Naomi Klein alerta contra o mundo em chamas

A explosão na plataforma de petróleo Deepwater Horizon levou Naomi Klein a investigar o acidente e as repercurssões em O Mundo em Chamas. Uma pré-publicação de livros que não estamos a poder ler. Leia outros livros aqui.

O buraco no fundo do oceano é mais do que um acidente de engenharia ou uma máquina avariada. É uma ferida violenta no organismo vivo que é a própria Terra. Em 20 de abril de 2010, uma plataforma petrolífera offshore da BP, a Deepwater Horizon, explodiu no golfo do México quando estava a fazer perfurações à maior profundidade alguma vez tentada. Onze membros da equipa de trabalho perderam a vida na explosão incandescente e a abertura do poço sofreu uma rutura, o que fez com que jorrasse petróleo incontrolavelmente do solo do oceano. Após muitas tentativas falhadas, o poço foi finalmente fechado em 15 de julho, deixando para trás quatro milhões de barris de petróleo (636 milhões de litros), o maior derrame alguma vez registado em águas americanas.

JUNHO DE 2010

Tinha sido repetidamente recomendado a todas as pessoas presentes na reunião da câmara municipal que tratassem com civismo os cavalheiros da BP e do governo federal. Estes distintos indivíduos tinham disponibilizado algum tempo na sua agenda ocupada para vir numa noite de terça‐feira a um ginásio de uma escola secundária em Plaquemines Parish, na Luisiana, uma das muitas comunidades costeiras onde o veneno castanho estava a alastrar pelos pântanos, parte do que viria a ser descrito como o maior
desastre ambiental na história dos Estados Unidos da América.

«Falem com os outros como gostariam que eles falassem convosco», implorou uma última vez o moderador da reunião antes de dar a palavra ao público.

Durante algum tempo, a assistência, constituída na sua maior parte por famílias dedicadas à pesca, demonstrou uma contenção admirável. Escutaram pacientemente Larry Thomas, um simpático e animado agente das relações públicas da BP, enquanto ele lhes dizia que estava empenhado em «fazer melhor» para processar as suas reclamações de rendimentos perdidos - e depois passou todos os pormenores para um subcontratante marcadamente menos simpático. Ouviram até ao fim o representante da Agência de Proteção Ambiental informá‐los de que, ao contrário do que tinham lido sobre a inexistência de testes e a proibição do produto no Reino Unido, o dispersante químico que estava a ser pulverizado em quantidades maciças no petróleo derramado era, na realidade, perfeitamente seguro. Contudo, a paciência começou a esgotar‐se na terceira vez em que Ed Stanton, um capitão da Guarda Costeira, subiu ao pódio para lhes garantir que «a Guarda Costeira tenciona assegurar‐se de que a BP limpa tudo».

«Ponha isso por escrito!», berrou alguém. Nessa altura, o ar condicionado tinha‐se já desligado e as malas térmicas já estavam com poucas garrafas de cerveja. Um pescador de camarões chamado Matt O"Brien aproximou‐se do microfone. «Não precisamos de continuar a ouvir isto», declarou, de mãos nas ancas. Não importava que garantias lhes eram oferecidas, explicou, porque «simplesmente não confiamos em vocês!». Ergueram‐se vivas tão altos da assistência que seria de pensar que os Oilers (a equipa de futebol americano da escola) tinham marcado um golo. O confronto foi catártico, se nada mais. Ao longo de semanas, os habitantes locais tinham sido submetidos a um fogo cerrado de palavras animadoras e promessas extravagantes provenientes de Washington, Houston e Londres. Sempre que ligavam a televisão, viam o diretor executivo da BP, Tony Hayward, a dar a sua palavra solene de que «endireitaria as coisas». Ou então era o presidente Barack Obama a exprimir a sua absoluta confiança em que a sua administração «deixaria a costa do golfo do México em melhores condições do que estava antes» e a dizer que estava a «assegurar‐se» de que «voltará ainda mais forte do que era antes desta crise».

