apesar de ser uma série localizada numa cidade pequena de Nova Inglaterra, os temas abordados permitem uma identificação com qualquer audiência, considera O"Brien. "Nunca estive em Portugal, que penso que é lindíssimo, e suspeito que as pessoas não serão exatamente como os habitantes de Haverhill, Massachusetts", graceja a produtora. "Mas aposto que sabem como é sentir que não pertencem a lado nenhum, quererem fugir às suas circunstâncias e ao mesmo tempo quererem pertencer a algum lado", afirma. "São coisas universais."

Entrevista a Zachary Quinto

"O que acontece se o trauma não for examinado e processado nas nossas vidas?"

Depois de "Star Trek" e "American Horror Story", Zachary Quinto personifica um bicho-papão dos tempos modernos em "NOS4A2", um drama sobrenatural do canal AMC baseado na obra de Joe Hill. Neste universo, Charlie Manx é um imortal que se alimenta das almas de crianças e explora os terrores mais íntimos que temos na infância. Falámos com o ator em Los Angeles sobre a série que estreia a 3 de junho no AMC Portugal.

Porque escolheu este projeto para voltar à televisão, depois de "American Horror Story"?

Inicialmente, tive alguma resistência à ideia de voltar a um género e uma história enraizada no terror, mas depois li o guião e falei com a Jami O"Brien, showrunner, e Kari Skogland, que realizou os dois primeiros episódios, e senti que havia uma complexidade nestas personagens, bem como um espírito colaborativo no projeto. Foi isso que, em última análise, me atraiu. Também estava aberto a explorar um personagem que me permitisse submergir e desaparecer nele.

O que achou do conceito da história quando lhe foi apresentado?

Li o livro, li a banda desenhada, e achei que era um mundo tão único e vívido que o Joe Hill e a Jami O"Brien criaram que me senti realmente entusiasmado e penso que as audiências vão responder a ele. Também não fazia televisão há cinco anos e por isso havia parte de mim que queria regressar a algo que sei que as pessoas gostam de me ver fazer. Olhar para isto como um trampolim e reiniciar, começando algo que conheço e consigo fazer paralelamente a outras coisas.

O que estava a fazer na altura?

Estava a fazer uma peça na Broadway quando surgiu esta oportunidade e consegui fazer as duas coisas ao finalizar a peça, com um mês de intervalo para o início. Aceitei no fim de julho e começámos a filmar no final de setembro. Mergulhei em tudo durante seis semanas. Senti-me grato pelo luxo do tempo, que é algo que muitas vezes não temos. Espero que sirva bem a série no longo prazo.

Quais os temas mais fortes em "NOS4A2"?

Há uma jovem mulher como protagonista, o que é muito entusiasmante. Ela é alguém que vai enfrentar um velho branco e rabugento. Há aqui algo de empoderamento de uma jovem mulher que está a descobrir quão poderosa é. Adoro esse aspeto da narrativa, é uma série criada por uma mulher, vários episódios foram realizados por mulheres incrivelmente talentosas, por isso penso que é impossível olhar para esta série sem reconhecer que o poder de uma jovem protagonista é grande parte disto. Também penso que há o tema do trauma não resolvido; o que acontece se o trauma não for examinado e processado nas nossas vidas? A ideia da manipulação de pessoas vulneráveis, que é algo que está a acontecer agora no nosso mundo. A série existe em vários níveis de complexidade, e isso foi uma das coisas que me atraiu para ela. Termos este mundo altamente estilizado, com as manifestações destas personagens que são os Fortes Criativos, bem como uma dinâmica familiar muito emocional entre McQueen e os seus pais, os seus amigos. É algo que é único numa estrutura narrativa, não temos visto muito disto em televisão.

Como partiu para a construção deste personagem, que passa de velho decrépito a jovem com ares de Willy Wonka?

Uma das primeiras coisas que eu disse à Jami e aos produtores da série foi que a única maneira de isto funcionar era ir buscar o Joel Harlow, que é um dos artistas de maquilhagem de efeitos especiais mais talentosos que há. Trabalhei com ele nos filmes "Star Trek", achei que se ia passar por esta transformação precisava de o fazer nas mãos de alguém em quem confiava implicitamente, e garantir que as escolhas psicológicas e emocionais que estava a fazer como ator seriam percetíveis por detrás destas camadas de cola, silicone e maquilhagem. Sabia, por experiência própria, que com ele seria esse o caso. E ele ultrapassou em muito as minhas expectativas com o que foi capaz de criar. Essa foi a primeira fase da conversa. Por algum milagre ele estava disponível e interessado, e começou a desenhar a estética comigo, a Jami e a Kari.

