No coração de um hospital a braços com a pandemia

Com estreia esta semana, Vitals transforma a realidade que vemos de forma fugaz nos telejornais num retrato humano demorado e sensibilizador. Um documentário em três partes sobre a vida e a morte em tempos de covid-19 num hospital de Barcelona.

O toque afetivo de umas mãos cobertas com luvas de látex. É pela memória deste gesto constante da enfermeira que César, um paciente de 58 anos, quase recuperado, que esteve internado nos cuidados intensivos com covid-19, reconhece quem o tratou durante semanas. Pelos olhos que espreitam por cima da máscara não ia lá, mas quando ela lhe pega na mão, ele diz imediatamente o seu nome: "És a Sílvia." Os laços que se criam com aqueles que fazem da profissão um ato de amor são a base de Vitals, a série documental em três partes que a partir de dia 7 estará disponível na HBO. Um registo feito no Hospital Parc Taulí em Sabadell, Barcelona, entre março e junho de 2020, durante o primeiro estado de emergência decretado pelo Governo espanhol.

A cumplicidade entre César e Sílvia é apenas uma das várias narrativas humanas - talvez a mais comovente - que a lente de Fèlix Colomer Vallès captou sobre esses primeiros tempos da pandemia na Europa. "Desde o início da crise causada pela covid-19, recebemos muitos dados da classe política e dos meios de comunicação social. Todos os dias 500 mortes, 2000 infeções, 300 internamentos na Unidade de Cuidados Intensivos, 200 casas de banho em falta no hospital... Números. Vitals quer deixar os números de lado e falar das pessoas." A declaração de intenções do realizador, que se lê no comunicado da HBO Portugal, traduz bem os alicerces deste olhar que vai desde as camas de hospital à vivência doméstica de algumas enfermeiras, passando pelas ruas desertas onde duas delas andam de bicicleta a caminho do trabalho ou de regresso a casa.

Os nomes das pessoas são importantes, e por isso Vallès coloca-os em letras garrafais no centro do enquadramento, junto com a indicação da idade, sempre que se vai começar a acompanhar o seu caso. Há uma mulher jovem, Vanessa, de 34 anos, que se queixa de taquicardia numa altura em que os próprios médicos não sabiam avaliar as sequelas da doença; há casais, como Alfredo e Matilde, que anseiam por sair do hospital ao mesmo tempo, neste caso, para celebrar 50 anos de vida partilhada, e outros que são definitivamente separados pela ofensiva impiedosa do vírus. A luta diária passa pelo tal carinho das mãos enluvadas, conversas de ânimo, mensagens de familiares, fotografias, canções e vídeo chamadas que procuram manter os níveis de coragem individual. E há também as palmas, claro, para quem conseguiu vencer a batalha e para os profissionais de saúde - quando as janelas ainda se enchiam de manifestações populares de gratidão.

Em Vitals testemunha-se igualmente o cansaço. Aquele que recai sobre as mulheres, já que quase todo o pessoal de enfermagem é do sexo feminino. A enfermeira Sílvia chega a casa com pouca energia para os abraços entusiasmados do filho mais novo, e a conversa às refeições não se desvia da realidade que lhe consome os dias. Não é fácil transmitir alegria aos doentes, estimular a sua recuperação - que depende em parte, e mais de que se pensa, de uma palavra amiga, do incutir de um espírito guerreiro -, ao mesmo tempo que se lida com a morte de outros e, da parte dos médicos, com a comunicação aos familiares.

Os três episódios do documentário, intitulados "Caos", "Esperança" e "Vida", seguem a evolução de alguns internamentos e permitem perceber as fases da doença, com as pequenas vitórias a surgirem como momentos luminosos numa enfermaria que se vai adaptando (tal como a sociedade), até do ponto de vista logístico, a um novo normal. E é nesse sentido que o registo de Vallès, sem tiques de reportagem televisiva, se torna um objeto singular, porque consegue oferecer uma imagem completa do que pode ser o ambiente de um hospital em tempos de pandemia; imagem essa que passa também pela descompressão do pessoal nas pausas para comer e pela formalidade das reuniões em que se analisam, entre outras coisas, a carência de materiais de proteção.

Pelo facto de se tratar de filmagens correspondentes ao período inicial da pandemia, Vitals contém os sinais de uma falta de planeamento - comum a todos os países - que se colmatou com um esforço conjunto. De resto, uma bravura que faz de cada episódio uma visão tocante e universal. Entenda-se: não é pela via do choque que somos convocados para estas histórias por detrás dos números, mas pela via dos afetos que nascem num cenário de adversidade. Ao realismo, por vezes, duro e de sensibilização, sobrepõe-se uma robusta mensagem de amor. Ou, se quisermos, um retrato de humanismo em estado puro.

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