Soava tudo maravilhoso. Contudo, para as pessoas cujo meio de vida as punha em contacto com a química delicada das terras pantanosas, soava também total e dolorosamente ridículo. Quando o petróleo cobre a base das ervas dos pântanos, como já acontecera a alguns quilómetros dali, nenhuma máquina milagrosa ou preparado químico pode retirá‐lo de modo seguro. É possível retirar petróleo da superfície de águas abertas e varrê‐lo de uma praia arenosa, mas um terreno pantanoso inundado de petróleo simplesmente fica ali, a morrer lentamente. As larvas de um número incontável de espécies, para as quais o pântano é um terreno de desova (camarões, caranguejos, ostras e peixes), serão envenenadas.

Já estava a acontecer. Antes nesse dia, atravessei os pântanos das imediações num barco para águas pouco profundas. Vi peixes a
saltarem em águas rodeadas por barreiras brancas, as tiras de algodão grosso e rede que a BP estava a usar para limpar o petróleo.
O círculo de tecido sujo parecia estar a apertar‐se à volta dos peixes como um nó cego. Ali perto, vi um melro empoleirado numa cana
de dois metros e dez de altura contaminada pelo petróleo. A morte estava a trepar lentamente pela cana; a pequena ave bem poderia
estar empoleirada num pau de dinamite aceso. E havia ainda que ter em conta a própria cana‐de‐roseau, como se chamam essas canas altas e afiadas. Se o petróleo se infiltrar suficientemente fundo no pântano, não só matará as canas acima da superfície, mas também as suas raízes. Essas raízes são o que escora as terras e evita o seu colapso para o delta do rio Mississípi e o golfo
do México. Portanto, locais como Plaquemines Parish não têm só a perder a sua atividade piscatória, mas também uma grande parte
da barreira física que atenua a intensidade de tempestades violentas como o furacão Katrina - o que poderia significar perder tudo.
Quanto tempo demorará até um ecossistema tão danificado como este ser «restaurado e tornado íntegro», como o secretário dos Assuntos Internos do presidente Obama prometeu?

Não é de modo nenhum claro que tal coisa seja remotamente possível, pelo menos não num enquadramento temporal que possamos facilmente compreender. A atividade piscatória no Alasca ainda não recuperou completamente do derrame de petróleo do Exxon Valdez em 1989 e algumas espécies de peixes nunca mais regressaram. Alguns cientistas do governo calculam agora que é provável que uma quantidade de petróleo semelhante à do Valdez esteja a entrar nas águas costeiras do golfo do México a cada quatro dias. Pode estimar‐se um prognóstico ainda pior do derrame de petróleo na Guerra do Golfo de 1991, quando cerca de onze milhões de barris de petróleo foram despejados no golfo Pérsico, o maior derrame de sempre. Esse petróleo entrou nas terras pantanosas e manteve‐se ali, infiltrando‐se cada vez mais fundo graças aos buracos escavados pelos caranguejos. Não é uma comparação perfeita, dado que foram efetuadas pouquíssimas operações de limpeza, mas, segundo um estudo conduzido doze anos depois do desastre, quase 90 por cento dos pântanos salgados e mangais que sofreram o impacto encontravam‐se ainda profundamente danificados.

O que sabemos ao certo é que, longe de ser «tornada íntegra», o mais provável é que a costa do golfo do México saia diminuída.
As suas águas ricas e o seu céu cheio de aves e insetos estarão menos vivos do que hoje. Também o espaço físico que muitas comunidades ocupam no mapa se reduzirá devido à erosão. E a cultura lendária da costa contrair‐se‐á e murchará ainda mais. As famílias ao longo da costa que se dedicam à pesca não se limitam a pescar. Mantêm uma rede intrincada que inclui tradições familiares, gastronomia, música, arte e línguas em perigo de extinção - à semelhança das raízes das canas que sustentam a terra no pântano. Sem a pesca, estas culturas únicas perdem o seu sistema radicular, o próprio solo em que se encontram. (A BP, pela sua parte, tem plena consciência dos limites da recuperação. O Plano Regional de Resposta ao Derrame de Petróleo no Golfo do México dá instruções específicas aos seus funcionários para que não façam «promessas de que a propriedade, a ecologia ou qualquer outra coisa serão restauradas até à normalidade» - o que, com certeza, é a razão por que os seus funcionários consistentemente preferem usar expressões mais populares como «endireitar as coisas».)