E como foi a preparação?

Comecei a trabalhar nos trejeitos físicos e vocais do personagem nos meses que precederam as filmagens, com a ajuda de um amigo coreógrafo de movimentos, Steven Hoggett. Como é que a psicologia do personagem se move no meu corpo? Como é que a idade do personagem vive no meu corpo? É alguém que tem um reservatório tremendo de traumas e conflitos emocionais não resolvidos na sua vida. Acredito que se não examinarmos essas partes de nós próprios, à medida que envelhecemos elas enraízam-se fisicamente no nosso corpo. Especificar o que isso significa, que há esta componente física deformada nele à medida que envelhece, unhas compridas, dedos que estão sempre a tentar chegar a algo, porque nunca cultivou a profundeza da estabilidade emocional que uma pessoa mais bem ajustada pode ter.

Quantas idades interpreta como Charlie Manx?

Há cinco fases na personagem. A fase um é a mais próxima da minha idade neste momento, na fase cinco ele tem 135 anos de idade. Foi preciso encontrar vocabulários específicos para cada uma das fases, vocalizações específicas. A sua respiração torna-se mais difícil e sibilante à medida que envelhece. Como é que integro isso na forma como ele comunica, como ele fala. No livro ele tem dentes muito maus, faz parte da personagem. Como é que ele fala com estes dentes? Há muitos elementos diferentes na construção do personagem e isso, para mim, é o trabalho mais excitante, algo que não tenho a oportunidade de fazer muitas vezes. Encontrar esta qualidade transformadora e desaparecer dentro da psique e do físico de um personagem foi um aspeto fantástico.

Charlie é um Fortes Criativo. O que significa isso?

São pessoas que têm a capacidade de ultrapassar os limites da realidade e da imaginação. Conseguem criar aquilo a que chamam inscapes, aspetos da sua imaginação que ganham forma numa realidade tridimensional. Há um buraco na sua dimensão que os Fortes Criativos conseguem atravessar. Para atravessar a distância entre a realidade e os inscapes, precisam de uma "faca" - para o Manx é o Rolls Royce Wraith, no caso da Vic McQueen é a sua mota, para a Maggie é um saco. Esta é a realidade que o Joe Hill criou na sua história e cada um de nós representa diferentes versões de Fortes Criativos. Somos capazes de transcender os limites que existem entre a realidade e a imaginação.

E eles podem ser bons ou maus...

Há um tema interessante sobre o poder da imaginação e da mente, as diferentes dimensões e o que criamos como realidade. Em última análise, controlamos a nossa realidade e a série explora isso de uma forma tangível. Controlamos a nossa realidade ao ponto de podermos criar outros destinos para irmos e expressarmos as nossas necessidades e desejos, tanto para o bem como para o mal. Isso não está muito longe do mundo em que vivemos.

Esta série poderá atingir um estatuto de culto similar a "Stranger Things"?

É sempre difícil prever como é que as pessoas vão responder. O nosso propósito é contar histórias que são convincentes, dinâmicas e atraem as pessoas. Temos de nos focar no nosso trabalho, porque é a única coisa que controlamos. A AMC é uma boa casa para esta série, tem apoiado muito o projeto. Sinto-me honrado por trabalhar com eles, há muito que sou fã da sua programação. Penso que estão a explorar novas formas narrativas e esta série representa isso. A série existe em dois mundos, um pelo qual são conhecidos, a narrativa emocional de séries como "Mad Men" e "Breaking Bad", e depois também entra no género de narrativa aumentada do tipo "The Walking Dead." É um híbrido fantástico para a AMC e como as pessoas vão responder é impossível de prever. Estamos muito excitados para poder partilhar com o mundo.

A série baseia-se no livro de Joe Hill. Vão mostrar a história toda que ele escreveu?

A primeira temporada explora o primeiro terço do livro. Há alusão à história passada do Charlie, mas não vamos lá ainda. É algo que poderemos fazer no futuro, se tivermos a sorte de regressar para uma segunda temporada.

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