Se o furacão Katrina desvendou a realidade do racismo na América, o desastre da BP desvenda algo muito mais oculto: quão pouco até mesmo os mais engenhosos de entre nós controlam as espantosas forças naturais intrincadamente interligadas com que interferimos de maneira tão casual. A BP passou semanas a tentar fechar o buraco que tinha feito na terra. Os nossos líderes políticos não podem ordenar a espécies de peixes que sobrevivam ou a roazes que não morram em massa. Nenhuma indemnização em dinheiro pode substituir uma cultura que perdeu as suas raízes. E, embora os nossos políticos e os líderes económicos ainda não aceitem estas verdades que nos remetem à nossa insignificância, as pessoas cujo ar, cuja água e cujos meios de vida foram contaminados estão a perder as suas ilusões rapidamente.

«Tudo está a morrer», disse uma mulher quando a reunião da câmara municipal estava a chegar ao fim. «Como podem honestamente dizer‐nos que o nosso golfo é resiliente e voltará ao que era? Porque nem um de vocês que estão aí em cima faz a mínima ideia do que vai acontecer ao nosso golfo. Sentam‐se aí em cima com um ar sério e comportam‐se como se soubessem, quando não sabem.»

Esta crise da costa do golfo do México tem a ver com muitas coisas: corrupção, desregulação, dependência dos combustíveis fós‐
seis. No fundo tem a ver com isto: a crença terrivelmente perigosa da nossa cultura de que temos uma compreensão e um controlo
tão completos da natureza que somos capazes de a manipular e reestruturar radicalmente com um risco mínimo para os sistemas
naturais que nos sustentam. No entanto, como o desastre da BP revelou, a natureza é sempre mais imprevisível do que os modelos
matemáticos e geológicos mais sofisticados imaginam. Durante os depoimentos no Congresso americano, o diretor executivo da BP,
Hayward, disse: «As melhores mentes e a especialização mais profunda estão a ser canalizadas» para a crise, e, «com a possível
exceção do programa espacial da década de 1960, é difícil imaginar uma congregação de uma equipa maior e mais tecnicamente
proficiente num só lugar em tempo de paz». No entanto, em face do que a geóloga Jill Schneiderman descreveu como o «poço de
Pandora», eles são como os homens a defrontar‐se com a multidão furiosa na reunião da câmara municipal: comportam‐se como se
soubessem, mas não sabem.

A declaração de missão da BP

Ao longo da história da humanidade, a noção de que a natureza é uma máquina que nós reestruturamos à nossa vontade é um con‐
ceito relativamente recente. No seu livro pioneiro publicado em 1980, The Death of Nature [A Morte da Natureza], a historiadora
ambiental Carolyn Merchant recordou aos leitores que até ao século xvii a terra era vista como viva, usualmente assumindo a forma de mãe. Os europeus, tal como os povos indígenas por todo o mundo, acreditavam que o planeta era um organismo vivo, cheio de poder para dar vida, mas também com um temperamento irascível. Por essa razão, havia fortes tabus contra atos que deformassem ou profanassem «a mãe», incluindo a extração mineira. A metáfora mudou com a revelação de alguns dos mistérios da
natureza (mas de modo nenhum todos eles) durante a revolução científica seiscentista. Com a natureza a ser agora vista como uma
máquina, privada de mistério ou divindade, as suas partes componentes podiam ser contidas, extraídas e refeitas com impunidade.
A natureza continuava a aparecer por vezes como uma mulher, mas uma mulher facilmente dominada e subjugada. Sir Francis Bacon
sintetizou admiravelmente a nova cultura quando escreveu na obra de 1623 De dignitate et augmentis scientiarum que a natureza será «constrangida, moldada e tornada por assim dizer nova pela arte e pela mão do homem».

Essas palavras bem poderiam ser a declaração de missão da BP. Ocupando audaciosamente aquilo a que a empresa chamava «a
fronteira da energia», explorava a possibilidade de sintetizar micróbios produtores de metano e anunciou que «uma nova área de
investigação» seria a geoengenharia. E, é claro, gabava‐se de que na sua exploração petrolífera de Tiber, no golfo do México, tinha agora «o poço mais profundo alguma vez perfurado pela indústria do petróleo e do gás», a uma profundidade abaixo do solo do oceano equivalente à altura a que voam os jatos no céu. Imaginar o que aconteceria se estas experiências de alteração dos blocos fundamentais da vida e da geologia corressem mal e preparar‐se para essa possibilidade ocupavam pouquíssimo espaço na ima‐
ginação desta empresa. Como todos viemos a descobrir, depois de a plataforma da Deepwater Horizon explodir, a empresa não tinha sistemas preparados para responder efetivamente a esta eventualidade. Explicando por que nem sequer tinham na costa à espera de ser ativada a cúpula de contenção, em última instância sem sucesso, um porta‐voz da BP, Steve Rinehart, disse: «Não penso que alguém tenha previsto as circunstâncias com que nos deparamos agora.»

Aparentemente, como «parecia inconcebível» que o dispositivo para impedir explosões alguma vez falhasse, para quê preparar‐se? Esta recusa de considerar a possibilidade de fracasso vinha claramente direta do topo. Há um ano, o diretor executivo, Hayward, disse a um grupo de estudantes universitários na Universidade de Stanford que tem uma placa na sua secretária com as palavras «se soubesse que não poderia fracassar, o que tentaria fazer?». Longe de ser um benigno lema inspirador, era de facto uma descrição exata de como a BP e as suas rivais se comportavam no mundo real. Em audições recentes em Capitol Hill, o congressista do Massachusetts Ed Markey fez um interrogatório cerrado a representantes das principais empresas de petróleo e de gás sobre o modo como tinham atribuído os seus recursos financeiros.

Ao longo de três anos, tinham investido «39 milhares de milhões de dólares na exploração de novas fontes de petróleo e de gás. No entanto, o investimento médio na investigação e desenvolvimento na área da segurança, prevenção de acidentes e resposta a derrames foram uns meros 20 milhões por ano». Estas prioridades explicam em grande medida por que o plano inicial de exploração que a BP apresentou ao governo federal para o malfadado projeto Deepwater Horizon se lê como uma tragédia grega sobre a soberba humana. A expressão «risco mínimo» aparece cinco vezes. Mesmo que haja um derrame, a BP prevê com confiança que, graças a «equipamento e tecnologia com provas dadas», os efeitos adversos serão mínimos. Apresentando a natureza como uma sócia (ou talvez uma subcontratante) previsível e agradável, explica‐se animadamente no relatório que, se ocorresse um derrame, «as correntes e a degradação microbiana removeriam o petróleo da coluna de água ou diluiriam os constituintes a um nível aceitável». Os efeitos sobre os peixes, entretanto, «é provável que fossem subletais» devido «à capacidade que os peixes adultos e os crustáceos têm de evitar um derrame de petróleo [e] de metabolizar hidrocarbonos». (Na versão de um derrame da BP, em vez de uma terrível ameaça, ele surge como uma oportunidade de a vida aquática comer à farta.)

O melhor de tudo é que, se ocorresse um derrame, aparentemente haveria «pouco risco de contacto ou impacto na costa» por causa da resposta rápida projetada da empresa (!) e «devido à distância [da plataforma] da costa» (cerca de 77 quilómetros). Esta é a afirmação mais espantosa de todas. Num golfo que frequentemente é fustigado por ventos de mais de 70 quilómetros por hora, já para não mencionar furacões, a BP tinha tão pouco respeito pelas marés do oceano que não acreditava que o petróleo seria capaz de percorrer uns meros 77 quilómetros. (Um estilhaço da explosão da Deepwater Horizon apareceu numa praia da Florida a 306 quilómetros de distância.)

Nenhum deste desleixo teria sido possível, contudo, se a BP não estivesse a fazer as suas previsões a uma classe política ansiosa por acreditar que a natureza foi, de facto, dominada. Alguns, como a republicana Lisa Murkowski, estavam mais ansiosos do que outros. A senadora do Alasca sentiu‐se tão maravilhada com as extraordinárias imagens a quatro dimensões fornecidas pela indústria que proclamou que as perfurações a grande profundidade tinham atingido o cume da artificialidade controlada. «É melhor do que a Disneylândia em termos de como se pode pegar nas tecnologias e ir atrás de um recurso que tem milhares de anos e fazê‐lo de uma forma ambientalmente correta», disse ela ao comité da energia do Senado americano.

É claro que perfurar sem pensar tem sido a política do Partido Republicano desde maio de 2008. Quando os preços do gás aumentaram para valores sem precedentes, o líder conservador Newt Gingrich apresentou o slogan «Drill here, drill now, pay less» [«Perfurar aqui, perfurar agora, pagar menos], com ênfase no agora. A campanha extremamente popular foi um grito contra a cautela, contra o estudo, contra os atos medidos. Na versão de Gingrich, perfurar onde quer que se pudessem encontrar petróleo e gás - presos no xisto das montanhas Rochosas, no Refúgio Nacional da Natureza Selvagem do Ártico e nas profundezas do oceano - era uma maneira segura de fazer baixar o preço da gasolina nas bombas, criar postos de trabalho e dar um chuto nos árabes ao mesmo tempo. Em face desta tripla vantagem, a preocupação com o ambiente era para mariquinhas: como disse o senador Mitch McConnell, «no Alabama, no Mississípi, na Luisiana e no Texas, acham que as plataformas petrolíferas são bonitas». Quando se realizou a célebre Convenção Nacional Republicana «Perfura, baby, perfura», em 2008, as bases do partido estavam num tal frenesim de combustíveis fósseis extraídos nos Estados Unidos da América que teriam perfurado o chão do espaço onde se realizou a convenção se alguém tivesse trazido uma broca suficientemente grande.

Obama acabaria por ceder. Com um péssimo sentido de oportunidade, apenas três semanas antes de a Deepwater Horizon ir pelos ares, o presidente anunciou que abriria partes do país anteriormente protegidas a perfurações ao largo da costa. A prática não era tão arriscada como ele pensara, explicou. «As plataformas petrolíferas dos dias de hoje geralmente não causam derramamentos. São tecnologicamente muito avançadas.» Contudo, isso não foi suficiente para Sarah Palin, que troçou dos planos da administração Obama de conduzir mais estudos antes de fazer perfurações em certas zonas. «Meu Deus, minha gente, estas zonas já foram estudadas até à exaustão», disse na Conferência de Liderança Republicana Sulista em Nova Orleães só onze dias antes da explosão. «Vamos lá perfurar, baby, perfurar, não empatar, baby, empatar!» E houve grande júbilo.

No seu depoimento ao Congresso americano, Hayward, da BP, disse: «Nós e toda a indústria aprenderemos com este terrível acontecimento.» E poderia imaginar‐se que uma catástrofe desta magnitude instilaria de facto nos executivos da BP e na multidão do «Perfurar Agora» um novo sentimento de humildade. Contudo, não há sinais de que seja esse o caso. A reação ao desastre, ao nível da indústria e do governo, mostrou‐se imbuída do tipo exato de arrogância e previsões excessivamente otimistas que criaram a explosão.

«O golfo do México é um oceano muito grande», ouvimos a Hayward. «A quantidade de volume de petróleo e de dispersante que estamos a pôr nele é minúscula em relação ao volume total de água.» Por outras palavras: não se preocupem, o oceano aguenta. O porta‐voz John Curry, entretanto, insistia que os micróbios esfomeados consumiriam todo o petróleo que estivesse na água porque «a natureza tem maneira de ajudar a situação». Mas a natureza não tem colaborado. O jorro de petróleo das profundezas do mar derrotou todas as tentativas de controlo da BP, as chamadas «cartolas», «cúpulas de contenção» e «disparos de lixo»

(Três meses depois da explosão, o poço foi finalmente tapado.) Os ventos e as correntes do oceano tornaram as barreiras instaladas pela BP para absorver o petróleo uma verdadeira piada. «Nós avisámo‐los», disse Byron Encalade, o presidente da Associação de Criadores de Ostras da Luisiana. «O petróleo vai passar por cima das barreiras ou por baixo do fundo.» Foi de facto o que aconteceu. O biólogo marinho Rick Steiner, que tem seguido de perto a operação de limpeza, calcula que «70 ou 80 por cento das barreiras não estão a fazer absolutamente nada».

E há também a questão dos dispersantes químicos controversos: mais de quatro milhões e novecentos mil litros despejados, com a atitude de «o que poderia correr mal?» típica da empresa. Como os habitantes de Plaquemines Parish chamaram corretamente a atenção na reunião da câmara municipal, tinham sido feitos poucos testes e há escassa investigação sobre os efeitos desta
quantidade sem precedentes de petróleo dispersado sobre a vida marinha. Também não existe uma maneira de limpar a mistura
tóxica de petróleo e químicos abaixo da superfície. Sim, os micróbios de rápida reprodução devoram petróleo debaixo da água, mas
nesse processo absorvem igualmente o oxigénio da água, criando toda uma nova ameaça para a saúde da vida marinha.

A BP atrevera‐se até a imaginar que poderia evitar que escapassem da zona do desastre imagens chocantes de praias e aves cobertas de petróleo. Quando eu estive na água com uma equipa da televisão, por exemplo, fomos abordados por um outro barco, cujo capitão perguntou: «Vocês todos trabalham para a BP?» Quando respondemos que não, a sua reação ali no meio do oceano foi: «Então não podem estar aqui.» Mas é claro que estas táticas de intimidação, como todas as outras, fracassaram. Há simplesmente demasiado petróleo em demasiados locais. «Não se pode dizer ao ar de Deus para onde fluir e ir e não se pode dizer à água para onde fluir e ir», foi‐me dito pela ativista da justiça ambiental Debra Ramirez. Era uma lição que ela tinha aprendido ao viver em Mossville, na Luisiana, rodeada por catorze fábricas petroquímicas a lançarem emissões para o ar, e ao ver as doenças alastrarem de vizinho para vizinho.

O chorrilho de negações não dá sinais de estar a diminuir. Os políticos da Luisiana opuseram‐se indignados ao congelamento temporário das perfurações em águas profundas ordenado por Obama, acusando‐o de matar a única grande indústria que ainda resta, agora que a pesca e o turismo estavam em crise. Palin refletiu no Facebook que «nenhum esforço humano está alguma vez livre de riscos», enquanto o congressista republicano do Texas John Culberson descreveu o desastre como uma «anomalia estatística». Contudo, a reação de longe mais sociopata foi a do comentador de Washington de longa data Llewellyn King: em vez de virarmos as costas aos grandes riscos de engenharia, disse ele, devíamos fazer uma pausa «maravilhados por sermos capazes de construir máquinas tão notáveis que conseguem abrir o tampo do mundo subaquático».

Estancar a hemorragia

Felizmente, muitas pessoas estão a tirar uma lição muito diferente do desastre, espantando‐se não com a capacidade da huma‐
nidade de dar nova forma à natureza, mas com a nossa impotência para lidar com as ferozes forças naturais que soltamos. Há também uma outra coisa. É a sensação de que o buraco no fundo do oceano é mais do que um acidente de engenharia ou uma máquina avariada. É uma ferida violenta no organismo vivo que é a própria Terra. E, graças à câmara submarina da BP a transmitir em direto, todos podemos ver as entranhas do nosso planeta a jorrarem, em tempo real, vinte e quatro horas por dia.

John Wathen, um conservacionista da organização Waterkeeper Alliance, foi um dos poucos observadores independentes a sobrevoar
o derramamento nos primeiros dias do desastre. Depois de filmar as manchas espessas e vermelhas de petróleo a que a Guarda Costeira se refere delicadamente como «brilho de arco‐íris», afirmou o que muitos tinham sentido: «O golfo parece estar a sangrar.» Esta imagem surge uma e outra vez em conversas e entrevistas. Monique Harden, uma advogada de Direito Ambiental de Nova Orleães, recusa‐se a chamar ao desastre um «derramamento de petróleo» e diz antes «estamos em hemorragia». Outros falam da necessidade de «estancar a hemorragia». E a mim, ao sobrevoar aquela parte do oceano onde a Deepwater Horizon se afundou, deu‐me a impressão de que as formas espirais que o petróleo desenhava nas ondas se pareciam muito com desenhos rupestres: um pulmão esfumado a ofegar para receber ar, olhos erguidos a fitar, uma ave pré‐histórica.

Mensagens das profundezas.

E esta é com certeza a reviravolta mais estranha na saga da costa do golfo do México: parece estar a acordar‐nos para a realidade de
que a terra nunca foi uma máquina. Quatrocentos anos depois de ser declarada morta, e por entre tantas mortes, na Luisiana a terra está a voltar à vida. A experiência de seguir o trajeto do petróleo pelo ecossistema é em si própria um curso acelerado em ecologia profunda. Todos os dias ficamos a saber mais sobre como o que parece ser um terrível problema numa parte isolada do mundo de facto irradia de maneiras que a maioria de nós nunca poderia ter imaginado.

Num dia ficamos a saber que o petróleo poderia chegar até Cuba; a seguir, até à Europa. Depois ouvimos dizer que os pescadores
do Atlântico Norte, na ilha de Prince Edward, no Canadá, estão preocupados porque os atuns‐rabilho que apanham nas suas costas
nascem a milhares de milhas nas águas contaminadas por petróleo do golfo do México. E ficamos também a saber que, para as aves,
as terras pantanosas da costa do golfo do México são o equivalente a um aeroporto movimentado. Todas parecem passar em trânsito
por ali: 110 espécies de aves canoras migratórias e 75 por cento de todas as aves marinhas dos Estados Unidos da América.
Uma coisa é um especialista de uma incompreensível teoria do caos dizer‐nos que quando uma borboleta bate as asas no Brasil
pode desencadear um tornado no Texas. Uma outra é assistir ao desenrolar da teoria do caos perante os nossos olhos. Carolyn
Merchant sintetiza assim a lição: «O problema, como a BP descobriu tragicamente e com atraso, é que a natureza como força ativa não pode ser tão confinada.» Os resultados previsíveis são pouco usuais nos sistemas ecológicos, ao passo que «os eventos imprevisíveis e caóticos [são] usuais». E só para o caso de ainda não termos compreendido bem, há uns dias um raio atingiu um navio da BP como um ponto de exclamação, forçando‐o a suspender os seus esforços de contenção. E ninguém se atreve a especular sobre o que um furacão faria ao caldo tóxico da BP.

Deve sublinhar‐se que há algo singularmente retorcido nesta via particular para o esclarecimento. Diz‐se que os americanos aprendem onde ficam os países estrangeiros bombardeando‐os. Agora parece que estamos todos a aprender sobre os sistemas circulatórios da natureza envenenando‐os.

Em finais da década de 1990, um grupo indígena isolado na Colômbia cativou os grandes títulos dos jornais de todo o mundo com um conflito quase digno do filme Avatar. Do seu lar remoto nas florestas das terras altas dos Andes, os U"wa fizeram saber que, se a empresa Occidental Petroleum levasse a cabo os seus planos para fazer perfurações à procura de petróleo no seu território, eles cometeriam um suicídio ritual em massa saltando de um penhasco. Os anciãos da tribo explicaram que o petróleo faz parte do ruiria, «o sangue da Mãe‐Terra». Acreditam que toda a vida, incluindo a sua, deriva do ruiria, pelo que tirar o petróleo provocaria a sua destruição. (A Oxy acabou por se retirar da região, dizendo que não havia tanto petróleo quanto pensara previamente.)

Praticamente todas as culturas indígenas têm mitos sobre deuses e espíritos que vivem no mundo natural - em rochas, montanhas, glaciares, florestas -, tal como a cultura europeia antes da revolução científica. Katja Neves, uma antropóloga da Universidade de Concordia, chama a atenção para o facto de essa crença ter um objetivo prático. Chamar «sagrada» à terra é outra maneira de exprimir humildade perante forças que não compreendemos completamente. Quando algo é sagrado, exige que avancemos com cautela. Até mesmo com intimidação.

Se muitos de nós absorvêssemos por fim esta lição, as implicações seriam profundas. O apoio público ao aumento de perfurações offshore está a cair a pique, 22 por cento inferior ao pico do frenesim do «Perfurar Agora». Contudo, a questão não está arredada de uma vez por todas. Muitas pessoas insistem ainda que, graças a novas tecnologias engenhosas e novas regulações estritas, é agora perfeitamente seguro fazer perfurações no Ártico, onde uma limpeza debaixo do gelo seria infinitamente mais complexa do que a que está em decurso no golfo do México. Contudo, pode ser que desta vez não nos deixemos tranquilizar tão facilmente, não nos precipitemos a arriscar os poucos locais protegidos que ainda nos restam.

O mesmo pode dizer‐se em relação à geoengenharia. Com as negociações sobre as alterações climáticas em decurso, devemos preparar‐nos para ouvir mais intervenções do doutor Steven Koonin, o subsecretário da Energia para a Ciência de Obama. Ele é um dos principais proponentes da ideia de que as alterações climáticas podem ser combatidas com truques tecnológicos como libertar partículas de sulfato e alumínio para a atmosfera - e é claro que é tudo perfeitamente seguro, tal e qual como na Disneylândia! Ele é também por acaso o anterior cientista principal da BP, o homem que, apenas quinze meses antes do acidente, ainda supervisionava a tecnologia por trás da iniciativa supostamente segura de perfuração em águas profundas da BP. Talvez desta vez optemos por não permitir que Koonin faça experiências com a física e a química da terra e optemos antes por reduzir o nosso consumo e mudar para energias renováveis que têm a virtude de, quando falham, falharem em ponto pequeno.

O resultado mais positivo possível deste desastre seria não só uma aceleração das fontes de energia renovável como o vento, mas também uma adoção na íntegra do princípio de precaução na ciência. O princípio de precaução, o oposto do lema de Hayward «Se soubesse que não podia fracassar», postula que, «quando uma atividade suscita suspeitas de ameaças de danos ao ambiente ou à saúde dos seres humanos», avançamos cautelosamente, como se o fracasso fosse possível, até mesmo provável. Talvez possamos até arranjar uma nova placa para a secretária de Hayward para ele a contemplar enquanto assina os cheques das indemnizações: comportas‐te como se soubesses, mas não sabes.

Post scriptum

Quando visitei a costa do golfo do México para esta reportagem, o derramamento estava ainda em decurso e a maior parte dos impactos a longo prazo não era ainda conhecida. Nove anos depois, é evidente que algumas das previsões mais terríveis se revelaram corretas. Uma investigação da Federação Nacional da Vida Selvagem indica que três quartos dos roazes prenhes não conseguiram parir crias viáveis nos anos que se seguiram ao desastre. Em 2015, alguns relatórios indicaram que o derramamento fora um fator na morte de pelo menos cinco mil mamíferos, muitos deles golfinhos.

Além disso, perderam‐se entre dois e cinco biliões de peixes jovens na sequência do desastre, juntamente com mais de oito mil milhões de ostras. Isto contribuiu para perdas na indústria das pescas de cerca de 247 milhões de dólares de rendimento anual, de acordo com um relatório de 2015 do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais (NRDC). E tal como os pescadores com quem falei previam que pudesse acontecer, cerca de 12 por cento de todas as larvas de atum‐rabilho no golfo do México foram contaminadas pelo petróleo durante a época da desova de 2010, de acordo com um estudo do NRDC, sendo o impacto a longo prazo sobre as populações de atum ainda desconhecido.

As aves que vi nas canas cheias de petróleo do pântano também não tiveram melhor sorte. Numa investigação de 2013 da Universidade Estatal da Luisiana chegou‐se à conclusão de que só 5 por cento dos ninhos de pardais nas partes do pântano atingidas pelo petróleo sobreviveram após o derramamento, comparado com cerca de 50 por cento nas terras pantanosas não diretamente afetadas pelo petróleo derramado. Alguns estudos da Iniciativa de Investigação do Golfo do México demonstram que a vegetação do pântano até nove metros de distância da costa foi destruída e que se mantêm enterradas grandes quantidades de petróleo no sedimento, onde foi revolvido e libertado durante o furacão Harvey em 2012 (e, provavelmente, será de novo libertado em futuros desastres). De acordo com um estudo da Universidade Estatal da Florida, houve uma arrasadora perda de 50 por cento de biodiversidade no sedimento costeiro que sofreu o impacto do derramamento.

Um Mundo em Chamas

Naomi Klein

Editorial Presença

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